Kin Cheung/Associated Press
Kin Cheung/Associated Press

Bebês geneticamente modificados são o atual dilema ético chinês

Cientistas afirmam que a vontade de alcançar o sucesso científico é tão grande que alguns adotam a abordagem de 'fazer primeiro, debater depois'

Sui-Lee Wee e Elsie Chen, The New York Times

10 Dezembro 2018 | 06h00

PEQUIM - Primeiro foi a proposta de transplantar uma cabeça para um novo corpo. Depois, os primeiros primatas clonados do mundo. Agora, são os bebês geneticamente modificados. Esses recentes anúncios científicos, produzindo reações que variaram entre o desconforto e o choque, tinham algo em comum: todos envolveram cientistas chineses.

Os cientistas do país estão acostumados às manchetes chamativas. Mas, quando He Jiankui anunciou no fim de novembro que tinha criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo, os cientistas chineses (como os do restante do mundo) condenaram o experimento como um passo longe demais. Agora, muitos perguntam se o foco do país nos feitos científicos não interferiu no respeito aos princípios da ética.

“Ele estudou nos Estados Unidos. Por que só fez isso na China?” disse Wang Yifang, especialista em ética médica da Faculdade de Humanidades Médicas da Universidade de Pequim. “Talvez isso esteja ligado ao fato de termos uma lacuna na nossa supervisão ética - não é muito rigorosa, e alguns a consideram dispensável.”

Mais de 100 cientistas chineses denunciaram a pesquisa do Dr. He - ele alterou geneticamente embriões que foram implantados numa mulher, que daria à luz gêmeas - como “loucura". O vice-ministro de ciência e tecnologia da China disse que as atividades científicas do Dr. He seriam suspensas, descrevendo a conduta dele como “chocante e inaceitável".

O Dr. He disse estar orgulhoso do próprio feito, dizendo que o objetivo era criar bebês que não fossem vulneráveis à infecção pelo HIV. O presidente Xi Jinping estabeleceu como meta transformar a China numa “potência científica e tecnológica global” até 2049. Diante de uma população cada vez mais velha e doente, o governo está gastando milhões de dólares especificamente na missão de se tornar líder na “tecnologia de manipulação genética".

Antes de se tornar famoso, o Dr. He era visto por quem o conhecia como uma moderna história de sucesso na China. Nascido numa família de agricultores de uma das regiões mais pobres da província de Hunan, ele se formou em física pela Universidade de Ciência e Tecnologia da China. Estudou biofísica na Universidade Rice, em Houston, Texas, onde trabalhou pela primeira vez com o Crispr, a tecnologia de edição genética que ele diz ter usado para alterar os genes dos bebês.

Em 2012, ele voltou à China, instalando-se nos arredores de Shenzhen, no sul do país. O Dr. He fundou duas empresas de testes genéticos que buscavam usar o sequenciamento genético para propósitos medicinais. 

Muitos cientistas na China dizem que o ímpeto de alcançar o sucesso é tão forte que eles adotam uma abordagem do tipo “fazer primeiro, debater depois”. O professor Wang Yue, do Instituto de Humanidades Médicas da Universidade de Pequim, disse que muitos cientistas tinham pouco conhecimento da ética da medicina e das leis e regulamentações relevantes para suas respectivas áreas de atuação.

“É verdade que muitos cientistas são muito ousados e encaram a ciência como seu reino independente", disse o Dr. Wang. “Assim, não se mostram dispostos a dar ouvidos ao mundo exterior.” O anúncio do Dr. He foi um acerto de contas para a modificação genética. Jennifer Doudna, também inventora do Crispr e professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, disse que se tratava de “uma oportunidade para mudar nossa maneira de regulamentar o uso científico dessa tecnologia", possivelmente tornando mais específicos os parâmetros éticos “um pouco vagos”.

Na China, muitos dizem que uma atualização das leis que regem as pesquisas genéticas é há muito necessária. Um ex-ministro da saúde, Huang Jiefu, pediu a criação de um corpo central para a supervisão de experimentos de biociência, de acordo com o jornal estatal Global Times. Ele disse que as regras do país para experimentos com embriões, criadas em 2003 - as mesmas regras que o governo acusa o Dr. He de ter violado -, estão ultrapassadas.

O professor de imunologia Wang Yuedan, da Universidade de Pequim, disse que as penalidades para a violação dessas regras são fracas, sem efeito vinculante, e não especificam os castigos previstos.

“O que ocorreu dessa vez foi um desastre ético para o mundo", disse o Dr. Wang. “Mas, talvez, o episódio incentive os cientistas e pesquisadores da área biomédica de todo o mundo, incluindo a China, a prestarem mais atenção aos parâmetros éticos das pesquisas envolvendo o corpo humano.”

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