Mary Turner/The New York Times
Mary Turner/The New York Times

Salões de beleza britânicos estão se especializando em cabelos de pessoas negras

Conhecidos por tratar mal clientes negros, novos padrões do setor podem melhorar atendimento, mas alguns especialistas temem que a mudança coopte a clientela dos salões de beleza com donos negros

Aina J. Khan e Charlie Brinkhurst-Cuff, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 05h00

LEEDS, Inglaterra - O zumbido da máquina de cortar cabelo interrompe o silêncio dentro do Piranha Hair Studio enquanto Qasim Sajjad ensina como cortar o cabelo de clientes negros. O dono do salão de beleza, Brian Swarry, oferece instruções adicionais via chamada de vídeo enquanto um aprendiz de cabeleireiro acompanha atentamente.

Seria uma cena absolutamente trivial, não fosse pelo fato de o aprendiz de cabeleireiro ser branco.

Durante anos, Swarry, 48 anos, conhecido como Barber B, cultivou sua reputação em um setor voltado para clientes brancos ao ensinar aprendizes de todos os perfis a cortar o cabelo negro. A maioria dos cabeleireiros britânicos certificados nunca aprendeu como fazê-lo, e nem exigiu-se deles que o soubessem.

“Dez anos atrás, não havia onde pudéssemos aprender a cortar o cabelo no estilo afro”, disse Swarry.

Agora as agências que definem os padrões de qualidade da profissão na Grã-Bretanha sinalizam com uma mudança, ainda que seja cedo para saber qual será a dimensão dessa mudança ou o quão rapidamente ela será sentida. Em maio, após anos de pressão de grupos de defesa dos direitos civis e de uma revista de moda, a Autoridade da Indústria de Salões de Beleza e Cabeleireiros disse que vai atualizar seus padrões de certificação para que os cabeleireiros possam atender as “necessidades da diversificada comunidade britânica”.

A questão imediata era se cada aprendiz teria que aprender a cortar o cabelo negro, independentemente da sua raça. A resposta segue indefinida, porque trata-se de um setor vasto e descentralizado, com pelo menos seis organizações de licenciamento que certificam os milhares de cabeleireiros formados nos cursos técnicos todos os anos.

Poucos ambientes comerciais são tão pessoais e intimistas quanto um cabeleireiro. Se para muitos esteticistas negros a mudança no padrão é profundamente significativa, outros temem que a mudança traga nova concorrência para os salões e cabeleireiros com donos negros, que lutaram duramente ao longo dos anos para ocupar este nicho.

Não há dúvida que as comunidades negras são mal atendidas na Grã-Bretanha. De acordo com um levantamento, há no país apenas 314 cabeleireiros para negros em meio a quase 45.000 estabelecimentos do tipo registrados. Em algumas cidades, pode levar semanas até conseguir um horário. Outros cabeleireiros às vezes recusam os clientes negros, dizendo que seus profissionais não foram treinados para atendê-los.

Com a Grã-Bretanha envolvida no debate de como confrontar a desigualdade racial, a estética do cabelo negro assumiu crescente importância cultural e política, incluindo livros, documentários e campanhas voltadas para o tema. A Halo Collective chamou atenção para a estigmatização de que os penteados negros são alvo nas escolas e na força de trabalho. E, em 2020, uma adolescente recebeu £ 8.500 (cerca de US$ 11.800) em um acordo extrajudicial depois de ser impedida de frequentar a escola repetidas vezes por causa do penteado natural.

No sudeste de Londres, Monique Tomlinson supervisiona o Peckham Palms, um salão de beleza e cabeleireiro afro. Muitas das mulheres que trabalham ali são autodidatas e agora são estimuladas a aperfeiçoar suas habilidades com treinamento formal.

Afastando as mechas cacheadas, Monique disse que demorou muito para a sociedade em geral reconhecer que o cabelo afro é lindo e merece cuidados.

