Lena Mucha / The New York Times
Lena Mucha / The New York Times

Em Berlim, festival colore a 'capital do fetiche' da Europa e celebra a diversidade

'Sempre acreditei que o fetiche une as pessoas, assim como a música', destaca organizador do Folsom Europe

Liam Stack, The New York Times

08 de novembro de 2019 | 06h00

BERLIM - De repente fez-se o silêncio entre os gays que lotavam a Igreja dos Doze Apóstolos em Berlim; o violoncelista, totalmente vestido de couro preto, se sentou na frente do altar e começou a tocar Rachmaninoff. Lanterninhas de uma trupe de drags em trajes de freiras, as Irmãs da Perpétua indulgência, assistiram extasiadas.

Quando o músico acabou, um organista também vestido de couro tocou uma peça de Bach. Seguiu-se uma peça de Vivaldi executada por um quarteto com arreios cruzados no peito. O Classic Meets Fetish foi um dos eventos de abertura do Folsom Europe, um festival de rua de cinco dias de duração com apresentações culturais e boates com bacanais, que atrai milhares de turistas para a Capital do Fetiche da Europa, como é anunciada pelos organizadores.

A política teve um importante papel este ano. “Estive pensando sobre como a sociedade mudou nos últimos anos”, avaliou o organizador do concerto, Tyrone Rontganger, ao público. “Vivemos em uma sociedade que se tornou polarizada, mas sempre acreditei que o fetiche une as pessoas, assim como a música”.

Há eventos Folsom anuais em San Francisco, onde a Rua Folsom emprestou o seu nome ao festival, e a primeira locação em 1984, e em Nova York. Mas nenhuma das versões americanas tem a fama over-the-top do Folsom Europa, que recebe o seu cachê de Berlim. A vibrante vida noturna desta cidade no ano inteiro atrai o mundo todo, inclusive turistas gays e festas de despedida de solteira.

A capital alemã - e Schöneberg, o bairro em que se realiza o Folsom - é um lugar profundamente arraigado na história dos LGBTI+ dos séculos 19 e 20, quando a cidade era o centro da cultura e do ativismo gay. “Berlim sempre foi uma cidade muito especial”, observou Alexander Cabot, que este ano se tornou o primeiro homem transgênero a ganhar o título de Mr. Leather Berlim.

Era nazista

Aqueles tempos de abertura tiveram um fim violento na era nazista, e só voltaram quando Berlim Ocidental se tornou a meca da contracultura na Guerra Fria.

Os organizadores do Folsom disseram que o seu objetivo é celebrar a liberdade conquistada a duras penas, mas também alertaram que a fama de Berlim de capital erótica pode não ser muito correta. “Na realidade, somos menos escandalosos do que em San Francisco, acho”, comparou Daniel Ruester, tesoureiro da Lufthansa que foi um dos fundadores do festival em 2003, e chamou a cidade de “sexy, mas não erótica”.

O acontecimento  principal do Folsom Europe é a feira que transforma Schöneberg em uma passarela atrevida, onde milhares de participantes com roupas elaboradas - na maior parte gays, bissexuais e homens trans - exibem os seus trajes.

No evento deste ano, realizado em setembro, havia abundância de uniformes - desde os do Departamento de Polícia de Nova York e da Legião Estrangeira francesa, até os da Polícia Montada canadense. No mar de couro, destacavam-se outros costumes, como o de um homem com uma roupa listrada de zebra, inclusive os sapatos de salto.

A sensação de uma festa em um paraíso perdido teve até o concerto de música clássica. No fim, os músicos se uniram ao público em uma cantoria que incluiu homens mais velhos de roupa de couro com elegantes bengalas como acessório. A música era uma canção de Marlene Dietrich, atriz e cantora que criticava os nazistas e deixou o país nos anos 30. “Ainda tenho uma mala em Berlim, é por isso que devo voltar”, cantava a multidão, que continuava: “A felicidade do passado ainda está toda na minha mala”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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