Adam Dean/The New York Times
Adam Dean/The New York Times

Com atenções voltadas para a Boeing, falhas da Lion Air passam despercebidas

Enquanto a multinacional norte-americana é submetida a rigoroso exame depois de dois acidentes fatais em menos de cinco meses, a linha indonésia escapa de investigação

Hannah Beech e Muktita Suhartono, The New York Times

28 de novembro de 2019 | 06h00

JAKARTA, INDONÉSIA – Quando o Voo 610 da Lion Air decolou no céu claro, no dia 29 de outubro de 2018, o jato 737 dispunha de um sistema anti-stall projetado pela Boeing que, minutos depois, o faria mergulhar de nariz, matando todas as 189 pessoas a bordo.

No entanto, a aeronave tinha outro problema de segurança. O voo 610 era operado pela Lion Air, linha indonésia de baixo custo que se beneficiara de suas relações políticas, tornando-se uma das linhas aéreas de maior crescimento do mundo, apesar de sua segurança ter sido questionada em diversas ocasiões.

Enquanto a Boeing estava sendo submetida a um rigoroso exame depois de dois acidentes fatais em menos de cinco meses, a Lion Air escapou desta investigação, apesar de falhas óbvias terem contribuído para o desastre do voo 610.

Uma apuração realizada pelo jornal New York Times descobriu que a Lion Air faz seus pilotos trabalharem até a exaustão, falsifica a sua certificação de treinamento e os obriga a voar com aviões que eles consideram inseguros, como o que se acidentou.

Apesar das vagas promessas de melhorias depois do acidente do ano passado, a empresa aérea não admitiu totalmente nem tratou com a devida celeridade de atender às preocupações que foram levantadas a respeito de suas práticas de segurança, tanto pelos investigadores do governo quanto pelas pessoas que concordaram em fornecer informações importantes, entrevistadas pelo Times

“A concessão da Boeing foi uma dádiva dos céus para a Lion Air”, disse John Goglia, ex-membro do Conselho Nacional de Segurança dos Transportes dos Estados Unidos e especialista em segurança da aviação.  “Significa que a Lion Air não precisa se preocupar com o que causa claramente falhas sucessivas, e em fazer as mudanças necessárias."

Dos nove fatores que causaram o acidente, segundo o relatório final  da Comissão Nacional de Segurança dos Transportes da Indonésia, o que chamou as atenções do mundo todo foi uma falha fatal no projeto da Boeing de um sistema automático, principalmente depois da queda de outro avião na Etiópia relacionado ao sistema de antiparagem.

Embora o relatório tenha documentado falhas da parte da Lion Air, como manutenção descuidada e pilotos pouco treinados, os exemplos da culpabilidade da companhia aérea foram minimizados na apresentação do relatório, para grande desalento dos críticos que observam que a Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo, luta com uma corrupção endêmica. A Lion Air não aceitou a responsabilidade pelas falhas enumeradas no documento, e ignorou a maior parte dos problemas de segurança mencionados por seus funcionários antigos e atuais.

Em resposta ao relatório final, a companhia escreveu que estava “consciente dos esforços que têm sido feitos para criticar os pilotos da Lion Air, os seus engenheiros e o pessoal da manutenção que operavam ou trabalhavam” na aeronave.

Recomendações de segurança

Apesar da urgência  de algumas recomendações sobre a segurança  contidas no relatório oficial, inclusive melhorar o processo de informação dos eventuais riscos da Lion Air e o treinamento de segurança, a companhia  parece estar adiando seus próximos passos, em lugar de agir de maneira decisiva e imediata.

“Preciso de tempo”, afirmou o diretor gerente da Lion Air, Daniel Putut, quando perguntaram com que rapidez a companhia poderia implementar as recomendações. “Vamos dizer mais um ou três meses, porque precisamos estudar o problema para saber se há coisas que devemos mudar.”

Embora negando que as deficiências citadas no relatório influíram de modo preponderante no acidente, Putut disse que a Lion Air “procura melhorar” a maneira como os riscos para a segurança são identificados.

Mas um ex-piloto da companhia, Jimmy Kalebos, disse que a recusa da empresa a admitir estas falhas é sintomática da sua abordagem na área de segurança antes do acidente. “Como se pode solucionar um problema”, perguntou, “se não se admite que ele existe?”

Nenhum funcionário da companhia foi demitido em consequência do acidente do ano passado. Enquanto a companhia não parece pressionada a adotar mudanças em razão do relatório, autoridades indonésias defenderam imediatamente uma empresa que registrou 11 acidentes e incidentes desde a sua fundação, em 1999, segundo a Aviation Safety Network.

Pilotos antigos e atuais da Lion Air referiram-se a dezenas de casos em que foram obrigados a voar apesar de suas preocupações com a meteorologia, da aeronavegabilidade ou mesmo de suas próprias condições físicas.

Em dois casos, os pilotos contaram que receberam a ordem de voar para aeroportos perto de incêndios florestais que prejudicavam a visibilidade. “O gerente me disse: ‘Ah, mas você não precisa enxergar a pista porque temos instrumentos que enxergam por você’”, relembrou Eki Adriansjah, ex-piloto da companhia.

Funcionário público, Atmadji Sumarkidjo disse que o governo prefere que os seus funcionários evitem voar com a Lion Air, solicitação que não consta de nenhum documento. “Você pode, mas precisa rezar para Deus.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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