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Guy Martin/The New York Times
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Beisebol no Reino Unido confronta os problemas com o sexismo

Um tuíte sexista e a recusa em deletá-lo levaram a gerente geral da seleção feminina britânica a pedir demissão em protesto, mas o esporte a quer de volta

David Waldstein / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 05h00

Não é exagero dizer que Amanda Hocking dedicou sua vida ao beisebol – especialmente o beisebol feminino – no Reino Unido. Praticar o esporte era seu sonho desde criança. Isso tornou os acontecimentos recentes duplamente dolorosos para Hocking e a levou a renunciar ao cargo de gerente geral da seleção feminina de beisebol do Reino Unido.

Em 25 de abril, Hocking, que é conhecida como Doris, ficou chocada e enojada ao ver uma postagem na conta da Federação Britânica de Beisebol no Twitter. Parecia uma tentativa grosseira da federação de usar uma imagem sexualizada de uma jogadora de topless para promover a nova liga de beisebol feminino do Reino Unido, fundada por Hocking.

A imagem mostrava uma jogadora vista por trás, usando um capacete e segurando uma luva. A jogadora parecia estar sem a parte de cima do uniforme ou vestindo uma roupa frente única. À esquerda da imagem estava o logotipo da liga feminina, dando a aparência de sua aprovação. Apesar dos pedidos para que o tuíte fosse retirado, ele permaneceu no ar por horas, e o presidente da federação inicialmente o defendeu.

Em uma semana, a postagem levou tanto à renúncia de Gerry Perez, ex-presidente da Federação Britânica de Beisebol, quanto à de Hocking, causando indignação na pequena, mas apaixonada, comunidade britânica do beisebol, por causa de uma questão que reflete um problema em curso nos Estados Unidos.

Revelações de assédio sexual e má conduta depois de notícias de que executivos e treinadores de vários times haviam se comportado de maneira inadequada em relação às mulheres tem preocupado a Liga Principal de Beisebol dos EUA nos últimos meses. O incidente na Inglaterra demonstrou que esse problema não se restringe ao beisebol americano.

"Isso partiu meu coração. Desde criança, meu sonho era jogar beisebol no Reino Unido, construir essa liga e ser levada a sério. Mas meu sonho foi destruído", disse Hocking sobre sua renúncia, no dia quatro de maio, em uma entrevista diretamente de sua casa em Camelford, na Cornualha, sudoeste da Inglaterra.

Como nos Estados Unidos, o episódio foi um catalisador para que muitas pessoas examinassem mais de perto as atitudes do beisebol britânico em relação às mulheres. Ao contrário, porém, do que houve nos EUA, muitos na comunidade britânica do beisebol rapidamente se uniram em torno de Hocking e condenaram a liga britânica.

No Reino Unido, os jogadores não ganham a vida jogando beisebol, por isso há muito menos em jogo. Mas muitas equipes emitiram declarações condenando o tuíte e a falta de uma resposta rápida da federação. Os jogadores ameaçaram boicotar os jogos, a menos que uma ação fosse tomada.

"Foi gratificante ver isso. O apoio das equipes masculinas à Doris e ao jogo feminino tem sido incrível e acho que esse incidente lamentável nos deu a oportunidade de aprender", afirmou Tracey Wilkes, torcedora britânica dos New York Mets que mora em Sheffield, na Inglaterra, e é uma das apresentadoras do Birds with Balls, podcast britânico sobre beisebol.


Para muitos, o tuíte em si foi apenas a origem do problema. A falta de arrependimento da federação e sua decisão inicial de defender a imagem, em vez de apagá-la, jogaram lenha na fogueira do conflito.

