Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Boates de Berlim estão ameaçadas devido à pressão do setor imobiliário

Políticos e moradores se reuniram para salvar os locais para dançar

Thomas Rogers, The New York Times

14 de fevereiro de 2020 | 06h00

BERLIM - Recentemente, cerca de 300 pessoas fizeram uma manifestação na frente de um edifício da prefeitura, no sudeste de Berlim, dançando e agitando cartazes. Um deles dizia: “Todas as boates são lindas”; e outro: “No dia em que eu parar de dançar, será porque parei de respirar”. Acompanhadas por música techno, elas protestavam contra o fechamento da famosa boate Griessmuehle. No início de fevereiro, o clube foi despejado porque seus novos proprietários pretendem remodelar toda a área.

Na ocasião, vários políticos discursaram, inclusive Martin Hikel, o prefeito do distrito de Neukölln, onde ocorriam os protestos. ‘Há um consenso entre os partidos de que as boates devem ser protegidas”, ele disse aos manifestantes, acrescentando que “a vontade política” existe.

Berlim é conhecida por suas boates totalmente livres, mas nos últimos dez anos, esta filosofia vem sofrendo cada vez mais pressões dos investidores imobiliários e dos projetos de infraestrutura. A situação se tornou mais complicada em razão de uma aguda escassez de habitações, e do forte crescimento econômico da cidade.

Muitos dos espaços anteriormente abandonados foram reurbanizados e os preços dos imóveis subiram vertiginosamente. Segundo a Comissão de Clubes, uma associação que protege a vida noturna de Berlim, cerca de 100 boates foram fechadas no mesmo período, e cerca de 25 locais estão sendo ameaçados.

Hoje, parlamentares de todo o espectro político passaram a defender a sua causa, em parte para proteger o papel peculiar destes locais na cultura da cidade, mas também porque as boates são fábricas de dinheiro. Segundo um estudo realizado pela Comissão de Clubes, os turistas que visitam Berlim justamente por causa de suas boates contribuíram com cerca de 1,5 bilhão de euros, ou US$ 1,66 bilhão, para a economia da cidade em 2018. Também são muito importantes como fator de atração de jovens trabalhadores que os políticos consideram fundamentais para o crescimento econômico de Berlim.

A cultura das casas noturnas da cidade, que nasceu nos anos 1990 depois que organizadores começaram a dar festas em edifícios semidestruídos após a queda do Muro de Berlim, é conhecida internacionalmente por seu foco na música techno, e por sua natureza livre de restrições. Às vezes, as festas duram dias a fio.

No outono passado, Caren Lay, expoente do Partido da Esquerda no Parlamento alemão, propôs uma lei que ofereceria às boates maior proteção contra os aumentos dos aluguéis, e promoveria a sua classificação na legislação sobre construções. O seu desejo era que fossem considerados instituições culturais, no mesmo nível dos teatros e das salas de concerto, afirmou. “Se outros bons fecharem, estaremos caminhando para nos tornarmos mais uma cidade sem atrativos, sem uma identidade definida”, observou.

Ela espera que a pressão do público obrigue o governo a adotar novas medidas de proteção quando a lei sobre construções da Alemanha for debatida ainda este ano. No fim do ano passado, o KitKatClub, um local para dançar e notório fetiche popular, anunciou que o seu senhorio se recusara a prorrogar a locação, embora as negociações continuassem. Vários outros estão ameaçados pelo plano de expansão de uma rodovia.

Griessmuehle foi criado há oito anos no local onde anteriormente havia uma fábrica de macarrão. David Ciura, diretor gerente da casa noturna, disse que viu o local passando de trem, e tratou de negociar em cinco minutos um acordo de sublocação com os antigos ocupantes, uma empresa de logística. “Isto nunca mais irá acontecer”, disse.

A propriedade foi vendida há quatro anos a uma subsidiária da S Immo, uma imobiliária austríaca. No verão passado, os novos proprietários anunciaram que não renovariam o contrato de sublocação. Uma porta-voz da companhia informou que o plano era construir “escritórios, lofts e oficinas, e também um salão comunitário” no local.

No final de janeiro, o Estado e alguns parlamentares locais, além de membros da Comissão de Clubes, negociaram concessões com o novo proprietário, inclusive a possibilidade de abrir um novo espaço para a boate no local reurbanizado. “Sem o envolvimento de políticos para estimular a conversação, nada teria acontecido. Agora, muitos políticos colocaram o caso no topo da agenda, mas quanto mais políticos se interessaram pelo assunto, melhor”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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