The New York Times
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Beatles ganham museu em local de meditação na Índia

O 'ashram' onde os músicos se refugiavam para meditar e compor ganha vida nova e atrai visitantes de todo o mundo

Kai Schultz, The New York Times

28 Fevereiro 2018 | 10h01

RISHIKESH, Índia - Em 1968, os Beatles e uma equipe de agregados atravessaram uma floresta densa até chegar a um ashram (local de meditação) em Rishikesh, na Índia, onde passaram semanas compondo músicas.

Ali estavam George Harrison, seguidor dedicado da meditação transcendental, John Lennon e Paul McCartney, que começavam a brigar a respeito da direção que a banda deveria seguir, e Ringo Starr, baterista da banda, que ficou tão perturbado com os sabores picantes da Índia a ponto de levar consigo um estoque de feijões para sua estadia no ashram.

"Se analisarmos todas as fotografias de Ringo em Rishikesh, veremos que há poucas nas quais ele está sorrindo", disse Raju Gusain, jornalista local.

Hoje em dia, a floresta engoliu os edifícios arruinados do ashram, ocultando os vestígios da passagem dessas celebridades por suas salas. Mas o complexo deve ganhar vida nova, com planos de reformas de muitas estruturas.

Um novo museu no local vai mostrar o legado dos Beatles e do Maharishi Mahesh Yogi, o guru com quem os membros da banda tiveram uma ruptura brusca no fim de sua estadia em Rishikesh. Do outro lado do mundo, em Liverpool, Inglaterra, o museu The Beatles Story, dedicado à banda, vai inaugurar no mês que vem uma exposição para comemorar os 50 anos da viagem à Índia.

Com o passar dos anos, com o aumento do número de ocidentais que viajaram à Índia em busca de iluminação espiritual, Rishikesh cresceu muito. Mas, quando os Beatles chegaram, o lugar era uma cidade sonolenta às margens do Ganges.

Os Beatles compuseram boa parte de "The White Album" durante as semanas que passaram no ashram. A maioria dos dias era dedicada a tarefas simples como meditar e compor, mas a ambientação não era exatamente espartana. O bangalô do Maharishi, à beira de um precipício, onde a banda se reunia para palestras, tinha um heliporto nas imediações, e os quartos eram equipados com lareiras elétricas.

Muitos dos edifícios originais foram demolidos, mas algumas estruturas sem marcação de 1968 ainda estão de pé, disse Anand Srivastava, sobrinho do Maharishi.

Esses edifícios incluem o escritório dos correios onde Lennon esperava pelas cartas de Yoko Ono e o quarto onde dormia o Maharishi, semelhante a uma cripta, atualmente habitado por morcegos. Um conjunto de 84 cavernas de meditação enegrecidas também sobreviveu.

O ashram continuou funcionando por muitas décadas. Mas, no início dos anos 2000, o terreno passou a ser propriedade do governo indiano, levando ao seu abandono. Em 2008, o Maharishi, que tinha se mudado para a Europa, morreu.

Quando o ashram foi reaberto ao público em 2015, parte de uma campanha para atrair turistas para a região, a maioria dos edifícios tinha sido vandalizada.

Um edifício industrial e aberto apelidado de Galeria da Catedral dos Beatles foi tomado por um coletivo de artistas e preenchido com centenas de citações das canções da banda.

O número de turistas ainda é baixo, com cerca de 13 mil pessoas (em sua maioria indianas) visitando o ashram no ano passado. Abaixo do ashram, institutos de ioga se multiplicaram ao longo do Ganges, e há um café com produtos sem glúten dedicado à música dos Beatles.

Mas os visitantes indianos de longa data disseram que a Rishikesh que existia na época da vinda dos Beatles e a cidade dos dias de hoje são difíceis de reconciliar.

Bhuvneshwari Makharia, de Mumbai, que visitou Rishikesh durante anos, disse que o rigor dos ashrams e de cursos de ioga foi gradualmente diluído para atender às expectativas de estrangeiros que procuram doses mais rápidas de energização cósmica.

"Se eles querem vir aqui, que seja para conhecer nossa cultura, e não para que esta fique mais ocidentalizada para o consumo deles", disse ela. "Estamos nos transformando para atender às demandas deles".

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