“Não vou me sentar e agradecer pelas migalhas recebidas”, disse Monique. Ela atribuiu a mudança de atitude em relação ao cabelo ao movimento Black Lives Matter e à crescente importância da cultura negra na Grã-Bretanha.

Carmen Maingot, uma empreendedora negra, teria aberto o primeiro salão de alisamento para cabelos da Grã-Bretanha no distrito de North Kensington, Londres, em 1955, quando as negras na Europa frequentemente alisavam o cabelo e o penteavam imitando os padrões de beleza europeus.

Dois anos mais tarde, a pianista Winifred Atwell, de Trinidad, que se tornou a primeira artista musical negra a alcançar o primeiro lugar nas paradas de singles britânicas, abriu um salão na região de Brixton, no sul de Londres, depois de estragarem seu penteado.

Zainab Swanzy, autora do livro A Quick Ting On: The Black Girl Afro, ainda não lançado, disse, “O cabelo afro sempre foi ignorado pelos cabeleireiros britânicos tradicionais”.

Ela disse que os imigrantes negros que chegaram ao país após a 2ª Guerra - conhecidos como geração Windrush - “foram aconselhados a trazer as próprias ferramentas e produtos para cabelo do Caribe, pois, ao chegar na Grã-Bretanha, não havia um só cabeleireiro que pudesse ajudá-los”.

Nos anos 1970, salões de beleza profissionais dedicados aos negros eram empreendimentos solitários em Bradford, cidade no noroeste da Inglaterra. Hoje, Calma Ritchie, 55 anos, tem uma clientela leal em seu salão, XL Hair Design, mas no começo ela atendia na sala de casa ou na cozinha.

Ela logo obteve seu certificado, mas foi treinada apenas a cortar o cabelo “europeu”. Não havia instrução formal para cortes em negros, o que levou Calma a treinar nos filhos.

Para Nicola Oates, 39 anos, de Tamworth, uma cabeleireira branca recém-certificada, um recado muito diferente foi transmitido durante um curso de treinamento no ano passado. Quando ela sugeriu que os aprendizes deveriam treinar cortes para o cabelo negro, a instrutora disse que ela só poderia trazer pessoas de cabelo “normal” para treinar.

“Deveríamos ser capazes de atender qualquer pessoa que sente na cadeira, seja para fazer um corte ou sugerir um penteado, e jamais recusar o serviço”, disse Nicola, que assinou uma petição no ano passado para tornar obrigatório o treinamento em cabelo não liso. Para aprender, ela recorreu a tutoriais de especialistas em cabelo negro no Instagram.

Mas ainda está em aberto a questão do quanto as mulheres negras terão interesse em serem atendidas por cabeleireiros cujo cabelo difere do seu.

“Quem cresceu lidando com uma certa textura aprende a manipulá-la e a penteá-la”, disse Monique. “É muito trabalhoso, não basta pensar, ‘OK, vou aprender a fazer penteados negros’.”

Há também a preocupação com a possibilidade de uma mudança nos padrões de instrução afastar a clientela dos salões de beleza que pertencem a negros.

“A indústria foi mantida e incubada pelas negras desde o início”, disse Margot Rodway-Brown, dona do salão Adornment365, um dos muitos estabelecimentos que oferecem serviços especializados na beleza afro natural na região de Brixton, em Londres, que abriga uma das maiores comunidades negras da Grã-Bretanha.

“Não foi a L’Oréal que nos procurou e disse, ‘Agora vocês podem fazer penteados afro’”, disse ela. “Teremos um acesso verdadeiro para pessoas da nossa comunidade? Se agora vamos compartilhar as habilidades que desenvolvemos, e que nos conferem uma vantagem competitiva, como fica nossa participação no mercado?”

Para Marvina Newton, 36 anos, a padronização do treinamento com cabelos mais texturizados pode ser positiva se der poder aos salões de donos negros. “Quero gastar meu dinheiro em empreendimentos de negros”, disse ela. “Que os recursos sejam destinados a cabeleireiros negros que podem ensinar aos brancos como fazer nossos penteados.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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