Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Batalhas, palácios e conspirações são filmados no maior set do mundo

Mais de 2,4 mil filmes e séries de TV foram feitos nos estúdios Hengdian, nas colinas ao leste da China; ao todo, são 13 instalações distribuídas por mais de mil hectares

Steven Lee Myers, The New York Times

19 de dezembro de 2018 | 06h00

HENGDIAN, CHINA - Se você vai fazer um filme na China sobre antigos guerreiros que defendem um reino mítico, ou um guerrilheiro que resiste à ocupação japonesa nos anos 1930, ou qualquer variação desse ramo da indústria de entretenimento chinesa, a maior probabilidade é que você venha a filmar em Hengdian.

A cidade abriga os Estúdios Mundiais Hengdian, alegadamente o maior set de televisão e cinema do mundo. Mas não se trata apenas de um set, são 13 deles, distribuídos por mais de mil hectares dentro e ao redor do que já foi uma vila agrícola nas colinas da província de Zhejiang, no leste da China.

Existem outros estúdios na China, como o Shanghai Film Park, por exemplo. Mas só em Hengdian há uma recriação do palácio de Qin Shi Huang, que governou no século 3 a.C. na região hoje conhecida como Xi’an, ou uma reconstrução da capital da dinastia Song do Norte, que reinou entre os séculos 10 e 12.

Existe até uma Cidade Proibida - surpreendentemente realista e apenas um pouco menor que a de verdade, em Pequim. A única coisa que parece estar faltando em seu imenso portão de entrada é a fotografia de Mao Tsé-Tung. Só que o portão foi inspirado na época da dinastia Ming, e não na última versão, conhecida desde o século 17 como Tiananmen. “Esses cenários não existem mais”, disse o diretor Guo Huizhong.

O cinema apaga as fronteiras entre realidade e fantasia, e os estúdios Hengdian fazem isso melhor do que qualquer outro lugar. “Foi aqui que a imperatriz se suicidou”, disse Xu Hailei, assistente de estúdio, em uma visita guiada à falsa Cidade Proibida. “Ela pulou de lá”, disse Xu, descrevendo a morte da Imperatriz Fucha, um fato histórico da China do século 18, mas também a cena de uma das séries mais sensacionais do ano, ‘A História do Palácio de Yanxi’, um épico de setenta episódios.

‘Palácio Yanxi’ passou no iQiyi, a versão chinesa da Netflix, de julho a agosto, e continua online na China e em dezenas de outros países. Assistida mais de 20 bilhões de vezes, sua popularidade influenciou tudo, desde a moda até o debate sobre a campanha #MeToo na China.

A série também atraiu mais visitantes a Hengdian, que distribui mapas e cartões postais com os locais onde a série foi filmada, incluindo a edificação do título, que significa “o palácio da felicidade prolongada”.

Foi lá que as concubinas dos imperadores da dinastia Qing viveram e conspiraram até o local ser incendiado, em meados do século 19. O que existe na Cidade Proibida é uma reconstrução de 1931. Ye Yunfeng, 24 anos, veio com o namorado de Lishui, uma cidade não muito distante, porque queria ver o salão onde se reunia o Grande Conselho do imperador.

“Os detalhes da série são muito bons”, explicou ela. “As roupas, os penteados e os cenários são muito fiéis aos fatos históricos”. A julgar pelos comentários postados online, os criadores de ‘Palácio Yanxi’ e seus fãs creditam grande parte de seu sucesso à atenção aos detalhes históricos. Bordadeiras artesanais recriaram os vestidos e chapéus da época - mais de 3 mil peças.

Os estúdios Hengdian foram fundados em 1996 por um dos primeiros bilionários da China, Xu Wenrong. O grupo Hengdian fez fortuna com componentes eletrônicos nos primeiros anos da transição capitalista do país. Quando um conhecido precisou de um local para rodar o filme ‘A Guerra do Ópio’, sobre a derrota da China para a Grã-Bretanha no século 19, Xu concordou em construir um set de filmagens na cidade natal da empresa.

Desde então, mais de 2,4 mil filmes e séries de televisão foram feitos lá. Existem 400 diferentes sets de filmagens, cobrindo toda a amplitude da história, da cultura e da arquitetura da China.

Duas áreas recriam Guangzhou e Hong Kong tal como pareciam no século 19, ambas construídas para ‘A Guerra do Ópio’. 

Outra área reproduz o Palácio Imperial de Verão, que foi saqueado por soldados britânicos e franceses em 1860. Suas ruínas estão preservadas em Pequim. Há também uma recriação da base militar do Partido Comunista de Yan’an e uma réplica de um templo budista cujo original já foi fechado ao público.

“Muitas pessoas aprendem história pela televisão”, disse Zheng Junnan, assistente de produção de um melodrama ambientado na dinastia Qing. Yuxuan Honghao, 26 anos, ator de uma série sobre concubinas, disse que a atenção aos detalhes históricos nem sempre foi uma prioridade, mas que ‘A História do Palácio Yanxi’ está influenciando outras produções.

“As coisas nos livros de história são apenas textuais”, disse ele. “Filmes e séries de televisão podem restaurar a história chinesa, as pessoas podem realmente ver como as coisas eram”.

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