Monica Jorge para The New York Times
Monica Jorge para The New York Times

Biógrafo de Hemingway, A. E. Hotchner lança novo romance

A. E. Hotchner, que era amigo também de Paul Newman, publica um mistério sobre um menino, um verão longínquo e um roubo de joias

James Barron, The New York Times

13 Setembro 2018 | 10h15

WESTPORT, CONNECTICUT - A.E. Hotchner, que foi o melhor amigo de todos - pelo menos de Ernest Hemingway e de Paul Newman - escreveu seu livro mais recente em letra cursiva. Enquanto trabalhava, não permitiu que sua esposa, Virginia Kiser, lesse o manuscrito.

O livro, “The Amazing Adventures of Aaron Broom”, é um romance sobre um menino de 12 anos chamado Aaron, de St. Louis, cujo autor se chama Aaron, que cresceu no lugar onde você pode imaginar. A trama começa no dia 28 de junho, que imaginamos seja o verdadeiro aniversário dele.

O jovem Aaron consegue estar no lugar certo na hora certa, e estabelecer os relacionamentos certos com as pessoas certas. Por causa disso, “Aaron Broom” soa como um manual de treinamento da vida de Hotchner, que, em muitos momentos, fala da importância das amizades.

O escritor definiu “Aaron Broom” como um projeto que o levaria até o ano em que completasse 100, a não ser que fosse o ano em que faria 97 - mais este último talvez.

“Eu queria que fosse uma história alegre, algo que comemorasse o fato de você ter chegado à minha idade e, para minha enorme surpresa, ainda ter ideias”, afirma Hotchner.

Hotchner conheceu J.D. Salinger e Tennessee Williams. E escritores como David Halberstam e Gay Talese. E também a editora Nan A. Talese, que publicou “Aaron Broom” em julho (e é casada com Talese).

Hotchner conheceu Newman quando trabalhava na adaptação do conto de Hemingway “O lutador” para a televisão, em 1955. O astro deveria ter sido James Dean, mas ele morreu em um acidente de automóvel. Newman foi escolhido para substituí-lo.

Em 1948, Hotchner e Hemingway se conheceram em Havana. Hotchner estava trabalhando para a Cosmopolitan, encontrando pessoas muito famosas e convencendo-as a escrever para a revista. Um dia acabou sentando no bar favorito de Hemingway; a partir dali, perdeu a conta de quantos daiquiris os dois tomaram, e ainda se tornou seu protegido.

“Nunca percebi nos 13, 14 anos durante os quais vivemos nossas aventuras que eu estava com Ernest Hemingway”, disse Hotchner. “Desde muito cedo, ele assumiu o papel de um pai e gostou do fato de eu ser um menino boboca de St. Louis.”

Quanto a “Aaron Broom”, Hotchner escrevera as biografias de Doris Day e de Sophia Loren, musicais com Cy Coleman, um romance intitulado “The Man Who Lived at The Ritz” e um livro de memórias de “Papa Hemingway”. Mas o que ele tinha em mente era um livro sobre um assassinato misterioso, com o pano de fundo de uma infância interrompida pela Grande Depressão.

Ele escrevera um livro de memórias sobre esta infância, “King of the Hill”, publicado em 1972. Transposto para o cinema, com o título em português “O inventor de ilusões”, estreou em 1993 com a direção de Stephen Soderbergh, conhecido por “Sexo, Mentiras e Videotape”.

O pai, em ambos os livros, luta como vendedor de relógios. A casa da família são dois quartos em um hotel que já viu dias melhores, e o carro da família está sob a ameaça de ser confiscado. “‘King of the Hill’ era eu, como mais ou menos lembrava de ter sido”, explicou. “Desta vez, decidi que o melhoraria, deixando que ele fosse o que eu não era, mas gostaria de ter sido”.

Hotchner disse que teve a ideia de escrever “Aaron Broom” depois de comemorar o seu 100º aniversário (a não ser que fosse o seu 97º). Pretendia terminá-lo quando fizesse 101. Ou 98. Quanto à sua idade, disseram-lhe que ele nascera quando “as tropas, as nossas tropas, foram para a Europa” na Primeira Guerra Mundial, em 1917.

“Com o tempo, viajei tanto, morei em tantos lugares e tive tantos passaportes que as datas de nascimento ficaram embaralhadas”, contou. “Todas as vezes em que precisei de um passaporte novo, voltava com uma data diferente. Fiquei com medo de me enganar dando com várias datas, de 17 a 19 e até 20”.

Depois de “Aaron Broom”, o que aguardará Hotchner? “Costumo dizer que aquilo foi suficiente, mas não se sabe. Qualquer escritor lhe dirá, a gente não sabe”, afirma.

Mais conteúdo sobre:
literatura Ernest Hemingway

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.