James Best Jr./The New York Times
James Best Jr./The New York Times

Bitcoin: o retorno das tulipas ou o futuro da internet?

Para entender os rumos da criptomoeda, é preciso observar as oscilações no preço para entender como essa tecnologia vem sendo usada

Nathaniel Popper, The New York Times

13 de maio de 2019 | 06h00

SAN FRANCISCO - Quando falamos com o pessoal de tecnologia sobre o rumo que o bitcoin está tomando, há sempre duas comparações: a tulipa como flor e a internet. Os críticos afirmam que os tokens digitais (espécies de ativos) são como os bulbos de tulipas na Holanda do século 17. Eles geraram uma corrida desabalada e rapidamente desapareceram, deixando atrás de si contas bancárias em ruínas.

Os que acreditam nos bitcoins querem que consideremos as criptomoedas como se fossem a internet: uma ampla categoria que levou algum tempo para atingir todo o seu potencial. Depois de acompanhar os bitcoins por alguns anos, acho que nenhuma das duas comparações se aplica. O bitcoin não é nem um fracasso irremediável nem um milagre econômico.

Mesmo depois da crise do ano passado, os usuários de bitcoins transferem diariamente para algum outro lugar da rede entre US$ 400 milhões e US$ 899 milhões em bitcoins, segundo dados do blockchain, registro público em que são consignadas todas as movimentações.

A maioria das transações de hoje é especulativa: as pessoas compram e vendem bitcoins na esperança de que se valorizem no futuro. No ano passado, companhias que realizaram pagamentos em bitcoins representaram 0,3% de todas as transações em criptomoedas, segundo a Chainalysis, startup que analisa o banco de dados blockchain.

Os dados referentes a pagamentos levam a indagar como esta tecnologia pode ganhar impulso. O emprego mais interessante de que falam os fanáticos das criptomoedas é seu valor para pessoas em países onde o regime é repressivo, cujas moedas são até mais voláteis do que o bitcoin. Mas o grande problema do bitcoin é que seu uso prático e legal luta para superar a atividade ilegal ou não ética.

A lista de maneiras em que o bitcoin se mostrou útil para os criminosos continua crescendo, desde os pagamentos para resgatar arquivos bloqueados de computadores - ou mesmo reféns - até as vendas de drogas ilegais. Os números da Chainalysis mostram que as compras de drogas em redes clandestinas aumentaram para cerca de US$ 620 milhões no ano passado, embora o preço do bitcoin esteja caindo.

Todos os dados a que tive acesso sugerem que as compras de drogas representam uma proporção muito maior da economia do bitcoin do que sua proporção na economia em dólares. Além disso, o bitcoin permitiu novos tipos de tráfico de drogas letais, como os opioides sintéticos que estão saindo da China.

A atividade ilegal, principalmente a pornografia, desempenhou um papel importante nos primórdios da internet, mas nada que se assemelhe ao que vimos em bitcoin em seus primeiros dias. O problema é que, além da especulação, nenhum de seus empregos legítimos vingou como o ritmo da atividade ilegal.

O fato de esta tecnologia não ter obtido sucesso entre as pessoas comuns não significa que algum dia isso não vá acontecer. Há ainda inúmeras áreas em que, segundo empreendedores astutos, a natureza aberta das criptomoedas poderá se mostrar útil.

Os capitalistas de risco apostaram no Ethereum e no EOS, redes alternativas de criptomoedas que podem ser programadas para aplicações mais sofisticadas, como os contratos financeiros. Até o momento, o Ethereum tem sido usado por empresas, muitas delas verdadeiras falcatruas e fraudes, para captar dinheiro sem obedecer às regulamentações do mercado de valores mobiliários. Notei poucas indicações de que qualquer um dos usos mais legítimos tenha funcionado com facilidade suficiente para atrair outros compradores além dos fãs das criptomoedas.

Talvez a coisa mais importante que as criptomoedas têm a seu favor seja o fato de que as pessoas sérias ainda querem corrigir as falhas. O valor dos tokens digitais - por mais voláteis que possam ser - criou incentivos para as pessoas trabalharem com eles. O mais recente ator com criptomoedas é o Facebook, que estaria trabalhando com os próprios Tokens.

Não tenho como prever um futuro das cibermoedas melhor do que qualquer outro analista. Mas como o dinheiro respeitável ainda busca caminho no mercado, é ainda muito cedo para extinguir tudo isso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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