Erik Carter / The New York Times
Erik Carter / The New York Times

Cada detalhe da casa (e da obra) de Betye Saar é um resgate da cultura negra

Mostra da artista será inaugurada no dia 21 de outubro, no MoMa; coletânea reúne suas primeiras obras

Holland Cotter, The New York Times

11 de setembro de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - Perguntei à artista Betye Saar, de 93 anos, que se prepara para inaugurar duas mostras individuais em dois importantes museus - o Museu de Arte Moderna de Nova York e o Los Angeles County Museum of Art - se ela tem alguma teoria sobre o fato de, finalmente, chamarem a atenção para o valor de sua obra. Ela evitou o óbvio: é uma mulher negra; viveu a vida toda no que chama de “o outro lado do planeta”, em Southern Califórnia. E respondeu: “Porque já não era sem tempo!”. “Tive de esperar praticamente até os 100 anos”, lamentou.

Estávamos em sua residência, em Los Angeles, que é também o seu ateliê. Ela mora e trabalha aqui desde 1962. Na casa, agarrada verticalmente à vertente de uma ravina, a divisão entre o espaço doméstico e o do trabalho é indeterminada. A ordem predomina, mas é difícil encontrar superfícies vazias.

Há meio século, Betye é uma das artistas dos Estados Unidos mais influentes e criativas que trabalha com montagens em uma escala totalmente íntima. Ela produz uma gama distinta de trabalhos, mesclando a cultura global, o misticismo popular, sua história pessoal e o racismo.

O seu ateliê está lotado, abarrotado de objetos agrupados por tipo e cor: despertadores, livros antigos, máscaras africanas, gaiolas de passarinhos, globos, fatias de melancias de madeira pintada, patuás e as chamadas mammy dolls, bonecas negras que retratam a mãe preta empilhadas sobre uma cadeira. “Eu me considero uma recicladora”, disse Betye. “Desde criança, procurava no lixo o que as pessoas jogavam fora. Coisas boas”.

É vasculhando que ela consegue a matéria prima para a sua arte. Algumas obras são cuidadosas cápsulas do tempo que preservam materiais que lembram ou outrora pertenceram às mulheres da família Saar. Outros são autorretratos simbólicos. Na Black Girl’s Window de 1969, que apresentará a mostra do MoMa, ela contorna a silhueta de sua cabeça com luas e estrelas flutuantes; a gravura de um leão, seu signo de nascimento; o retrato de uma mulher que poderia ser sua avó irlandesa; e, no centro, um esqueleto de Halloween de uma loja de quinquilharias, uma alusão à morte do pai quando ela era criança.

E há um trabalho claramente político. Um exemplo que definiu sua carreira, The Liberation of Aunt Jemima, de 1972, foi sua reação à morte de Martin Luther King Jr. Aqui, a imagem principal é um relevo comprado em uma loja de uma boneca negra de plástico, sempre como mammy, da era da segregação que devia segurar uma prancheta e um lápis. Betye a transformou, substituindo a prancheta por um punho do Black Power e colocando um fuzil na mão da figura.

Mostras

A sua mostra individual no MoMa, Betye Saar: The Legends of Black Girl’s Window, que será inaugurada no dia 21 de outubro, é uma coletânea de suas primeiras obras, sobre papel, raras, ao lado uma seleção de outras montagens. Betye viajou muito - visitou Bali, Brasil, Haiti, México, Marrocos, Nigéria, Senegal - sempre em busca de objetos e imagens.

Em todos os lugares, ela carregava cadernos de esboços, seus bancos de memória e estúdios portáteis. Muitos são depositórios de estudos preliminares a caneta para futuras montagens. Outros estão repletos de aquarelas que são verdadeiras criações acabadas. A mostra no Los Angeles County Museum of Art, Betye Saar: Call and Response, que será inaugurada no dia 22 de setembro, reunirá vários desenhos com obras relacionadas concluídas.

Na minha visita ao seu ateliê, havia uma montagem ‘in progress’ que explorava o racismo. Em agosto, entre os elementos que a compunham havia duas fotografias impressionantes, uma de uma jovem mulher africana tocando um instrumento musical; a outra, um quadro pertencente a algum arquivo de 1863 de um homem afro-americano visto de trás, as costas nuas marcadas pelos riscos do açoite.

Betye posicionou as imagens de cada lado de um piano do tamanho de uma criança, com algumas teclas faltando, acrescentado ao diagrama de um navio do século 18 repleto de pessoas escravizadas; um relógio antigo rematava o conjunto. “É sobre a escravidão, antes e depois”, explicou. “Eu o intitulei ‘Skin Song’”. Posteriormente, retirou a fotografia da mulher africana. O improviso sempre foi o seu modus operandi.

Espiritualidade e arte

Uma segunda montagem sugere um relicário. É dedicada à tia avó de Betye, Hattie. Quando Hattie Saar morreu no início da década de 1970, a artista herdou um baú repleto de objetos pessoais da tia. Ao longo dos anos, ela os foi preservando na sua obra, inspirada pela crença espiritual de que os mortos vivem nas coisas que eles tocaram e guardaram.

“Acho que a coisa mais arriscada é pôr a espiritualidade na arte”, afirmou. "Porque as pessoas não a compreendem. Os escritores não sabem o que fazer com ela. Têm medo dela, por isso a ignoram. Mas se ela favorecer uma conscientização universal, o artista terá de tratar disto, ainda que as pessoas o ridicularizem”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.