Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Melhor armado e com drones, Boko Haram ainda aterroriza a Nigéria

Membros de grupo armado controlam quatro das 10 regiões do norte do estado de Borno, de acordo com analistas de segurança

Dionne Searcey, The New York Times

19 de setembro de 2019 | 06h00

KONDUGA, NIGÉRIA - Uma cicatriz recente se estende de cima a baixo no abdome de Abdul, 10 anos - resultado de um atentado suicida do Boko Haram realizado em junho, quando foram lançados os estilhaços que rasgaram sua barriga. Meia dúzia de garotos se aglomeravam em volta dele e levantavam suas camisas. Todos ostentavam cicatrizes parecidas, resultados do ataque que deixou 30 mortos.

A luta da Nigéria contra o grupo islamista radical Boko Haram já deveria ter acabado. O presidente Muhammadu Buhari, um ex-líder militar, foi reeleito este ano após ter se gabado do avanço no combate ao Boko Haram. Declarava repetidamente que o grupo estava “tecnicamente derrotado”. Em 10 de setembro, o presidente reconheceu que “seus membros ainda são um inconveniente”.

Após uma década de guerra, porém, os militantes do Boko Haram ainda percorrem o interior do país livremente, impunes. Os combatentes possuem agora drones mais sofisticados que aqueles dos militares e estão melhor armados, depois de bem-sucedidos ataques contra brigadas militares, de acordo com políticos locais e analistas de segurança.

Os militantes controlam quatro das 10 regiões do norte do estado de Borno, próximo ao Lago Chade, de acordo com analistas de segurança e uma autoridade federal. Eles realizam ataques quase diariamente. Para as pessoas que vivem em vilarejos como Konduga, a derrota do Boko Haram parece improvável.

De acordo com muitos relatos, os militares nigerianos estão desmoralizados e ficam na defensiva. Alguns soldados reclamam que não tiram licença há três anos. Suas armas e seus veículos precisam de manutenção. Os militares anunciaram em agosto que estavam retirando suas tropas dos postos mais avançados e posicionando-as em assentamentos fortificados, chamados de “supercampos”.

Os supercampos ficam em cidades guarnecidas, nas quais os militares nigerianos têm assentado milhares de civis nos anos mais recentes - tanto após o Boko Haram expulsá-los de suas localidades originais como após soldados terem queimado seus vilarejos e os terem recolhido, afirmando que a medida seria necessária para a segurança na região. As cidades guarnecidas são cercadas por trincheiras destinadas a dificultar ataques de militantes, mas as retiradas das forças oficiais permitem que os combatentes do Boko Haram circulem livremente pelo interior árido.

Alguns anos atrás, a situação parecia mais esperançosa. Em 2015, após a primeira eleição do presidente Buhari, os militares nigerianos fizeram grandes avanços contra o Boko Haram. Os militantes foram expulsos de Maiduguri, a capital do Estado, e de pequenas cidades que o Boko Haram havia conquistado, fazendo-os fugir para esconderijos na mata.  Mas, nos anos mais recentes, enquanto a guerra se arrasta, a atenção das autoridades nigerianas se voltou para outros tipos de problemas de segurança.

Criticados por sua estratégia, considerada antiquada e ineficiente, os comandantes militares afirmam que os supercampos são uma maneira nova e mais eficaz de lidar com a insurgência, que agora tem capacidade de realizar ataques mais sofisticados contra os militares.

Algumas autoridades, porém, consideram os supercampos uma retirada definitiva. Uma autoridade federal, que pediu para não ser identificada por medo de suas críticas aos militares colocarem sua segurança em perigo, afirmou que os soldados estão meramente usando os supercampos como barricadas. A autoridade afirmou que os combatentes do Boko Haram estão recolhendo todo o equipamento que os soldados deixam para trás quando abandonam seus postos na direção dos supercampos.

A corrupção é outro elemento que pode estar prolongando a guerra, de acordo com autoridades do governo, analistas de segurança e funcionários de agências humanitárias. No nordeste da Nigéria, o Boko Haram é acusado há muito tempo de lucrar com a pesca ilegal no Lago Chade, onde a atividade é proibida, e de cobrar pedágio de veículos que circulam pela região. Agora, os militares são acusados de fazer o mesmo.

O governo destina o equivalente a US$ 80 milhões a cada trimestre para o esforço de guerra e, ainda assim, falta aos soldados nigerianos acesso amplo a munição e cuidados médicos - o que faz muitos habitantes do país questionarem para onde está indo esse dinheiro. De acordo com relatos dos moradores, alguns soldados fugiram em razão dos ataques, em vez de ficar para lutar.

Em algumas regiões fora do alcance dos militares, as pessoas contam que passaram a tolerar a presença dos militantes. Os habitantes locais estão retornando para suas fazendas para ganhar a vida, preferindo essa convivência a ser arrebanhados em campos lotados, sujeitos a cólera e outras infestações.

Maiduguri, um grande centro comercial do norte da Nigéria, não sofre nenhum ataque há meses, mas as autoridades afirmam que a cidade está cercada por militantes. O Boko Haram assaltou uma comunidade nos limites da cidade em busca de comida e roupas no fim de agosto, de acordo com membros de uma milícia que auxilia os militares.

A partir de um posto avançado com vista para a paisagem, os milicianos apontam para o horizonte, na direção de dois conhecidos acampamentos do Boko Haram, que ficam a menos de oito quilômetros dali. Um miliciano apelidado de Madman (Doido, em tradução livre) empunhou sua espingarda de cano duplo e escalou um portão de metal que lhe serve de posto de vigia, a última linha de defesa do flanco sudeste de Maiduguri contra o Boko Haram. Eric Schmitt colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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