Robbie Lawrence/The New York Times
Robbie Lawrence/The New York Times

Benedict Cumberbatch e os monstros entre nós

O ator está recebendo algumas das melhores críticas de sua carreira por seu papel como um valentão cruel em “Ataque dos cães”. Veja o que foi necessário para se tornar aquele cowboy explosivo

Roslyn Sulcas, The New York Times - Life/Style

31 de dezembro de 2021 | 05h00

No início das filmagens de "Ataque dos cães", o novo psicodrama sinistro de Jane Campion, a diretora reuniu os atores e a equipe em um local remoto e magnífico em South Island na Nova Zelândia, que funcionava como cenário para Montana. Depois de uma bênção maori, Campion começou as apresentações. "Este é Phil Burbank", ela disse enquanto Benedict Cumberbatch avançava. “Benedict é muito legal, e vocês vão conhecê-lo no final das filmagens.”

Phil, o personagem inteligente, agressivo e zangado interpretado por Cumberbatch, é o mais velho de dois irmãos que administram uma próspera fazenda de gado, e ele não é nada legal. Ele domina e insulta seu irmão quieto e gentil, George (Jesse Plemons), e sua hostilidade sempre latente encontra um alvo fácil quando George se casa com Rose (Kirsten Dunst), uma viúva local com um filho adolescente sombrio, Peter (Kodi Smit- McPhee). Phil é um cowboy macho alfa, moreno e sujo (literalmente). Mas aos poucos começamos a entender que Phil, que estudou grego e latim em Yale, também está desempenhando um papel.

“Do seu jeito seco, com aquela apresentação, Jane me deu permissão para ser Phil”, disse Cumberbatch em uma entrevista por vídeo de sua casa na Inglaterra. Com um cabelo bem mais exuberante do que o de Phil e sem o olhar assustador do personagem, ele estava relaxado e articulado enquanto discutia o papel. “Ele é abominável, mas há um poço profundo de dor ali, essa vida não vivida, algo preso que molda a forma com a qual ele se comporta. Se não entendemos os monstros em nosso mundo, o que motiva esse comportamento, se não podemos olhar alguém para além da maldade ou bondade, então estamos em apuros. ”

Para interpretar esse monstro complexo e controlador, Cumberbatch se concentrou na fisicalidade do papel como nunca antes, aprendendo a cavalgar, trabalhando com animais, incorporando totalmente o domínio visceral de Phil sobre seu ambiente. Uma experiência inebriante para Cumberbatch, que já gerou conversas sobre Oscar e algumas das melhores críticas que ele já recebeu. “Cumberbatch está surpreendente no papel, o ator amarra seu sarcasmo padrão com um laço de ameaça constrita”, escreveu David Ehrlich do IndieWire. “O desempenho inesquecível resultante - definitivamente o melhor da carreira - é ao mesmo tempo intimidador e aterrorizante.”

Campion, a primeira mulher a ganhar o prêmio principal em Cannes, por “O Piano” em 1993, adaptou “Ataque dos cães” de um romance de 1967 de Thomas Savage. O filme, que teve um lançamento nos cinemas em 17 de novembro e está sendo transmitido pela Netflix desde 1º de dezembro, é o seu primeiro em doze anos e o primeiro a apresentar um protagonista masculino. Campion disse em uma entrevista por telefone que há muito admira a capacidade de Cumberbatch de "fazer algo inesperado". Para Phil, você quer “a coragem e a capacidade de atuação para criar alguém que se possa odiar e temer. Ele é possivelmente um dos personagens mais interessantes da literatura americana."

O filme chega apenas algumas semanas após outro tour de force de Cumberbatch, “The Electrical Life of Louis Wain”, dirigido por Will Sharpe (na Amazon Prime desde 5 de novembro). Nele, ele interpreta o ilustrador Louis Wain, emocionalmente frágil, socialmente desajeitado e brilhantemente talentoso, que no final do século 19 se tornou famoso por seus desenhos antropomórficos e lúdicos de gatos.

Louis é o oposto de Phil, um homem incapaz de cumprir os papéis tradicionalmente masculinos de provedor e autoridade em uma época que exige que ele cuide de sua mãe e de cinco irmãs solteiras. Inconvenientemente, ele se apaixona e se casa com Emily (Claire Foy), a governanta de suas jovens irmãs; quando ela fica doente, ele desenha gatos para animá-la.

