Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Berlim quer tornar obrigatória visita de alemães a campos de concentração

Medida tem o objetivo de combater a difusão do antissemitismo, que volta a crescer na Alemanha

Katrin Bennhold, The New York Times

14 Março 2018 | 15h00

ORANIENBURG, Alemanha - Não foi o muro das execuções ou a cerca eletrificada e nem mesmo a descrição do cheiro da carne humana queimando que mais marcou os adolescentes. Foram os beliches. Em sua rusticidade, eles impressionaram os alunos do último ano do ensino médio que visitavam o antigo campo de concentração nazista de Sachsenhausen. "É assim que eles viviam", sussurrou Damian, 15.

Quando Jakob Hetzelein, professor de História de um bairro popular de Berlim, decidiu levar os estudantes para Sachsenhausen, não tinha certeza de como eles reagiriam. Em uma eleição de teste, vários deles haviam apoiado o partido nacionalista Alternativa para a Alemanha. Um menino foi apanhado recentemente rabiscando uma suástica. Outro faz cópias da imagem de Hitler. E há os Mahmoud e os Ferdous, refugiados do Egito e do Afeganistão, onde o sentimento anti-Israel se mescla normalmente ao antissemitismo e às vezes à negação do Holocausto.

Aprender História é fundamental para a identidade nacional na Alemanha do pós-guerra. É por isso que Sawsan Chebli, uma legisladora do Estado de Berlim de ascendência palestina, lançou uma ideia que é radical mesmo em um país que dissecou os horrores de seu passado como nenhum outro: tornar obrigatórias as visitas aos campos de concentração. 

"Precisamos tornar a nossa história relevante para todos: para os alemães, que não sentem mais nenhuma relação com o passado, e para os imigrantes, que se sentem excluídos do presente", disse.

A proposta da legisladora surge em um momento em que a Alemanha enfrenta a ascensão do antissemitismo. Os neonazistas ficaram entusiasmados com o Alternativa para a Alemanha, primeiro partido de extrema direita a fazer parte do Parlamento desde a Segunda Guerra Mundial. A recente absorção de mais de um milhão de imigrantes, muitos muçulmanos, incubou um tipo diferente de antissemitismo. Ela diz que visitar um campo de concentração pode ser útil. 

"É uma maneira de grande impacto para ajudar a manter viva a memória e a dar um sentido ao nosso ‘nunca mais’", afirmou, acrescentando: "Tem a ver com a defesa dos direitos humanos e com os direitos das minorias - todas as minorias".

Durante sua visita a Sachesenhausen, os adolescentes se acotovelavam ao redor da guia. Sachsenhausen foi o centro nervoso dos mais de 20 campos de concentração nazistas mais importantes. Em uma seção do campo, funcionários públicos decidiam o tipo de experimentos médicos a ser realizado, como seriam aplicadas muitas execuções e quanto gás Zyklon B seria entregue a Auschwitz. A guia, Mariana Aegerter, os chama de "criminosos de gabinete".

"Alguém aqui sabe quem ficou preso neste lugar?", ela perguntou à classe.

Nelson, um menino de cabelos até o ombro, levantou a mão em dúvida: "Judeus?".

Dos mais de 200 mil presos ao longo dos anos, cerca de 40 mil eram judeus. O regime nazista perseguiu várias pessoas, explicou Mariana, comunistas, religiosos, homossexuais, ciganos e deficientes. Mas também as que eram consideradas "antissociais": sem-teto, desempregados, cidadãos que dependiam da previdência social e meninos cabeludos. Os muçulmanos, também.

Mariana, 34, explicou que seu objetivo durante as visitações é estabelecer uma ponte entre o visitante e o prisioneiro.Mas nem sempre é fácil. Certa vez, uma estudante palestina perguntou a Mariana: "Não acha que o que os judeus estão fazendo com os palestinos hoje é o mesmo que os nazistas fizeram com os judeus?". Não, ela explicou, mas isso não significa que devamos aprovar tudo o que o Estado de Israel está fazendo.

Para conquistar a confiança dos jovens muçulmanos para a luta contra o antissemitismo, Chebli disse, a Alemanha também precisa combater a islamofobia. "Será muito mais fácil para mim persuadir um jovem muçulmano da relevância do Holocausto se eu admitir sua experiência pessoal da discriminação e estabelecer esta ligação", afirmou.

Às vezes, estabelecer uma ligação com os jovens alemães é igualmente difícil, disse Mariana. Um professor contou que havia planejado a viagem especificamente porque temia que três rapazes enveredassem pelo terreno do neonazismo. Mas os três avisaram que estavam doentes.

Se os estudantes vierem para cá, a experiência poderá produzir uma transformação, enfatizou Günther Morsch, que foi diretor do memorial por 25 anos. "Seria ingenuidade esperar que uma visita de duas horas transformasse neonazistas em antifascistas", acrescentou. "Mas vamos dar um pouco mais de tempo, e poderemos realizar muitas coisas".

Ele acredita que as visitas aos campos teriam de ser voluntárias e que a obrigatoriedade enfraqueceria a experiência.

Hetzelein, 31, discorda. Ele cresceu na Bavária, único estado da Alemanha em que a visita a um memorial nazista já é exigida. Quando estudava no ensino médio, ele foi para Dachau, perto de Munique. Anos mais tarde, visitou Auschwitz, o campo da morte na Polônia de hoje. Os portões de ferro fundido, o arame farpado e a escala espantosa de tudo aquilo o perseguem até hoje. 

"Não é suficiente ler livros sobre isso", afirmou, "é preciso ter a consciência do que aconteceu".

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