Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Kasey Clark via The New York Times
Kasey Clark via The New York Times

O milenar segredo da beleza dos peixes-beta

Cientistas descobriram que os peixes foram domesticados gradualmente, como cães que tiveram linhagens modificadas para ostentar lindas formas e cores

Annie Roth/The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 05h00

Por séculos, a beleza dos peixes-beta cativou a atenção das pessoas. Seus corpos esguios e nadadeiras alongadas, que oscilam na água como seda, assumem uma miríade de cores vibrantes, raramente vistas na natureza.

Os betas, contudo, também conhecidos como peixes-de-briga-siameses, não se tornaram obras de arte vivas por conta própria. As elaboradas cores dos betas e suas longas e fluídas nadadeiras são produto de um milênio de cuidadosa seleção sexual. Ou, como coloca Yi-Kai Tea, candidato a doutorado pela Universidade de Sydney que estuda evolução e é especializado em peixes, “literalmente o equivalente em peixe dos cães domesticados”.

Um novo estudo, carregado em abril no servidor de pré-impressão BioRxiv, demonstra por meio de sequenciamento genético que os humanos começaram a domesticar os betas há pelo menos mil anos. Um milênio de cuidadosa seleção ocasionou a estonteante diversidade de peixes-beta domésticos que existe hoje, mas também fez com que peixes-beta tanto domésticos como selvagens passassem por vastas transformações genéticas. Estudando os genes desses peixes, argumentam os autores da pesquisa, cientistas conseguem aprender muito sobre como a domesticação altera os genes de animais selvagens.

Tea, que não se envolveu na análise, elogiou a pesquisa por ser “o primeiro grande estudo a destrinchar as bases genéticas desse notável fenômeno” nos peixes, afirmou ele.

Todas as 73 espécies de beta se originaram no Sudeste Asiático. Mas a espécie onipresente em lojas de bichos de estimação e mercados de pulgas é a Betta splendens. Betas domesticados dessa espécie são muito mais coloridos do que a maioria das espécies selvagens.

“Betas selvagens podem se diferenciar muito em relação aos betas ornamentais”, afirmou Young Mi Kwon, pesquisadora da Universidade Colúmbia e principal autora do estudo. “Eles têm nadadeiras curtas, cores mais suaves e não apresentam o marcante baile de nadadeiras que encontramos nas variedades ornamentais.”

Betas domésticos também são “muito agressivos”, afirmou ela. “A gente não pode colocar dois betas macho no mesmo tanque, pois eles vão atacar um ao outro e lutar até a morte.”

Betas selvagens são muito menos agressivos. Isso ocorre provavelmente porque as espécies ornamentais “foram domesticadas inicialmente para brigar, como em rinhas de galo”, afirmou Kwon.

Até o fim do século 19, os criadores de beta começara a colocar foco na criação de variedade ornamentais dos peixes, que ficaram muito populares no Ocidente. “Essa história deu forma às variedades ornamentais de betas que vemos hoje - peixes lindos e mal-humorados”, afirmou ela.

Para determinar exatamente a maneira como essa história deu forma aos betas ornamentais que vemos hoje, Kwon e uma equipe de cientistas coletou amostras de DNA de betas selvagens e domésticos e sequenciou seus genomas.

“Ficamos surpresos ao constatar há quanto tempo eles fazem parte da história da humanidade - eles foram domesticados há pelo menos mil anos, num dos processos de domesticação de peixes mais antigos que conhecemos”, afirmou Kwon. É muito mais tempo do que o sugerido por estudos anteriores citados pela pesquisa, afirmando que os betas começaram a ser criados em cativeiro para briga no século 13.

A pesquisa também deu luz aos motivos pelos quais os criadores conseguiram produzir dezenas de variedades de beta. Há betas vermelhos, amarelos e azuis, betas com nadadeiras compridas ou curtas e até betas com as cores da bandeira tailandesa. Os peixes podem assumir, provavelmente, qualquer forma ou cor que sejamos capazes imaginar.

“Muitas das características que os criadores selecionam são reguladas por pouquíssimos genes, que surtem efeitos enormes”, afirmou Kwon. “Isso significa que não são necessários muitos cruzamentos para para conseguir a característica ou as características que desejarmos para os peixes.”

Como esperado, os pesquisadores também descobriram que os betas domésticos são geneticamente diferentes dos seus primos na natureza. Contudo, surpreenderam-se ao constatar que, no passado e em anos recentes, betas domésticos se acasalaram com betas selvagens. Essa hibridização, que provavelmente resultou do fato de betas domésticos serem soltos na natureza, poderia minar esforços de conservação.

“Os ferozes betas domésticos - se forem mais fortes do que os betas selvagens - podem dizimar populações selvagens”, afirmou Kwon. Muitas espécies selvagens de beta estão ameaçadas de extinção, principalmente como resultado de perda de habitat.

Ao estudar a história evolucionária desses peixes em maior detalhe, porém, os pesquisadores esperam melhorar nosso entendimento a respeito de como a domesticação altera a genética das espécies.

Apesar de ainda haver muito o que ser aprendido sobre como a domesticação afeta os betas, esse processo produziu uma infinidade de peixes lindos, cujas cores e formas fantásticas poderiam nunca ter existido, não fosse a intervenção humana.

Betas tão extravagantes quanto as variedades domésticas “dificilmente ocorreriam na natureza”, afirmou Tea. “É como esperar que chihuahuas ocorram naturalmente, sem intervenção humana.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
DNAgenéticapeixe

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.