Danny Ghitis para The New York Times
Danny Ghitis para The New York Times

Bitcoin e as muitas armadilhas do universo online

Estudo encontrou uma aparente manipulação de preços nas moedas criptografadas

Farhad Manjoo, The New York Times

30 de junho de 2018 | 10h45

Praticamente tudo na internet pode ser uma fraude. Não se trata de uma observação revolucionária; aprendemos a tomar cuidado com fraudes na internet desde o dia em que fazemos amizade com aquele príncipe nigeriano. A internet é uma reunião global de dinheiro e desconhecidos, o que significa que a possibilidade de uma fraude nunca está distante.

Ainda assim, é surpreendente a frequência com que muitos de nós somos iludidos a baixar a guarda, pensando que o que vemos online é realmente verdadeiro.

Tomemos como exemplo o Bitcoin. Recentemente, John Griffin, destacado investigador de fraudes financeiras, informou que todo o foco dedicado ao preço do Bitcoin no ano passado não foi produto apenas de um interesse autêntico na moeda digital. Em vez disso, ao menos metade do salto no preço foi provavelmente causado por um esquema de manipulação de preços organizado por pessoas ligadas ao Bitfinex, um serviço de negociação de Bitcoin, escreveu Griffin num estudo (o Bitfinex negou o envolvimento em qualquer irregularidade).

O Bitcoin é a criptomoeda descentralizada que é considerada por seus defensores, como o futuro da moeda. Eles dizem que sua principal inovação é uma transparência radical que garante a confiança entre desconhecidos.

O objetivo do Bitcoin é eliminar o tipo de fraude ao qual estamos nos referindo. Cada transação de Bitcoin é registrada num arquivo central, chamado de “blockchain", que é mantido por computadores, e não por uma instituição centralizada como um banco, por exemplo.

Seus proponentes argumentam que os registros centralizados são inerentemente propensos a fraudes e trapaças. De acordo com eles, um registro descentralizado cria uma maneira muito mais eficiente de garantir a confiança na internet.

Os blockchains “podem reduzir drasticamente o custo da confiança por meio de uma abordagem radical e descentralizada para a contabilidade - e, por extensão, criar uma nova maneira de estruturar as organizações econômicas", escreveram Michael J. Casey e Paul Vigna, autores de um livro chamado “The Truth Machine: The Blockchain and the Future of Everything” [Máquina da verdade: blockchain e o futuro de tudo].

A fraude apontada por Griffin não parece sugerir uma falha no blockchain, mas enfraquece a retórica segunda a qual os blockchains seriam os arautos de uma nova era de confiança. Embora as transações do Bitcoin sejam registradas num blockchain, a transparência parece não ter inibido os trapaceiros.

Griffin observou padrões sugestivos de uma manipulação que usava outra moeda virtual, Tether, emitida pelo Bitfinex, para aumentar o preço do Bitcoin quando este apresentava queda. Essas aparentes manipulações foram registradas no blockchain - a equipe de Griffin chegou a essas conclusões analisando o arquivo. Mas, embora a possibilidade de manipulação tenha sido apontada no ano passado, foram necessários meses para o estabelecimento de provas detalhadas de que isso tinha de fato ocorrido.

E, durante esse período, o mundo inteiro apostou mais dinheiro no Bitcoin. Embora todos saibam que a internet está repleta de fraudes, diziam que o Bitcoin seria diferente.

Mas não era. Nunca baixe a guarda.

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