Carter Johnston para The New York Times
Carter Johnston para The New York Times

Por que um bilionário discreto está comprando as Ilhas Cayman?

Acredita-se que o herdeiro de uma fortuna possua mais terras do que qualquer pessoa no famoso paraíso fiscal

Katy Lederer, The New York Times

01 de novembro de 2019 | 06h00

Kenneth Dart, herdeiro de uma dinastia das embalagens de espuma e empresário recluso, vive na ilha Grand Cayman há 25 anos e acredita-se que seja ele o maior dono de propriedades privadas no arquipélago. Os moradores gostam de compará-lo ao Batman, a Howard Hughes, a um vilão dos filmes de James Bond e a Warren e Jimmy Buffett.

Dart vive em Seven Mile Beach, em um antigo hotel - que fica inteiro à sua disposição. Ele comprou a propriedade em 1994 depois de renunciar à cidadania americana, uma manobra de evasão fiscal tão audaciosa que inspirou novas leis federais. Inicialmente, as Ilhas Cayman eram um refúgio do financista, mas Dart, que teria 64 anos, passou a zelar pelo lar adotivo. Com sua fortuna e a empresa que possui, Dart Enterprises, ele passou a definir o futuro das ilhas.

Em 2007, ele inaugurou um grande empreendimento, um vasto complexo de varejo e entretenimento chamado Camana Bay, e começou a reunir no seu portfólio uma série de propriedades de alto padrão. A lista dele inclui agora o Ritz-Carlton, o Yacht Club e um novo resort Kimpton. Em fevereiro o grupo dele apresentou a proposta de um "arranha-céu icônico” capaz de fazer inveja à Torre Eiffel e ao Burj Khalifa, em Dubai.

O território britânico ultramarino das Ilhas Cayman não cobra imposto de renda nem impostos corporativos. Desde os anos 1960, o arquipélago se converteu em um dos centros bancários mais sofisticados do mundo. Antes consideradas um local seguro para o armazenamento de dinheiro ilícito, as ilhas passaram a atrair um mercado mais qualificado, seduzindo investidores institucionais e firmas de private equity e negociação de valores mobiliários. Em 2016, as ilhas abrigavam 60% dos endereços comerciais dos ativos de fundos de hedge globais, de acordo com uma análise.

Mas Dart escolheu um local vulnerável. Com área de quase 200 quilômetros quadrados, a ilha de Grand Cayman fica em média dois metros acima do nível do mar. Em 2004, o furacão Ivan, classificado como categoria 5, deixou submersa boa parte da ilha. O estrago foi calculado em quase US$ 3 bilhões. 

“O problema é que, mesmo se os furacões não ficarem mais frequentes, eles se tornarão mais potentes", disse James Whittaker, residente das Caymans que já foi banqueiro e participou da regulamentação financeira. Hoje, ele é um empreendedor do setor de energia limpa. “Se o nível do mar se elevar em 30 centímetros, isso significa que um furacão de categoria 1 será capaz de causar o mesmo estrago que costumávamos atribuir a um furacão de categoria 4.”

Diante disso, por que um investidor de grande sucesso como Dart compraria uma parte tão grande de um país destinado a desaparecer? Quando Dart se mudou para Grand Cayman, seu estilo recluso e seus negócios extravagantes levantaram suspeitas. Em 1993, a casa dele em Sarasota, na Flórida, foi destruída em um incêndio criminoso nunca explicado. 

Depois que Dart renunciou aos elos com os Estados Unidos, meses depois, ele se mudou para Belize. Em 1995, o governo do país propôs a abertura de um consulado em Sarasota, onde ele e a família poderiam viver, supostamente sem pagar impostos. A ideia nunca foi levada a sério, e Dart acabou se instalando na Grand Cayman.

Ninguém revela a porção exata do território das três ilhas - Little Cayman e Cayman Brac ficam a nordeste da ilha maior - pertence a Dart e suas subsidiárias. Dart recusou o pedido de entrevista por meio de uma porta-voz. Ela também disse que a empresa não faria comentários a respeito dos investimentos dele. Após a crise financeira de 2008, a firma de Dart começou a planejar e construir grandes projetos municipais de infraestrutura nas ilhas. Uma auditoria realizada em 2015 repreendeu os ministros do país por permitirem tamanha liberdade às subsidiárias de Dart. 

Dart é o herdeiro de uma fortuna substancial acumulada com a empresa da família, Dart Container, originalmente de Michigan. Mas ele também fez investimentos lucrativos em empresas financeiras, empresas de biotecnologia, títulos públicos russos e papéis de endividamento soberano vendidos com desconto.

De acordo com a Dart Enterprises, a empresa investiu mais de US$ 1,5 bilhão nas Caymans, e há planos para mais US$ 1 bilhão em investimento. De acordo com a Bloomberg, o valor de mercado da Dart seria de US$ 5,8 bilhões. O investimento mais audacioso de Dart envolve o depósito de lixo conhecido como Mount Trashmore, que reúne o material descartado na ilha desde os anos 1960. A empresa dele propôs fechar o local e construir ali uma usina de conversão de lixo em energia ao custo de quase US$ 500 milhões.

Dart parece enxergar para as Caymans um futuro como endereço fiscal e atração turística para os ultrarricos, que poderiam arcar com o custo de ir e vir de uma ilha que enfrenta um risco existencial. O arranha-céu ficaria relativamente longe da praia de Seven Mile Beach, posicionado de modo a atrair capital estrangeiro e resistir à alta dos oceanos.

“Eu não diria que tudo que ele faz é magnífico", disse Whittaker a respeito de Dart. “Creio que, no cálculo geral, ele trouxe benefícios para a ilha. Precisamos arranjar mais uma ou duas pessoas como ele, e então poderemos nos isolar dos choques globais.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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