Laetitia Vancon/The New York Times
Laetitia Vancon/The New York Times

BMW ficou para trás na corrida dos veículos elétricos. Ela vai se recuperar?

Ao contrário de suas rivais globais, montadora alemã não definiu data para descontinuar carros movidos a gasolina, e investidores não estão satisfeitos

Jack Ewing, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00

MUNIQUE - Oito anos atrás, a BMW foi uma das primeiras grandes montadoras a vender um carro movido a bateria: o i3 inovou com sua carroceria leve de fibra de carbono e chassi de alumínio.

Só que, mais recentemente, a empresa alemã, conhecida por seus carros esportivos de luxo e “máquinas supremas”, ficou para trás na corrida global para desenvolver a próxima geração de veículos elétricos.

Ao contrário da General Motors ou da Volvo, a BMW não definiu uma data para enterrar o motor a combustão interna. Ao contrário da Volkswagen, não começou a vender uma linha completa de veículos projetados do zero para funcionar com baterias. Enquanto outros executivos do setor automotivo se mostram otimistas com o futuro elétrico, Oliver Zipse, presidente-executivo da BMW, critica os planos da União Europeia de proibir os motores a gasolina e diesel até 2035.

“Estou um pouco preocupado com a BMW”, disse Peter Wells, diretor do Centro de Pesquisa da Indústria Automotiva da Cardiff Business School, no País de Gales. Quando se trata de se comprometer com uma linha completa de veículos elétricos, “eles têm sido bastante ambivalentes”.

A percepção de que a BMW é uma retardatária na corrida pelos carros elétricos ajuda a explicar por que os investidores começaram a evitar as ações da empresa, que caíram mesmo depois que neste mês ela informou um saudável lucro líquido trimestral de 4,8 bilhões de euros, ou US $ 5,7 bilhões. As ações da BMW caíram 18% desde o início de junho.

Na sede da BMW em Munique, os executivos da empresa dizem que vão provar que os críticos estão errados nos próximos meses. A companhiacomeçou a vender na Europa um veículo utilitário esportivo movido a bateria, o iX, que chegará aos Estados Unidos no início do ano que vem. O iX será o primeiro BMW desde o i3 projetado para rodar com energia de bateria, em vez de ser uma conversão de um carro a gasolina ou diesel.

“Talvez vocês não tenham visto muito, mas estamos trabalhando muito”, disse Adrian van Hooydonk, diretor de design da BMW, durante uma entrevista no BMW World, a vitrine da empresa em Munique.

Os executivos da BMW dizem que o iX manifesta um compromisso com a propulsão elétrica que só fica aquém dos rivais no nível de fanfarronice. Eles citam o centro de pesquisa em Munique onde a BMW está desenvolvendo sua própria tecnologia de bateria. E ressaltam que a BMW está projetando uma coleção de componentes especializados que irão alimentar uma família de veículos elétricos a partir de 2025, que na sua opinião é quando o mercado vai decolar.

A BMW exemplifica os cálculos difíceis que as montadoras estabelecidas precisam fazer à medida que a indústria se transfere para a energia elétrica. São necessários quatro ou cinco anos para se projetar um novo carro, equipar uma fábrica para construí-lo e organizar uma rede de fornecedores. Os executivos das montadoras precisam fazer apostas de bilhões de dólares com base em suas melhores estimativas do que os compradores de automóveis vão querer daqui a meia década e de que tipo de tecnologia estará disponível.

Ninguém sabe de verdade que tipo de veículo elétrico se tornará popular à medida que o mercado se expandir para além dos primeiros usuários, que tendem a ser ricos e ambientalmente conscientes. Será que eles vão querer designs de carros que sinalizem uma ruptura com o passado? Ou será que vão querer carros elétricos que se pareçam e funcionem como os modelos a gasolina aos quais estão acostumados?

É muito cedo para saber. As vendas de veículos eletrificados estão crescendo rapidamente, mas continuam abaixo dos 4% do mercado total nos Estados Unidos. O mercado é dominado pela Tesla, que está construindo uma fábrica em Berlim. O Model 3 da Tesla é o carro elétrico mais vendido na Europa Ocidental, onde os veículos plug-in representaram 17% das vendas de carros novos no primeiro semestre do ano, ou 1 milhão de veículos, de acordo com a Schmidt Automotive Research em Berlim.

O i3, que a BMW começou a produzir em 2013, foi uma lição sobre os perigos de chegar ao mercado cedo demais. A carroceria de fibra de carbono montada sobre um chassi de alumínio ganhou prêmios de design e foi um feito de engenharia, mas era cara de produzir. Poucas pessoas estavam dispostas a pagar mais de US $ 40 mil pelo que era essencialmente um hatchback que conseguia viajar apenas cerca de 120 quilômetros com uma carga. Modelos posteriores têm baterias aprimoradas e podem percorrer mais de 240 quilômetros entre cargas.

A BMW continua a produzir o i3 e vendeu cerca de 210 mil unidades desde 2013, mas encerrou as vendas nos Estados Unidos em julho. Os executivos da BMW rejeitam a ideia de que o i3 foi um erro, dizendo que aprenderam lições valiosas sobre a tecnologia dos veículos elétricos, como fazer motores mais eficientes. “Nada disso existiria sem o i3”, disse Frank Weber, membro do conselho da BMW responsável pelo desenvolvimento, enquanto dirigia um iX marrom nas ruas ao redor da sede da empresa em Munique.

A BMW esperou oito anos para oferecer uma sequência ao i3 porque os executivos perceberam que precisavam de um carro capaz de percorrer mais de 600 quilômetros com uma carga, disse van Hooydonk. “Com o iX, temos isso agora”, disse ele.

Logo depois que o iX chegar às concessionárias europeias no outono (do hemisfério norte), a BMW começará a vender o i4, um sedã de alto desempenho movido a bateria. Como um curto teste em Munique demonstrou, o i4 tem aquele tipo de aceleração estonteante que a energia elétrica pode oferecer. Mas o i4 compartilha componentes com modelos BMW com motores a gasolina, um recurso que gerou críticas.

Até 2025, a estratégia da BMW será vender a versão elétrica como uma opção disponível para todos os seus modelos principais. Inicialmente, a maioria dos BMWs elétricos serão adaptações de seus primos de combustão interna.

Em 2025, a BMW planeja começar a construir veículos em uma plataforma – uma coleção de componentes que podem ser compartilhados por vários modelos diferentes – que é otimizada para energia de bateria. Este é o ano em que muitos analistas acreditam que os veículos elétricos ficarão mais baratos do que os modelos a gasolina e as vendas irão disparar.

Nesse caso, o timing da BMW pode provar que foi perfeito.

Até agora, porém, o mercado mudou mais rapidamente do que as previsões. Na Europa, as vendas de veículos elétricos dispararam durante a pandemia. Nos Estados Unidos, o governo Biden deu um impulso aos veículos elétricos em agosto, ao revelar um plano para aumentar as vendas de veículos elétricos para 50% dos carros novos até 2030.

Nem mesmo os críticos da BMW a estão tirando da corrida. “Eles são engenheiros fantásticos”, disse Wells, da Cardiff Business School. “Podem fazer tudo que quiserem”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.