Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Bebês são lembretes do horror vivido pelos Rohingya, grupo étnico que sofre perseguição

ONU acusa campanha do exército de Myanmar de genocídio

Hannah Beech, The New York Times

13 Julho 2018 | 10h00

KUTUPALONG, Bangladesh - No campo de refugiados, Noor nunca recebia o suficiente para comer e, assim, confundiu a sensação estranha na barriga com a fome. Mas, quando se revelou o volume inconfundível de um bebê, a adolescente não pôde mais ignorar a sensação.

Com seus inconfundíveis uniformes verdes, soldados de Myanmar estupraram Noor durante dias no ano passado: primeiro no vilarejo dela, depois na floresta, disse. Ela então fugiu com outros 700 mil muçulmanos da etnia Rohingya com destino a Bangladesh, onde ela vive atualmente no maior campo de refugiados do mundo.

Ela trazia consigo um crescente lembrete da brutal campanha do exército de Myanmar para exterminar uma minoria indesejada por meio de massacres, estupros e incêndios criminosos de vilarejos inteiros. 

O bebê, concebido numa explosão de violência contra os Rohingya que as Nações Unidas dizem consistir num possível genocídio, torna tudo impossível de esquecer.

Todos nos campos de refugiados Rohingya em Bangladesh sabem dos estupros e de como o exército de Myanmar vem usando há décadas a violência sexual como arma de guerra, particularmente contra grupos étnicos que não pertencem à maioria budista do país.

Eles sabem que nada disso é culpa das meninas e mulheres Rohingya, que em muitos casos foram vítimas de estupros coletivos sob ameaça de armas, com suas mães, irmãs ou filhas frequentemente chorando e gritando nos arredores. Ainda assim, na tradicional sociedade muçulmana Rohingya, o estupro traz a desgraça para lares inteiros.

Como resultado, muitas sobreviventes acabam sofrendo em dobro: ao trauma da violência sexual segue-se o ostracismo numa sociedade conservadora que as abandona num momento em que precisam muito de apoio.

Não há uma contagem do número de bebês concebidos em situações de estupro, mas funcionários de saúde dizem que houve um aumento nos partos que coincidiria com os estupros ocorrido no final de agosto e setembro do ano passado, período de violência mais intensa contra os Rohingya.

“Tivemos um número bem maior de nascimentos em maio e junho em relação aos demais meses", disse Hamida Yasmin, parteira bengali que trabalha nos campos. “Todos perguntam se isso é resultado dos estupros. Não consigo pensar em outra explicação.”

Numa sociedade que celebra as crianças (é comum as famílias Rohingya terem seis, sete ou oito filhos) os bebês que estão nascendo tendem a receber um tratamento diferente.

Os traficantes se aproveitaram, espalhando que podem aliviar as mulheres de seus recém-nascidos indesejados. Quando nasce uma criança de pele mais clara, a mãe é obrigada a suportar os boatos de que o bebê seria da etnia majoritária de Myanmar, Bamar. Além disso, grupos humanitários alertaram para um aumento na violência doméstica.

“Todos admitem que isso está acontecendo, mas ninguém quer admitir que isso ocorreu na própria família", disse o bengali Mohammad Ali, que supervisiona os campos de Rohingya.

A partir do momento em que sua barriga começou a crescer, Noor, identificada apenas pelo primeiro nome, permaneceu em seu abrigo, escondendo-se do julgamento dos outros. Ela não tem marido nem sabe ao certo a própria idade. Os avós calculam que tenha entre 16 e 18. “Meus pais eram os únicos que sabiam minha idade", disse Noor. “Mas eles estão mortos.”

O pai morreu no ano passado enquanto tentava escapar dos soldados que arrasaram o vilarejo de Buthidaung, no estado de Rakhine, em Myanmar. A mãe está desaparecida e, provavelmente, morta. Noor tem um irmão de 10 anos que está vivo. Mas os parentes decidiram que o menino não deve ser associado ao nome da irmã e, por isso, ele vive com uma tia em outro campo de refugiados.

Dias antes do parto, Noor continuava escondida no abrigo, sobrevivendo com escassas rações distribuídas para refugiados. Ela tinha decidido que o bebê seria entregue a um traficante de seres humanos quando nascesse. “Quero me casar", disse ela. 

“Isso não vai acontecer se eu tiver um bebê.”

A cada dia, os chutes do bebê dentro dela se tornavam mais vigorosos, e os pesadelos de Noor com os homens de verde e suas armas voltaram a ela. Nenhuma equipe médica acompanhou a gravidez dela, mas a jovem ouviu dizer que, nos campos de Bangladesh, há médicos com curas milagrosas.

“Será que eles têm uma pílula para a tristeza?”, indagou ela, com as mãos sobre o ventre. “Vou precisa de um remédio desses depois que o bebê nascer.”

Mais conteúdo sobre:
refugiado

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.