Lena Mucha/The New York Times
Lena Mucha/The New York Times

Ele veio a Berlim para mudar o mundo, mas o mundo mudou Berlim

O diretor musical de longa data do teatro Volksbühne, Sir Henry, chegou em meio a um florescimento artístico pós-Guerra Fria na cidade

A.J. Goldmann, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 05h00

BERLIM – Não faz muito tempo, Sir Henry subiu no palco principal do teatro Volksbühne, no que antes era Berlim Oriental, e conduziu o cosmos.

Em Quarantine, For Solo Human (Quarentena para um humano só, em tradução literal), Sir Henry, cujo nome é John Henry Nijenhuis, criou uma instalação musical interativa na qual um planeta em espiral era enviado através de um universo animado por computador com o uso da tecnologia de sensor de movimento.

Ao agitar graciosamente os braços, uma delicada coreografia celestial surgia. A Terra se lançava através de uma galáxia que se expandia e se encolhia sob o comando dele. Os gestos também controlavam a paisagem sonora cósmica, ajustando a altura e o volume de um "coro espacial" que se harmonizava com um prelúdio de Bach tocado em um sequenciador Midi.

Quarantine, que foi transmitida no site do Volksbühne durante o bloqueio do verão do hemisfério norte, foi o primeiro trabalho solo do músico no palco principal do teatro, onde trabalhou como diretor musical por quase um quarto de século.

"Os primeiros seis meses da Covid foram uma bênção, porque pude me esconder em meu apartamento e criar", disse o canadense de 56 anos. Suas instalações interativas fundem sua paixão pela música com seu interesse em programação de computador, busca de toda uma vida desde que era aluno, na década de 1980, da Universidade do King's College, em Halifax, Nova Escócia.

Em uma noite de tempestade na primavera, encontrei Nijenhuis na entrada dos fundos do Volksbühne, que estava fechado. Usando um elegante sobretudo marrom herringbone, ele me conduziu por um labirinto de escadas nos bastidores até o Roter Salon do teatro, local parecido com uma casa noturna que está desativado desde o início da pandemia.

Durante pelo menos uma década depois do fim da Guerra Fria, o Volksbühne foi indiscutivelmente o teatro mais radical e artisticamente ousado da Europa. Como diretor musical, compositor e ator ocasional na casa de espetáculos desde 1997, Nijenhuis contribuiu para o florescimento artístico de Berlim enquanto vivia mudanças dinâmicas que redefiniram a cidade – e não para melhor, em sua opinião.

Ele saboreia suas memórias da Berlim pós-Guerra Fria, posto avançado selvagem e boêmio de experimentação artística temperada com um choque vibrante entre o Oriente e o Ocidente.

Nijenhuis abraçou de forma descarada o espírito revolucionário da Alemanha Oriental no teatro. "Tínhamos o trabalho de explicar o socialismo ao Ocidente encrustado em Berlim. No Volksbühne, era sempre possível sentir que o diretor queria mudar o mundo. E, caso não quisesse, você diria a si mesmo: 'Era melhor estar no West End.' O teatro era um baluarte contra formas irrefletidas e invasivas de capitalismo. Hoje em dia, porém, Berlim tem a reputação de um lugar de festa", disse ele, acrescentando que, para seu pesar, essa atmosfera se evaporou com o passar dos anos.

No entanto, poucos norte-americanos – se é que houve algum – deixaram uma marca tão forte na cena cultural de Berlim nos anos inebriantes que se seguiram à reunificação. Nijenhuis trabalhou em mais de 50 produções em seus quase 25 anos no Volksbühne.

"John é um mestre da música", comentou o diretor David Marton, que trabalhou com Nijenhuis em uma aclamada versão de câmara de Wozzeck, em 2007. Em um e-mail, ele sugeriu que Nijenhuis "talvez não seja reconhecido o bastante porque trabalha principalmente no teatro, e a 'música de teatro' não recebe muito crédito".

Nijenhuis nasceu em 1964 em Newmarket, na província de Ontário, filho de pais holandeses, e cresceu em Montreal e em Halifax, onde seu pai trabalhava para a British Airways. Depois da faculdade, passou uma década em Toronto, desenvolvendo, como pianista, um estilo que descreveu como "mistura de músicas tocadas com as duas mãos – por exemplo, Stairway to Heaven com Putting on the Ritz, ou o Boléro de Ravel com Take Five".

As oportunidades profissionais para músicos em Toronto, porém, eram limitadas. Em 1996, foi convidado a se apresentar em um festival de artes em Berlim. O local, que ficava em Prenzlauer Berg, na antiga Berlim Oriental, não tinha piano, de modo que ele teve de se contentar com um órgão de sala de estar. A curiosa experiência deu origem ao seu apelido, que é uma homenagem irônica a um organista de lounge dos anos 60, Sir Julian.

Embora sua participação no festival não tenha corrido conforme o planejado, Nijenhuis logo começou a trabalhar no Prater, local menor administrado pelo Volksbühne. Seu perfil musical versátil, seu conhecimento de Kurt Weill e Prokofiev, mas também de Fats Waller, pop e rock, tornaram-no procurado no meio culturalmente onívoro e experimental da Berlim dos anos 90. "Acontecia de você simplesmente sair pela porta e deparar um acontecimento. Havia muitas daquelas casas em ruínas, destruídas por bombas, que abrigavam eventos de música experimental", disse ele sobre aquele momento.

Naquele verão, ele trocou os arranha-céus de Toronto pelos cortiços aquecidos a carvão de Prenzlauer Berg. Se Berlim lhe ofereceu uma nova casa, o Volksbühne se tornou sua nova família criativa.

Naquela época, o teatro estava sob a direção de Frank Castorf, provocador que atuou como diretor artístico de 1992 a 2017. Castorf gostava de fazer picadinho de clássicos em noites longas e exigentes, projetadas para chocar espectadores complacentes.

À medida, porém, que a cidade gradualmente evoluiu para a capital nacional e sede de muitas das maiores empresas da Alemanha, o ambiente inevitavelmente mudou.

Enquanto Berlim continua gozando de uma reputação de liberdade, Nijenhuis acredita que a cidade perdeu muito de sua alma criativa. "A mudança foi de uma cidade aventureira e muito ousada com obras de arte aventureiras e ousadas para um palácio do prazer irremediavelmente burguês", disse ele.

À medida que Berlim se assentava, Nijenhuis também o fez. Em 2015, comprou um apartamento em Prenzlauer Berg e se casou com a poetisa americana Donna Stonecipher.

Cada vez mais, Nijenhuis tem encontrado satisfação criativa longe das produções tradicionais, por meio da programação e da execução de instalações musicais interativas como Quarantine. Nos últimos 15 anos, também tem colaborado com o escritor e cineasta alemão Alexander Kluge, fazendo trilhas sonoras e o acompanhando em apresentações ao vivo.

A mais recente aparição de Nijenhuis no palco, em uma produção da Oréstia, em outubro, mostrou o que pode acontecer quando seu talento e seus gostos ecléticos não têm rédea. As seleções musicais inspiradas variaram de Richard Strauss a Tom Lehrer. "Se eu tivesse ficado em Toronto, provavelmente teria me tornado um motorista de ônibus", comentou Nijenhuis.

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