Matthew Abbott para The New York Times
Matthew Abbott para The New York Times

Bilionários australianos querem unir política e tecnologia

Os fundadores da Atlassian quebram um tabu ao pressionar o Parlamento da Austrália contra medidas conservadoras que afetam os negócios

Nellie Bowles, The New York Times

09 de março de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA - A Atlassian é uma empresa de tecnologia sem a menor graça. Ela desenvolve produtos para engenheiros de software e gerentes de projetos, e tem sucessos como o Jira (para o gerenciamento de projetos de software e rastreamento de problemas) e o Fisheye (um browser para controle de revisão).

Então, por que os nomes de seus dois fundadores são conhecidos na Austrália?

Porque Scott Farquhar e Mike Cannon-Brookes, ambos com 39 anos, são os primeiros bilionários australianos donos de uma startup prestes a fazer uma oferta pública de ações no valor de US$ 20 bilhões. E porque, no ano passado, eles começaram a fazer barulho.

Até pouco tempo atrás, ambos não apareciam publicamente, mas, enquanto isso, a Atlassian crescia até tornar-se uma companhia de US$ 20 bilhões. Agora, depois que a política australiana começou inclinar-se para a direita em questões como imigração, segurança cibernética e mudança climática, eles decidiram aparecer como vozes políticas, entrando em discussões no Twitter e fazendo lobby no Parlamento.

A outra razão é que, agora, eles são nomes bastante respeitados: em 2017, Farquhar adquiriu a casa mais cara da Austrália, uma mansão histórica em Sydney, que foi vendida por 73 milhões de dólares australianos, ou US$ 52 milhões. Em dezembro, Cannon-Brookes quebrou o recorde quando fechou um negócio com a casa ao lado.

Os dois estudaram na Universidade de New South Wales, onde se conheceram, e fundaram a Atlassian depois de formados. A companhia decolou quase imediatamente. Mas o Vale do Silício não prestou muita atenção neles. Quando o amigo de ambos, Didier Elzinga, fundador da Culture Amp, foi a um jantar de investidores na Califórnia, um investidor indagou por que as pessoas deveriam se preocupar com a Atlassian.

"Eu disse, 'muito bem. Diga o nome de uma companhia do Vale que se listou em bolsa com um capital de mercado de US$ 5 bilhões e da qual os dois fundadores possuem 75%'. Eles não precisaram do Vale do Silício", disse Elzinga.

No início, eles confundiram o Vale do Silício. E então, confundiram a Austrália.

"A ortodoxia entre as companhias de tecnologia australianas consiste em se manter afastadas da política", explicou Alan Jones, fundador da M8 Ventures, uma empresa australiana de capital de risco. "E agora estes caras estão aí".

Em seu ativismo político, Cannon-Brookes é frequentemente o rosto da companhia no Twitter e nos canais de notícias, enquanto Farquhar cuida do trabalho em Canberra. 

Ambos passaram a se interessar mais pela política australiana depois que a coalizão de governo abandonou os esforços para tratar da mudança climática e causou temores com a questão da imigração. Isso apresentou um problema para uma companhia que precisa contratar engenheiros, frequentemente no exterior. E por isso, inicialmente, o principal objetivo dos fundadores foi fazer a Austrália se interessar mais por tecnologia e tornar seus políticos mais conscientes em relação a este setor.

Cannon-Brookes está muito preocupado com a mudança climática. Quando o primeiro-ministro Scott Morrison desistiu das ambições da Austrália na área de energia renovável, ele se tornou um crítico ferrenho do governo.

"Vocês me enlouqueceram e também me inspiraram", ele disse ao primeiro-ministro no Twitter, acrescentando um palavrão para dar mais ênfase.

Farquhar tende a se concentrar em questões que dizem respeito ao futuro da companhia - segurança cibernética e imigração. Mas foi na questão da imigração que os fundadores da Atlassian começaram a se mexer. Depois que o programa referente à mão de obra especializada da Austrália cortou vários cargos na área de tecnologia das categorias para as quais os vistos haviam sido aprovados, Farquhar e Cannon-Brookes decidiram pressionar o Parlamento para aumentar as oportunidades de contratação deste pessoal no exterior.

Mesmo sem problemas de dinheiro, dirigir uma empresa de tecnologia que está crescendo na Austrália é um desafio, afirmaram os fundadores. A contratação é difícil. Dois terços da força de trabalho da Atlassian estão em San Francisco.

Os fundadores formaram um batalhão de amigos com grandes companhias de tecnologia fora do Vale do Silício, como Daniel Ek, diretor-executivo sueco do Spotify, e Ryan Smith da Qualtries, sediada em Utah.

"Temos todos os mesmos problemas", disse Cannon-Brookes.

Por isso, a cada dois anos, os fundadores da Atlassian hospedam um retiro particular convidando as startups australianas avaliadas acima de US$ 100 milhões, que são cerca de dez. O objetivo é encorajar a amizade e compartilhar práticas mais eficientes. Esta é uma das razões pelas quais os dois homens afirmam que não pretendem trocar a Austrália pelo Vale do Silício.

"Conheço muito bem os Estados Unidos, e conheço igualmente bem a Austrália. Acho que estamos melhor aqui", disse Farquhar.

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