Diego Ibarra Sanchez para The New York Times
Diego Ibarra Sanchez para The New York Times

Basquete libanês mistura política e rivalidade nas quadras

Times tem ligações profundas com partidos políticos; 'É uma guerra sem tiros', diz professor

Vivian Yee, The New York Times

06 de junho de 2019 | 06h00

BEIRUTE, LÍBANO - O time deles jamais conseguiria virar o jogo. Mas isso não impediu os torcedores fanáticos de gritarem xingamentos contra os rivais. Alguns insultos eram do tipo que envolve a mãe, e outros de um gênero que os libaneses aprenderam a aperfeiçoar: o insulto político como grito de guerra esportivo.

O que eles disseram a respeito do presidente do Líbano, Michel Aoun, porta-estandarte do partido político que defende extraoficialmente o time rival, foi tão ofensivo que teve início uma briga generalizada. A tropa de choque tomou a quadra. Dirigentes que tentaram silenciar a multidão foram parar no hospital. 

“E ainda era um jogo perdido", queixou-se Akram Halabi, presidente da federação de basquete do Líbano. “Estavam perdendo por 33 pontos!” O esporte tem uma dimensão política no Líbano, onde as 18 seitas religiosas reconhecidas oficialmente e os partidos políticos às quais elas são afiliadas convivem pacificamente, trabalhando juntos e socializando, sem nunca deixar de buscar uma vantagem em relação às demais.

Cada time de basquete recebe financiamento de um patrocinador com elos políticos que, por sua vez, consegue a lealdade - e os votos - dos torcedores para seu partido político. Cores dos partidos decoram as camisas dos atletas. Nos estádios vemos não apenas as flâmulas dos campeonatos conquistados, mas também cartazes de padroeiros políticos, como o do ex-primeiro ministro Rafic Hariri, assassinado, sempre visto quando um desses times joga em casa. Muçulmanos sunitas torcem para um time financiado por sunitas; cristãos maronitas torcem para um time cristão maronita e os armênios torcem para a equipe armênia.

O basquete libanês é “uma guerra sem tiros", disse o professor Danyel Reiche, da Universidade Americana de Beirute, que pesquisa o elo entre a política e o esporte. Os torcedores do time sunita, Al-Riyadi, costumam vestir roupas vermelhas quando o time joga contra o Homenetmen, time armênio, como referência à bandeira da Turquia - onde mais de um milhão de armênios foram massacrados durante o genocídio de um século atrás.

Levando em consideração o tamanho da sua população (cerca de seis milhões de pessoas), o Líbano é bom no basquete. A seleção do país venceu a China no ano passado, mas não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo deste ano. Os torcedores logo citam o mais recente jogador libanês a decolar na carreira: Rony Seikaly, astro nascido em Beirute que jogou na NBA por mais de uma década.

Halabi está tentando despolitizar o esporte e torná-lo mais profissional com acordos de transmissão pela TV e patrocinadores sem laços políticos. Jogadores estrangeiros e libaneses de diferentes religiões jogam por todos os times, atraindo muitos seguidores independentemente do seu histórico. Reiche lembra de ter ido a jogos em que o Riyadi era o mandante, e o público cantava vivas à Virgem Maria sempre que um jogador cristão marcava pontos.

Ainda assim, com exceção das partidas da seleção (seguidas por torcedores de todas as fés e eleitores de todos os partidos), os momentos de cortesia tendem a ser breves. Quando pediram ao técnico esloveno Slobodan Subotic, que comandou o Riyadi antes de assumir a seleção nacional, que descrevesse os torcedores libaneses, ele disse: “São loucos! Totalmente loucos!”

Daniel Faris, um americano de ascendência libanesa que joga por Champville e conseguiu dupla cidadania para jogar na seleção do país, diz já ter testemunhado tantas brigas que aprendeu a evitar os comentários provocativos. “Simplesmente defendo o time que tiver me contratado", disse ele. “Não me envolvo nas encrencas.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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