Jean Chung para The New York Times
Jean Chung para The New York Times
Alexandra Stevenson e Su-Hyun Lee, The New York Times

25 de fevereiro de 2019 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL - Kim Ki-won tem um segredo que não quer revelar à família. Ele, que tem 27 anos e mora com os pais, a certa altura ganhou tanto dinheiro negociando com criptomoedas que gastava US$ 1 mil por mês com tudo o que queria. Deixou o emprego e contraiu empréstimos para comprar mais. Seu projeto era adquirir uma casa.

Voltando ao segredo de Kim: ele perdeu muito dinheiro, talvez dezenas de milhares de dólares.

"Não acho que seja justo chamar isso de jogo de azar", disse falando de sua obsessão pelas criptomoedas. "Mas em parte  é verdade".

Uma geração de jovens coreanos contribuiu para transformar o país em uma capital das criptomoedas. Agora que o mercado praticamente entrou em colapso, não só jovens, mas velhos também, estão mergulhados em dívidas e em prejuízos. No entanto, muitos integrantes da nova geração do país continuam considerando a moeda digital uma maneira de fugir de sua situação econômica.

A Coreia do Sul é o terceiro maior mercado de moedas virtuais, depois de Estados Unidos e Japão. No total, US$ 6,8 bilhões em criptomoedas trocaram de mãos em janeiro, segundo o banco de dados Messari. A Coreia do Sul é um importante centro de transações de Bitcoins.

E os promotores deste fenômeno foram jovens da geração do milênio, como Kim. Muitos deles se definem como dirt spoons (classe social que ganha um salário anual inferior a US$ 1 mil) - enquanto os gold e silver spoons são os mais ricos, os dirt são, portanto, os mais pobres. As criptomoedas pareciam uma maneira de quebrar esta ordem.

Ser jovem na Coreia do Sul pode ser sufocante. Vencer significa conseguir uma posição no governo ou um emprego em um dos vários conglomerados familiares. Mas isso exige o ingresso em uma universidade exclusiva, o que é uma façanha difícil. A desigualdade da renda no país é uma das mais graves da Ásia. O desemprego na geração jovem chega a 10,5%, em comparação com 3,4% em geral.

Para Remy Kim, 29, hospedado em vários grupos de criptomoedas no aplicativo Telegram, a moeda digital significou uma espécie de revolução.

"As criptomoedas representavam uma possibilidade de transferir uma parte da riqueza de um grupo da sociedade para outro", disse. "Isso afetou tremendamente a sociedade sul-coreana".

Kim entrou em uma bolha em que, a certa altura, um único Bitcoin chegou a valer mais de US$ 19 mil. Ele comprou um Rolls-Royce de meio milhão de dólares. No entanto, ele conta que, desde então, perdeu a maior parte do que ganhou, mas não gosta de se preocupar com isso (continua com o Rolls-Royce).

No ano passado, o governo da Coreia do Sul pensou em fechar as bolsas de moedas virtuais, afirmando que o fenômeno começava a parecer um jogo de azar. Algumas bolsas estavam processando transações de centenas de milhões de dólares. Mas a notícia causou um grande estardalhaço, e o governo se limitou a impedir que os investidores abrissem novas contas anônimas ligadas a bancos, na tentativa de reprimir a lavagem de dinheiro.

Alguns antigos proponentes das criptomoedas advertem que a época de ouro acabou. Entre eles, Kimchi Powered, um concorrente do Block Battle, um programa de televisão em que os participantes competem na criação de uma companhia baseada em criptotecnologia. 

Kimchi Powered, cujo nome verdadeiro é Jung Ki-young, ainda investe em criptomoedas, mas alerta que já não há tantas oportunidades de ganhar dinheiro como antes. "Há muita gente deprimida hoje em dia por causa da queda dos preços do Bitcoin", observou Jung, 36.

No entanto, muitos "dirt spoons" como Kim Ki-won continuam com a esperança de uma reviravolta das criptomoedas. "Não tenho nada. Sempre quis ser rico".

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