“Com o tempo, conforme a vida de Louis tem uma série de reviravoltas dramáticas, seu amor por gatos se aprofunda e sua arte muda, assim como o filme e a atuação em camadas de Cumberbatch, com sua abertura, ternura e controle performativo”, escreveu Manohla Dargis em uma crítica no New York Times.

Sharpe disse que o ator “não tinha medo de se colocar em nenhuma situação”, acrescentando em uma entrevista por telefone que havia “alguma coincidência entre Louis e Benedict; um diário sobrecarregado, cheio de energia, cheio de ideias''. 

Cumberbatch disse que havia adorado tudo em Louis Wain. “Tive uma ligação semelhante com a que tive com Alan Turing quando fiz 'O jogo da imitação': ambos eram personagens calmos em um mundo muito barulhento”, ele disse, acrescentando que ficara comovido com os problemas de saúde mental de Wain, “como aquela época barulhenta, mecanizada e industrializada poderia apagar alguém que foi um verdadeiro herói para tantas pessoas ao longo das gerações”.

Cumberbatch, que chegou à fama há cerca de uma década como um Sherlock Holmes rabugento, brilhante e emocionalmente desconectado na série da BBC “Sherlock”, está acostumado com personagens totalmente idiossincráticos. Ele recebeu uma indicação ao Oscar por sua interpretação de Turing; ganhou um prêmio BAFTA pelo papel de um inglês rico abusado e viciado em drogas na minissérie da Showtime “Patrick Melrose”; interpretou Hamlet e Frankenstein no palco; e atualmente é o Dr. Estranho no Universo Cinematográfico da Marvel. (Ele está no próximo "Homem-Aranha: Sem volta para casa”.)

“Eu encaixo muitos parênteses chatos em minha descrição pessoal”, disse Cumberbatch, 45, que é casado e tem filhos. “Sinto-me atraído pela alteridade dessas pessoas, pela diferença da minha própria experiência. Eu quero entender isso por dentro, não pensar, ‘Ah, eu sei como é isso’.”

Cumberbatch passou meses se preparando antes que a filmagem na Nova Zelândia, que começou em janeiro de 2020, fosse interrompida por um lockdown e retomada três meses depois. Ele começou com um álbum que Campion havia montado. “Isso me deu uma noção da sensualidade do filme, da natureza erótica de certos aspectos do personagem, sua masculinidade tingida com a aparência de um sátiro de outro mundo”, ele disse.

Campion perguntou o que ele precisava. “Eu disse, preciso de aulas sobre como talhar, preciso de aulas de equitação, preciso de aulas de banjo, preciso de um acampamento para homens”, contou.

Ele passou várias semanas em fazendas em Montana. “Um estilo de vida incrível se abriu para mim”, disse. Ele acrescentou: “Aprendi a fazer praticamente tudo que faço no filme”. Ele catalogou: “trançar corda, trabalhar com o gado, castrar - trançar corda enquanto fumava um cigarro era incrivelmente difícil!” (Ele também aprendeu o assobio lento com que Phil tortura Rose enquanto ela tenta tocar piano. "Foi ideia minha", disse Cumberbatch. "Achei que seria realmente desagradável, muito controlador.")

O que é extraordinário sobre a história, disse Cumberbatch, “é que ela ainda tem relevância. Ainda existem traços de um caráter masculino raivoso e tóxico em grande escala nos líderes mundiais dos últimos tempos, sem falar em outros tipos de violência doméstica ou comportamentos masculinos abomináveis.” É importante, acrescentou, que “estejamos chegando a um lugar onde as mulheres sejam ouvidas. Mas também devemos olhar para os homens; por que os homens são assim?”

A experiência de trabalhar em “Ataque dos cães” foi “inebriante”, acrescentou Cumberbatch, mostrando um pequeno santuário para o filme que ele havia criado em uma prateleira, com adereços, fotografias e presentes da equipe. “Eu não posso te dizer o quão raro é ser seu próprio público e dizer, 'Deus, isso é o que eu pretendia em uma cena, em uma atuação, no arco inteiro de um personagem.'”

Ele gesticulou para o santuário. “Estou ansioso para encher a próxima prateleira; é onde eu quero ir como artista.” / TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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