Al Drago para The New York Times
Al Drago para The New York Times

Barman refugiado faz trabalho de caridade no Camboja

Sambonn Lek chegou aos EUA na década de 1970, fugindo da Guerra do Vietnã

Elizabeth Williamson, The New York Times

27 Julho 2018 | 15h45

WASHINGTON - Sambonn Lek, bartender do hotel St. Regis, perto da Casa Branca, mistura há décadas os drinques que embalam as decisões dos mais poderosos e influentes. Quando o movimento diminui, ele mostra seus truques mágicos, que incluíam cuspir fogo (antes da intervenção do capitão dos bombeiros) usando bebidas fortes que eram cuspidas numa chama.

Mas o maior encanto de Lek acontece em seu país natal, Camboja, com a ajuda de seus fregueses abastados. Ele é um refugiado da época da Guerra do Vietnã convertido em filantropo, reunindo doações menores e maiores para financiar a Sam Relief, organização que constrói escolas, cava poços e oferece comida, roupas e material escolar no Camboja.

Desde 2000, sua organização sem fins lucrativos já construiu 27 escolas, cavou quase 400 poços, distribuiu 260 toneladas métricas de arroz e ofereceu 120 bolsas de estudos para crianças.

"Sam é uma dessas raras pessoas que encontraram sua vocação na vida, e é fácil de perceber isso", disse Kevin Moore, que conhece Lek há duas décadas.

Faz tempo que Lek é conhecido como personalidade local, e as decisões de sua carreira são acompanhadas pela indústria dos restaurantes e a mídia local. E embora seja um espetáculo entre as garrafas do bar, Lek se mostra mais soturno ao comentar as emoções que motivam seu trabalho.

Ele chegou aos Estados Unidos como estudante em 1974, pouco mais de um ano após os bombardeios americanos contra o Camboja. Um ano mais tarde, o país asiático sucumbiu ao controle do Khmer Vermelho. Seu líder, Pol Pot, supervisionou a morte de 2 milhões de pessoas. Os EUA ofereceram status de refugiados aos estudantes cambojanos que estavam no país, e Lek estava entre esses sortudos. Precisando de dinheiro, ele abandonou a faculdade antes de se formar. Em 1980, tornou-se cidadão americano.

Ele se lembra da data exata (07/04/1976) em que obteve um emprego de bartender no Town & Country Lounge, no conhecido hotel Mayflower, com seu passado repleto de história e uma longa lista de fregueses influentes. As habilidades de Lek com as misturas e seus truques mágicos atraíram fregueses regulares que se tornaram seus amigos.

Em 1998, a mãe de Lek morreu, deixando para ele US$ 2.500. Seguindo os preceitos de sua fé budista, ele usou o dinheiro para comprar "arroz para os pobres que não têm o que comer e roupas para que as crianças possam ir à escola". Ele contou dessa experiência a alguns fregueses, que também contribuíram, e assim nasceu a Sam Relief.

"Sam levava o dinheiro para o país durante as férias de verão, ia aos vilarejos e comprava arroz pessoalmente, para garantir que fosse entregue", disse James Meyers, que conhece Lek desde os anos 1970.

Em 2011, o Town & Country fechou, abrindo espaço para bares mais modernos. Lek trabalhou no novo bar do Mayflower, mas a atmosfera não era a mesma, e no final de 2013, ele e a mulher, Nara, voltaram ao Camboja, para continuar o trabalho de caridade e relaxar.

"Alguns de meus fregueses escreviam e-mails pedindo que eu voltasse", disse Lek. Ele e Nara perceberam que os EUA seu lar. "Meu coração e meu espírito estavam aqui", comentou.

Por meio de amigos, ele ficou sabendo que o St. Regis estava procurando um bartender. Lek conseguiu o emprego uma semana depois. "O carma positivo voltou para mim", contou. Depois de quatro anos afastado, Lek voltou a Washington.

A cidade é mais conhecida pelas jogadas dos poderosos do que pelo trabalho humanitário. O que inspirou essas pessoas a entregar milhares de dólares a um bartender?

"Apesar de algo que pode ser interpretado como uma mesquinhez do mundo de hoje, existe o impulso de ajudar. Somos todos responsáveis por nossos irmãos", disse Moore. "Pessoas como Sam nos lembram disso".

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