Samuel Aranda / The New York Times
Samuel Aranda / The New York Times

Bar gerenciado por imigrante é reduto de conservadores extremistas

Santuário gerido por um chinês é dedicado ao general Francisco Franco e frequentado por xenófobos

Patrick Kingsley, The New York Times

20 de março de 2019 | 07h30

MADRI - Entrar no Bar Oliva, é voltar atrás 44 anos. O General Francisco Franco, ditador de extrema direita, morreu em 1975, mas o seu espírito está vivo no bar, onde seus retratos estão pendurados nas paredes, seu busto está atrás do balcão, seu rosto aparece nos rótulos das garrafas de vinho e um mapa de sua vitoriosa campanha durante a Guerra Civil espanhola pende sobre uma mesa. “Franco presente!", declara um cartaz atrás da porta.

A extrema direita hoje é assim. Vários frequentadores afirmam que nas próximas eleições gerais votarão no Vox, partido xenofóbico que provavelmente se tornará a primeira agremiação de extrema direita em 40 anos a entrar no Parlamento espanhol. E o bar é um dos 12 assinalados em um mapa de estabelecimentos  favoráveis ao fascismo na Espanha, que circula entre os partidários do Vox.

“As pessoas vêm de toda a Espanha para ver este lugar”, disse o proprietário recentemente. “Elas visitam o Vale dos Caídos”, memorial a oeste de Madri onde Franco foi sepultado. “E depois vêm aqui”, acrescentou o proprietário Xianwei Chen.

Chen, como o nome pode sugerir, é uma surpresa. De fato, o proprietário de um bar frequentado por xenófobos é chinês. Aí está a contradição, reconhecem os clientes. “Nós sempre brincamos com ele: ‘Se Franco ainda estivesse vivo, mataria você’”, disse Jesús López, um taxista de 51 anos.

Embora Franco tenha banido todos os partidos políticos e os sindicatos independentes, censurado todos os jornais e ordenado a morte de centenas de milhares de adversários depois do seu golpe em 1936, Chen encontra muitas coisas para admirar nele. “Falam que, na época de Franco, as pessoas não tinham liberdade, mas era uma época diferente”, disse Chen, de 41 anos. 

“Olhe, graças a Franco, a Espanha não se envolveu na Segunda Guerra Mundial. Graças a Franco, a Espanha tinha seguridade social. E ele construiu barragens sem nenhuma ajuda de outros países”, continuou. 

O itinerário de Chen para a francofilia foi bastante improvável. Nascido na China, ele passou mais da metade da sua vida em Qingtian, um condado perto de Xangai que enviou centenas de milhares de emigrantes para a Itália e a Espanha. Em 1999, Chen se uniu à corrente migratória. Comprou o Bar Oliva em 2010.

Depois de aprender mais sobre Franco, em 2013 decidiu  transformar o local em um monumento a ele. “As pessoas falam muito de Franco, mas não o conhecem”, afirmou.

Para os críticos de Franco, Chen está certo - mas não pelas razões que ele aponta. Muitos espanhóis ainda precisam admitir o que foi a brutalidade de Franco, disse Antonio Maestre, um jornalista de esquerda. A “simples existência” do bar, afirmou, mostra a “total aceitação desta cultura de exaltação da ditadura” na sociedade espanhola. E as coisas vão bem, disse Chen. A ascensão do Vox atraiu mais clientes ao seu local, admitiu.“Muita gente que tinha este sentimento nacionalista perdeu o medo”, disse. “As pessoas não temem  se expressar”. / José Bautista colaborou com a reportagem

 

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