Jun Michael Park/The New York Times
Jun Michael Park/The New York Times

Seu sonho olímpico renasce, apesar do medo de traumatismo craniano

A.J. Edelman fugiu dos perigos dos esportes de trenó depois de competir por Israel no skeleton nos Jogos de Inverno de 2018. Agora ele está tentando, novamente, no bobsled

Matthew Futterman, The New York Times - Life/Style

29 de janeiro de 2021 | 05h00

A.J. Edelman estava preocupado. Ele tinha consciência dos acidentes devastadores causados pelos esportes de trenó sobre o gelo, principalmente em sua especialidade, o skeleton, e dos atletas aposentados que lutavam contra a perda de memória e a incapacidade de realizar atividades simples, como ler.

Ele queria perseguir o sonho olímpico, embora isso pudesse lhe danificar o cérebro. Então, desenvolveu uma nova técnica para descer a pista de gelo, imaginando que sua inovação o manteria mais seguro.

Mas, quando Edelman chegou às Olimpíadas de Inverno de 2018 – competindo por Israel, o país que ele adotou –, os organizadores o proibiram de usar a nova técnica, alegando que ela violava as regras do esporte. Ele terminou o evento em 28º lugar entre 30 competidores e depois se aposentou, tendo realizado muito mais do que qualquer um poderia ter previsto quando entrou no esporte, três anos e meio antes, colidindo já na primeira corrida.

Formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), Edelman decidiu fazer um mestrado em Administração de Empresas na Universidade Yale. Embora tenha jogado hóquei no gelo quando jovem nos subúrbios de Boston e entrado para o time do MIT, o esporte nunca foi sua vocação principal. Ele parecia pronto para continuar.

No entanto, a sedução dos Jogos Olímpicos pode fazer com que as pessoas ajam de maneira surpreendente. Os pais permitem que os filhos sejam treinados por pessoas que confundem a linha entre a disciplina e o abuso. Os corredores passam fome de forma tola para perder peso, acreditando que um corpo mais leve significa mais velocidade.

E atletas como Edelman se inscrevem novamente para a corrida de bate-cabeça a 120 quilômetros por hora, mesmo depois de terem tido dor de cabeça, visão turva, tontura, depressão, exaustão e outros sintomas associados a lesões cerebrais traumáticas, e ainda que tenham consciência de uma série de mortes por overdose, suicídios e problemas neurológicos persistentes que têm acometido ex-atletas de esportes de trenó sobre o gelo nos últimos anos.

Agora, Edelman, que deu uma pausa na escola de negócios, decidiu tentar outro esporte de trenó e se tornou piloto de bobsled, com o objetivo de ir aos Jogos de Inverno de 2022 em Pequim.

"Sei que vou machucar meu cérebro fazendo isso. A missão é mais importante do que minha saúde ou minhas economias", escreveu Edelman, de 29 anos, em uma mensagem de texto recente. Ele também sabe que vai gastar mais de US$ 100 mil do próprio bolso no esforço, drenar suas economias, pedir emprestado quanto puder, buscar doadores e tentar leiloar seu anel olímpico.

Para chegar aos Jogos Olímpicos, geralmente são necessários anos de prática, começando cedo. O bobsled e o skeleton são raras exceções, e isso faz parte do apelo de Edelman. São esportes com talvez mil atletas no mundo todo, com pouca participação recreativa. Muitos atletas mal tinham ouvido falar de bobsled ou skeleton até a idade adulta.

Então, alguém – um técnico, outro atleta, um estranho na academia – sugeriu que a força e a velocidade, conquistadas com anos de treino de atletismo, futebol ou rúgbi, podem ser transferidas com sucesso para esses esportes olímpicos pouco conhecidos. Lolo Jones, destacado atleta de corrida de obstáculos, competiu no bobsled nos Jogos de Inverno de 2018 e está tentando chegar a 2022.

Existem apenas 16 pistas de bobsled no mundo. Quatro estão na Alemanha e há muitas outras em remotas cidades montanhesas, o que ajuda a colocar o esporte entre os mais inacessíveis do mundo. Além disso, os trenós são caros, cerca de US$ 40 mil para um modelo usado e US$ 100 mil para um novo.

E, no entanto, essa inacessibilidade é o que torna acessível a participação em nível de elite. Como quase ninguém de fora da Alemanha cresce visando ser piloto de bobsled, alguém como Edelman pode compartilhar uma distinção de classe mundial com Michael Phelps – ser um atleta olímpico.

"Há uma grande despesa e é preciso chegar a um lugar onde haja uma pista, de modo que esse não é um esporte fácil de entrar, mas quase qualquer um pode tentar. É possível se você tiver uma capacidade atlética decente e, de certa forma, não tiver medo, porque pouquíssimas pessoas sobem no trenó pela segunda vez", disse David Greaves, que se tornou cidadão israelense há duas décadas e lidera o bobsled/skeleton Israel, órgão governamental, de sua casa no Canadá.

