Leonhard Foeger/Reuters
Leonhard Foeger/Reuters

Biógrafos de Michael Jackson reveem livros após denúncias de abuso

James Safechuck e Wade Robson acusam cantor pop em documentário 'Deixando Neverland'

Reggie Ugwu, The New York Times

05 de maio de 2019 | 06h00

Quando Joe Vogel concordou em escrever uma nova edição do seu livro sobre Michael Jackson, pensou que seria um trabalho desafiador, e contudo gratificante. Então, a HBO estreou o documentário Deixando Neverland. Nele, dois homens e suas famílias acusam Jackson de assédio sexual que, afirmam, durou anos, desde crianças, e a partir dali, Vogel vive o pesadelo do biógrafo, mergulhado na dura tarefa de reexaminar milhares de horas de pesquisa.

“Isto complica as coisas de uma maneira realmente difícil”, afirmou. “Não só você precisa pensa em como tratar a questão no plano pessoal, como também em como lidar com este problema do ponto de vista profissional”. Enquanto os fãs tentavam conciliar o Jackson de Deixando Neverland - um pedófilo descarado que arruinou crianças e familiares - com o fascinante cantor de Thriller, biógrafos e jornalistas que escreveram sobre ele tiveram de voltar atrás.

Os entrevistados para este artigo pertencem a este espectro, buscando um equilíbrio entre uma afinidade pessoal por Jackson e um interesse profissional em acompanhar os fatos. Em sua maioria, eles disseram que ficaram abalados pelo testemunho detalhado e emocional de James Safechuck e Wade Robson, que acusaram Jackson.

Três autores reveem atualmente os próprios livros sobre o cantor e lançarão novas edições este ano. Mas indicando a divergência que isto provocará - assim como as consequências do método usado pelo realizador do documentário, Dan Reed - duas pessoas entrevistadas recusaram-se a assistir ao documentário. Apenas uma disse que Deixando Neverland mudou o seu veredito sobre Jackson de “inocente” para “culpado”.

Na época da estreia do documentário em março, Vogel já havia recebido as provas da segunda edição do seu livro, Man in the Music: The Creative Life and Work of Michael Jackson, cujo lançamento está previsto para meados deste ano. Ele reescreveu o prefácio, que, na sua opinião, “o documentário tornou incoerente”, mas não chegou a declarar fechado o caso contra o cantor.

De um lado estão os que passaram a olhar Jackson com desconfiança: um astro poderoso para o qual desembolsar US$ 25 milhões em um acordo para pôr fim a um processo em que foi acusado de molestar crianças em 1993, mostrou sua disposição a usar dinheiro e influência para camuflar um comportamento grotesco. Do outro lado, estão os que o viram como uma vítima a longo de toda a sua vida - um artista negro difamado, preso, que sempre foi um ímã para os oportunistas dos tabloides, policiais corruptos e intrigantes manipuladores.

Para os do primeiro grupo, como Maureen Orth, correspondente especial de Vanity Fair, Deixando Neverland acaba com todas as dúvidas. Maureen escreveu sobre as acusações de Jordie Chandler, cuja família processou Jackson e aceitou o acordo em 1994, e disse que ficou pasma pela semelhança de sua história com as de Robson e de Safechuck. “A primeira coisa que pensei quando assisti foi: ‘Já ouvi tudo isto antes. Fiquei muito comovida e triste por essas vítimas”.

Alguns do segundo grupo foram mais taxativos do que Mary A. Fischer. Seu artigo de capa da revista Gentlemen’s Quarterly sobre as acusações de Chandler: “Uma armadilha para Michel Jackson? A história não contada”, que posteriormente ela publicou como e-book, é citado frequentemente por fãs que acreditam que Jackson é a vítima de uma interminável vigarice.

Em uma entrevista, Mary definiu Deixando Neverland como “uma grave distorção”, e Robson e Safechucik como “incriminadores em quem não se pode confiar”. Ela criticou o fato de Reed não se dar conta dos possíveis conflitos de interesse, como o processo movido anteriormente por estes homens contra o espólio de Jackson, e os relatos de que Robson havia tentado anteriormente um acordo para um livro. Vogel acusou também Reed de usar os fatos de maneira seletiva, e observou supostas discrepâncias na cronologia apresentada por Robson e Safechuck.

“Acho que se poderia fazer um filme igualmente convincente em defesa de Jackson incluindo determinadas pessoas - e determinadas provas - e excluindo outras”, afirmou. Para alguns veteranos da música de Jackson a questão mais construtiva não é se o artista foi vítima ou predador, e sim por que motivo para alguns tem sido tão difícil aceitar a possibilidade de que ele tenha sido ambas as coisas.

Steve Knopper, autor de MJ: The Genius of Michael Jackson, disse que o filme fez com que ele lamentasse alguns dos pontos pouco claros da sua biografia. O livro, que saiu pouco depois de Robson e Safechuck moverem uma ação conjunta contra o espólio de Jackson em 2013, manifestou ceticismo em relação às acusações dos dois de 1993 a 2005. Agora, afirmou, ele acredita que Jackson foi culpado, mas “uma pequena parte de mim pede: ‘Quero mais provas’.”

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