Chang W. Lee / The New York Times
Chang W. Lee / The New York Times

Boeing luta para recuperar confiança do público – e dos pilotos

Empresa pressiona também grupos de passageiros em uma tentativa de fazer o Max 737 voltar a voar

Natalie Kitroeff e David Gelles, The New York Times

20 de maio de 2019 | 06h00

A ofensiva de sedução lançada pela Boeing para convencer companhias aéreas, tripulações e passageiros a apoiarem seu 737 Max já esbarra em certa resistência. O esforço emperra em um problema criado pela própria companhia: depois de reagir de maneira desastrada a dois acidentes mortais com o avião, a Boeing enfrenta problemas de credibilidade.

Recentemente, ela enviou John Moloney, um de seus principais lobistas, à sede do influente sindicato dos comissários de bordo. Moloney chegou determinado a obter o apoio da categoria, mas encontrou um público cético. "Por sua linguagem corporal, vocês parecem indiferentes", observou durante o diálogo com a Associação dos Comissários de Bordo. "Se esta explicação não puser fim a suas preocupações, voltarei trazendo um piloto".

Sara Nelson, presidente do sindicato, disse a Moloney que, embora quisesse o sucesso da Boeing, não estava pronta para dizer aos comissários de bordo e aos passageiros que voassem no avião. "Não sei se, neste momento, sentada aqui, posso afirmar ao senhor que confiamos plenamente que tudo tenha sido acertado na Boeing", ela disse a Moloney.

O diretor-executivo da companhia, Dennis A. Muilenburg, também teve trabalho para convencer as companhias aéreas americanas que voam com o Max - Southwest Airlines, American Airlines e United Airlines - e se encontrou com empresas aéreas estrangeiras para discutir um novo treinamento e planos para uma campanha de publicidade.

A Boeing, que tem profundos vínculos com Washington e é uma das maiores exportadoras americanas, está na defensiva. A companhia enfrenta neste momento investigações federais a fim de averiguar as falhas dos projetos que contribuíram para os acidentes, assim como ações movidas pelos familiares das vítimas. A maior preocupação dos executivos e dos comissários de bordo da companhia é com os danos que tudo isso provocou à reputação outrora impecável da Boeing.

"Todos na companhia reconhecem que teremos de tomar providências para agir e recuperar a confiança na marca Boeing durante anos", disse David Calhoun, principal diretor independente do conselho de direção da Boeing. "Há uma única coisa a fazer: colocar um avião seguro de volta no céu", declarou.

Desde que todos estes aviões foram obrigados a permanecer no solo, em março, a Boeing trabalha furiosamente para que o Max volte a voar. No mês passado, a corporação recebeu a visita de centenas de diretores e pilotos de companhias aéreas na fábrica do Max 737, em Renton, Washington, e está em constante contato com as autoridades reguladoras. Em meados de maio, a companhia anunciou que desenvolveu um software para a correção de problemas, e espera que seja aprovado pelos reguladores americanos.

"Em última análise, a decisão de voltar a colocar o Max no serviço comercial está nas mãos dos reguladores globais", afirmou Gordon Johndroe, porta-voz da companhia.

Simultaneamente, a Boeing prepara uma estratégia de relações públicas para aproximar os passageiros. A companhia e outras empresas aéreas concordam que o principal executivo, Muilemburg, talvez não seja o mensageiro mais eficiente, como representante de mais alto escalão de uma empresa sob intensas investigações. Por isso, o plano prevê que os pilotos desempenhem um papel de grande importância na campanha.

"Nós achamos que a contribuição dos pilotos de nossas linhas será fundamental em tudo isso; a voz deles é muito importante", afirmou Muilenburg falando por ocasião da divulgação dos lucros da Boeing no mês passado.

Os executivos das companhias aéreas dos Estados Unidos estão ansiosos para que o avião volte a voar, mas muitos comentam discretamente que estão frustrados com a Boeing. Eles acreditam que a empresa não soube administrar a resposta dada ao público sobre os acidentes, e estão irritados com a possibilidade de a blitz das relações públicas recair sobre os seus pilotos.

Os pilotos também, relutam em desempenhar o papel de embaixadores da marca em benefício da Boeing, que mal se dirigia a eles antes da queda do avião da Lion Air na Indonésia, em outubro, o primeiro dos dois acidentes fatais.

"Nossa resposta é, 'tudo bem, tudo lindo, mas nós não vamos entrar nessa com vocês'", disse Mike Trevino, porta-voz da Associação dos Pilotos da Southwest Airlines. "Vamos continuar mantendo uma postura independente e veremos o que acontece".

Em parte, a relutância decorre das mensagens pouco claras da Boeing. Embora tenha afirmado, "Nós somos os donos", Muilenburg não reconheceu que algo estava errado no projeto do jato.

Grupos de passageiros exigem que a Boeing assuma uma maior responsabilidade. "Se quiserem realmente solucionar o problema, devem admitir que a culpa", afirmou Paul Hudson, presidente da Flyers Rights, organização sem fins lucrativos que defende os direitos dos passageiros. "Vocês não podem dizer, 'Nós somos os donos, mas não fizemos nada errado e a culpa é de alguns outros'".

No final da última reunião com os comissários de bordo, Moloney fez um esforço de última hora para conseguir o apoio deles. "Queremos que vocês possam dizer aos seus colegas que este avião é seguro", disse. "Custe o que custar". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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