Edelman tinha elegibilidade para obter a cidadania israelense porque é judeu e se apaixonou pelo país durante uma viagem do colégio.

Em 2014, ele percebeu que tinha uma chance de se tornar um atleta olímpico representando Israel em um esporte de trenó sobre o gelo. País mediterrâneo que é metade deserto, nunca teve um atleta competindo no bobsled, no skeleton ou no luge (trenó cujo piloto desce com os pés para a frente) e destina pouca verba a esses esportes.

Aprendendo a técnica por meio de vídeos do YouTube, Edelman correu o máximo de vezes que conseguiu para recuperar o tempo perdido, às vezes descendo a pista nove vezes em um único dia. Esse ritmo de treinamento é três vezes maior do que os atletas mais experientes aguentam. Muitos treinadores e autoridades do esporte agora reconhecem que as excessivas corridas de treinamento diário aumentam a probabilidade de lesão cerebral, mesmo que não haja acidentes.

Em 2018, dois anos depois de se tornar cidadão israelense, Edelman se classificou para as Olimpíadas na Coreia do Sul, o primeiro competidor olímpico de Israel no skeleton. Ele mitigou os riscos de lesão cerebral usando uma proteção facial mais longa que lhe permitia descansar a cabeça no trenó, limitando as chances de a cabeça bater no gelo à medida que a força gravitacional aumentasse nas curvas fechadas.

Ele usou a técnica em várias corridas internacionais, mas uma decisão de última hora das autoridades do skeleton da Coreia do Sul o impediu de usá-la nas Olimpíadas. Venceu apenas atletas da Jamaica e de Gana.

Devastado, Edelman caiu em profunda depressão. Os médicos declararam que o treinamento excessivo provavelmente piorou a situação.

"É possível que múltiplos golpes na cabeça tenham tido um papel no aumento dos sintomas neuropsiquiátricos – por exemplo, a impulsividade, as alterações de humor", escreveu Mary-Ellen Meadows, neuropsicóloga do Hospital Brigham and Women's, em Boston, em outubro de 2018, depois de avaliar Edelman. Ele se comprometeu a doar seu cérebro à Concussion Legacy Foundation da Universidade de Boston.

Então, no fim do ano passado, a depressão e outros efeitos persistentes do treinamento do skeleton diminuíram, e ele se sentiu atraído pelos anéis olímpicos novamente. Edelman impressionou um treinador australiano durante uma corrida experimental de bobsled. O treinador lhe disse que, se ele treinasse bastante e encontrasse alguns companheiros de equipe fortes e rápidos para empurrar o trenó, poderia se classificar para as próximas Olimpíadas de Inverno.

Edelman recrutou três árabes israelenses que jogam pela equipe nacional de rúgbi para empurrar o bobsled e ficar na parte de trás na descida de 50 segundos no gelo.

Os homens, Amir e Ward Fawarsy, que são primos, e Moran Nijem, são alunos do Instituto Wingate de Educação Física e Esportes em Netanya, cidade litorânea de Israel. Até dezembro, eles jamais tinham entrado em um bobsled ou visto uma pista pessoalmente.

No que diz respeito às narrativas olímpicas, a história da equipe israelense de bobsled é sedutora. Representando uma nação dilacerada por conflitos religiosos e étnicos há mais de 60 anos, três árabes e um judeu estão se unindo, no que é, potencialmente, o maior palco do esporte.

Nijem e os primos Fawarsy se juntaram a Edelman no fim de dezembro na Coreia do Sul, onde Edelman tem treinado para melhorar sua habilidade de pilotar o trenó. Edelman planeja realizar mais de 200 corridas de prática até o fim da temporada – o que significaria duas a três corridas por dia, três ou quatro dias por semana durante o inverno.

Greaves disse que o Bobsled/Skeleton Israel contratou Aliyah Snyder, neuropsicóloga e ex-atleta de skeleton, para desenvolver protocolos de segurança. Snyder contou, em uma entrevista em novembro, que passou anos se recuperando de lesões cerebrais.

A qualificação será difícil para a equipe israelense, especialmente com a pandemia do coronavírus limitando as viagens e tornando mais difícil atingir o número necessário de corridas e performances de qualidade para chegar às Olimpíadas.

Nijem afirmou que não estava preocupado com o perigo potencial de entrar em um trenó de 90 quilos com um piloto novato que ainda está aprendendo como evitar capotá-lo em curvas traiçoeiras. "Mesmo que A.J. bata, ainda confiamos nele".

"Somos jogadores de rúgbi. Sabemos tudo sobre concussões", acrescentou Amir Fawarsy.

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