Drew Spencer, o treinador da equipe masculina britânica, também supervisiona os times masculinos e femininos regionais. Ele contou que ficou chocado e desapontado com o tuíte, e imediatamente estendeu a mão a Hocking para lhe dar apoio. "Assim que o vi, soube que seria um grande problema. Foi devastador para Doris. Ela literalmente dedicou sua vida ao beisebol britânico", comentou Spencer, californiano que atuou como jogador central no Dartmouth College, na década de 1990, antes de se mudar para a Inglaterra.

Hocking, de 34 anos, que tinha sete quando sua mãe lhe deu de presente uma luva de beisebol, jogava com seu irmão e alguns amigos no campo de futebol do bairro, mas eles nem sabiam as regras. Quando era adolescente, sempre ficava de olho no eBay em busca de uma máquina de arremesso e, aos 19 anos, procurou a Federação Britânica de Beisebol para saber se havia algum time ou alguma liga para mulheres. Indicaram-lhe o softball, que não lhe interessou. Ela estava apenas começando a pensar em formar uma seleção feminina, quando desmaiou devido a um caso grave de colesteatoma, tumor na pele do ouvido médio, que atingiu seu cérebro. Os médicos declararam que ela não viveria além dos 27 anos. "Eu tinha aceitado que ia morrer e até planejei meu funeral", contou.

Uma nova tecnologia a laser eliminou o tumor e Hocking se recuperou, ainda que com alguns problemas de equilíbrio relacionados aos danos ao ouvido interno. Embora tenha recuperado a saúde, ela lutou para lidar com as mudanças em sua vida, até que um dia viu um anúncio na rede social de uma liga mista de beisebol na Cornualha. Ela entrou, e sua paixão pelo beisebol e seu espírito foram renovados. "Esse anúncio salvou minha vida. Não tinha nada que me tirasse da cama. Desde então, tudo mudou."

Mas, ao olhar para aquele tuíte, o jogo tão amado parecia ter se voltado contra ela. Quando Hocking viu pela primeira vez o post da mulher sem camisa, considerou-o de mau gosto, mas sentiu que o problema seria facilmente remediado se ele fosse excluído. "Todo mundo comete erros. Você resolve e continua", observou. Assim, ela mandou uma mensagem a Perez e pediu a ele que removesse a postagem. "É óbvio que a jogadora na imagem está sem camisa e isso não é apropriado. Você pode alterar ou remover a imagem, por favor? Obrigada", escreveu Hocking em um texto que mostrou ao The New York Times.

Perez inicialmente se recusou, alegando que a mulher na imagem não estava de topless. Em vez disso, respondeu a Hocking, alegando que a imagem originalmente tinha um uniforme, mas que um editor havia alterado a foto "para que não se pudesse ver o nome dela".

A Liga Britânica de Beisebol deixou o post aberto por aproximadamente 12 horas antes de excluí-lo, apesar dos pedidos cada vez mais incisivos de Hocking e de outras pessoas. Hocking disse que achou as respostas de Perez insultantes.

Apesar de várias tentativas de contato com Perez por e-mail e mensagem de voz, ele não respondeu aos pedidos de comentário.

Em sete de maio, com o aumento da pressão, Perez renunciou. Poucos dias depois, a liga britânica pediu desculpas a Hocking e a toda a liga feminina, acrescentando que planejava trabalhar com Hocking e a seleção feminina para analisar as "falhas estruturais dentro da liga que levaram ao infeliz incidente".

Hocking afirmou que, assim que a situação se acalmou, ficou animada com a demonstração de apoio que recebeu. Ela continua concentrada na nova liga nacional, mas ainda não está pronta para retomar sua posição como diretora da seleção feminina. Spencer disse que espera que Hocking reconsidere. Afinal, o beisebol feminino moderno no Reino Unido é principalmente o resultado da visão e do trabalho de Hocking. "Ninguém faz nada sozinho, mas, se Doris não tivesse criado a liga feminina de beisebol do Reino Unido e não tivesse se tornado um farol de esperança para as mulheres em todo o país, provavelmente os times não existiriam hoje", concluiu Spencer.

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