Sima Diab/The New York Times
Sima Diab/The New York Times

A liberdade dos cachos naturais: a rebelião silenciosa do Egito

Há dezenas de anos, muitos egípcios alisam o cabelo em sinal de adesão a um padrão de beleza conservador, influenciado pelo Ocidente. Agora, muitos jovens rejeitam tudo isto

Vivian Yee, The New York Times - Life/Style

29 de abril de 2021 | 05h00

CAIRO – Os egípcios lembram muito bem de um comercial de TV dos anos 80: duas mulheres na frente do espelho – uma com volumosos cachos escuros, a outra exibindo uma abundante cabeleira, elegante, luminosa. “O meu cabelo é cacheado”, diz a primeira, fazendo uma careta enquanto luta com o pente. “Gostaria de usar um penteado mais bonito para este casamento”.

“O cabelo cacheado não é um problema”, afirma a outra. “Venha aqui, ainda temos tempo”. Mais tarde, graças a uma aplicação do creme alisador Glatt Schwarzkopf a primeira mulher volta diante do espelho, o pente agora escorrega facilmente por seu cabelo macio.

“Meu cabelo é tão lindo”, sussurra.

Durante dezenas de anos, muitas mulheres egípcias receberam a mensagem e diligentemente alisaram os seus cachos enquanto os homens cortavam os seus bem curtos, suprimindo sua textura natural considerada desleixada e pouco asseada. Por trás destas atitudes está um profundo preconceito de classe e social muito antigo. Se os passaportes, os produtos e os padrões ocidentais de beleza são apreciados no Egito, o oposto existe para tudo que é demasiado “baladi”, ou “interiorano”, como dizem os egípcios – ou tudo que eles acreditam faça lembrar dos árabes subsaarianos, como o cabelo naturalmente encaracolado.

No entanto, recentemente, os cachos voltaram a ser apreciados em todo o Egito, como um lembrete visível das mudanças sutis que estão ocorrendo na sociedade egípcia que para muitos egípcios mais jovens remontam aos dias exaltados da revolução de 2011, quando protestos em massa derrubaram um ditador. Embora o governo tenha reprimido a liberdade de expressão nos últimos anos, os jovens egípcios vêm rejeitando algumas das normas conservadoras do passado, mesmo que seja apenas na sua aparência.

Considerando a forte pressão exercida sobre as jovens egípcias em particular para se conformarem – imposta pela família, as amigas e pessoas que assobiam na rua –, o cabelo cacheado pode constituir uma forma de desafio.

“Eu não questionava tudo isto”, disse Doaa Gawish, fundadora da Hair Addict, um fórum on-line e uma companhia de produtos para o cabelo com cerca de 500 mil seguidores nas redes sociais em todo o Egito e no Golfo Pérsico. “Depois, quando decidi aderir. fiquei louca comigo mesma e com a sociedade. Agora, quando olho para o cabelo natural, vejo a quantidade de caráter que ele reflete e a quantidade de independência”.

Atualmente, há também mais egípcios mostrando mais abertamente tatuagens ou ostentando cortes de cabelos drásticos. Mas notam-se principalmente os cachos.

As cabeças cacheadas não atraem mais tantas zombarias nas ruas do Cairo. Influenciadoras digitais de cabelos cacheados ganham dezenas de milhares de seguidores e alimentam uma mini indústria de salões de cabeleireiros e de produtos para o cabelo de produção local.

O cabelo cacheado continua sendo usado nas minorias aqui: as mulheres egípcias que exibem abertamente seus cachos em geral são jovens e ricas, enquanto os cachos visíveis continuam raros nos bairros de classe média e trabalhadora do Cairo, assim como nas áreas rurais. Ali, muitas mulheres costumam cobrir a cabeça em público, e tanto os homens quanto mulheres são alvos de vaias e insultos por causa das roupas inusitadas, das tatuagens ou do chamado cabelo rebelde.

E mesmo enquanto os estilos naturais se tornam mais aceitos, o preconceito de classe e de raça permanece generalizado.

Entretanto, os enormes cartazes de publicidade nas rodovias da cidade e sobre os viadutos agora ostentam modelos coroadas com amplas cabeleiras flutuantes, torcidas, cacheadas e afros, uma mudança tectônica em comparação com o antigo comercial da Glatt.

“Aquele anúncio me enlouquecia” disse Soraya Hashem, 38, gerente da G Curls, um salão de beleza especializado em cachos. “Havia uma espécie de pressão social e o cabelo cacheado, o look natural, não era bem-vindo. Era como dizer: ‘O seu cabelo é cacheado demais, procure uma cabeleireira, tenha uma aparência elegante”.

Podia ser até pior. Algumas jovens egípcias lembram que suas professoras ordenavam que elas acabassem com os cachos. Outras afirmam que os empregadores em potencial ficavam desconcertados por causa do cabelo.

“Eu  fui rejeitada em vários empregos, porque o cabelo cacheado diz que a pessoa não é uma verdadeira profissional e mostra irresponsabilidade”, comentou uma usuária do Instagam chamada Deena Othman em um post de uma influenciadora egípcia de cabelo cacheado, Dina Ghalwash, que tem mais de 84 mil seguidores.

Ghalwash, que se identifica como @curltalks, na rede social, postou que “as mesmas pessoas que costumavam chamar o meu cabelo ‘mankoosh’ e ‘akrat’ ”– que poderíamos traduzir como “desarrumado” e “grosseiro” no árabe antigo – “são as mesmas que perguntam como eu faço agora, e tentam imitá-lo”.

Esta mudança levou anos.

No início dos anos 2000, uma famosa cantora libanesa, Myriam Fares, deixou uma impressão persistente na região com a sua cascata de cachos dourados. O cabelo natural voltou a fazer sucesso entre as mulheres pretas nos EUA mais ou menos nessa época, dando origem a produtos e cabeleireiros especializados em cacheados. As redes sociais levaram a mudança para o Egito e ajudou a promover movimentos voltados para produtos de beleza totalmente naturais, para o bem-estar e a auto-aceitação.

O astro do futebol Mohamed Salah e seu estilo afro tornaram-se ícones nacionais no Egito e os cabelos cacheados agora aparecem comumente no tapete vermelho no Festival de Cinema de El Gouna, uma extravagância anual às margens do Mar Vermelho.

Para muitos, o fator mais importante foi a praticidade. O alisamento constante pelo calor ou por meio de produtos químicos pode enfraquecer e prejudicar o cabelo, tornando-o quebradiço e provocando a sua queda.

Depois que Gawish começou a postar mensagens sobre tratamentos feitos com ingredientes naturais, em 2016, seus seguidores no Facebook saltaram de 5 mil usuários para 80 mil em poucos meses, contou. Ela e seus seguidores começaram a deixar os cachos expostos, e passam a trocar dicas e encorajamento.

O que deveriam fazer a respeito de uma festa de casamento próxima? Ou uma entrevista de emprego? Ou quando um chefe olha para os seus cachos e diz: ‘Esta não é a companhia adequada para você’?

Ghada e-Hindawy, 44, abriu a G Curls depois de pesquisar tratamentos para o cabelo cacheado da filha, porque não queria que ela sofresse com o alisamento.

A desaprovação cultural do cabelo cacheado ‘faz muito mal para o cabelo e para a alma”, disse Ghada. “Quando você usa os cachos, o seu cabelo tem uma aparência saudável. Agora as pessoas querem adotar o estilo natural, encarar a si mesmas, aceitar-se”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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