Adam Ferguson para The New York Times
Adam Ferguson para The New York Times

Boko Haram usa meninas sequestradas em missões suicidas

Grupo extremista castiga garotas que se negam a casar com insurgentes prendendo bombas em suas cinturas e as enviando para explodir campos de soldados e refugiados

Dionne Searcey, The New York Times

22 Abril 2018 | 10h15

MAIDUGURI, NIGÉRIA - As jovens não queriam matar ninguém. Caminharam em silêncio por um tempo, sentindo o peso dos explosivos presos à sua cintura, enquanto seguravam os detonadores e tentavam encontrar uma maneira de se livrar daquilo.

“Não sei como arrancar estas coisas de mim”, disse Hadiza, 16, caminhando para sua missão. “O que você vai fazer com o seu?”, perguntou à menina de 12 anos ao seu lado. 

“Vou explodir com ele”, esta respondeu.

Tudo acontecia muito depressa. Depois de ser sequestrada pelo Boko Haram no ano passado, Hadiza se deparou com um combatente no campo onde estava sendo mantida como refém. Ele queria “casar” com ela. Mas Hadiza o rejeitou.

“Você vai se arrepender”, retrucou o combatente.

Poucos dias mais tarde, ela foi levada à presença de um líder do grupo e este disse que ela iria para o lugar mais feliz que seria possível imaginar. Hadiza achou que iria para casa. Ele estava falando do paraíso.

Foram buscá-la à noite. Prenderam explosivos à sua cintura, e mandaram que ela saísse com a menina de 12 anos descalça, sozinhas. Teriam de detonar as bombas em um campo de civis nigerianos que haviam fugido da violência do Boko Haram na região.

“Eu sabia que morreria e que mataria outras pessoas também”, lembra Hadiza. “Não queria isso”.

O nordeste da Nigéria, onde a guerra com o Boko Haram já está no nono ano, tornou-se um lugar onde as próprias meninas são temidas.

Segundo a Unicef, pelo menos 135 crianças foram usadas em ataques suicidas no ano passado. No dia 31 de março, quatro adolescentes foram usadas em ataques múltiplos em Maiduguri.  Elas morreram, juntamente com duas outras pessoas.

Uma propaganda do serviço público mostra as meninas como colaboradoras do Boko Haram. Mas o New York Times entrevistou 18 garotas que foram enviadas em missões suicidas pelo grupo terrorista. Elas  falaram que foram sequestradas, mantidas como reféns, e depois forçadas a saírem para realizar os ataques.

A maioria delas contou que os rebeldes diziam que a religião as obrigava a executar as ordens. Mas todas resistiram, impedindo os ataques, depois pediram ajuda a cidadãos comuns e às autoridades.

Asha, 15, fugiu de casa com o pai e o irmão de dez anos, mas o Boko Haram os pegou. Os terroristas mataram o pai e, logo em seguida,  prendendo uma bomba em seu irmão, o sentando entre dois deles em uma moto e indo embora a toda velocidade.

Os dois militantes voltaram sem o menino, comemorando. Depois contaram para ela que o irmão explodira matando alguns soldados de um quartel. Os militantes falaram para ela não chorar por causa dele. “Ele matou pessoas más”, disseram.

Mais tarde, prenderam uma bomba nela também e mandaram que fosse para aquele mesmo quartel. Como algumas de suas companheiras, Aisha disse que pensou em ir para um lugar isolado e apertar o detonador, para não machucar outras pessoas. Entretanto, ela se aproximou dos soldados e os convenceu a retirar os explosivos do seu corpo com todo o cuidado.

“Eu disse para eles: ‘Meu irmão esteve aqui e matou alguns dos homens no quartel’”, contou. “Ele não teve bom senso, não compreendeu que não precisava fazer aquilo, era apenas um menino”.

Outras garotas, cujos nomes não foram mencionados para sua segurança, relataram episódios semelhantes de terror e revolta.

Amina, 16, recebeu a ordem de explodir os fiéis de uma mesquita. Mas ao chegar perto da multidão, viu o tio, que a ajudou a se salvar.

Maryam, 16, contou que recebeu a ajuda de um velho que descansava debaixo de uma árvore. Os dois gritaram para uma outra pessoa mais adiante; esta fez algumas perguntas para ter certeza de que ela não iria explodi-la também.

Como Hadiza, a maioria das meninas ouvidas disse que foram usadas como suicidas quando se recusaram a casar com os terroristas.

Hadiza e a menina de 12 anos aproximaram-se de um posto de controle, e ela ficou com medo do que os soldados poderiam fazer - somente nos três últimos meses de 2016, 13 meninas entre 11 e 17 anos foram mortas ao serem confundidas com terroristas suicidas.

Hadiza disse à menina mais nova que esperasse perto de uma árvore mais distante enquanto ela explicava aos soldados qual era sua missão. Ela sabia que a menina levantaria suspeitas porque era jovem demais para estar andando no mato sem os pais.

Os soldados acreditaram nela e ajudaram as meninas a retirarem os explosivos antes de interrogá-las separadamente. Hadiza foi levada para um acampamento de fugitivos. Ela ainda não sabe o paradeiro da mãe, ou mesmo se ela está viva. Mas o pai apareceu no campo poucas semanas depois. Quando ela contou o que havia acontecido, o pai chorou.

“Ele jamais me rejeitaria”, disse. “Estava muito feliz por eu ter sobrevivido”.

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