Nicholas Law/The New York Times
Nicholas Law/The New York Times

O que há de bom nas bolhas de tecnologia

Estamos vendo uma mania por ideias malucas de tecnologia. Mas as bolhas tecnológicas não são necessariamente a pior coisa

Shira Ovide, The New York Times - Life/Style

07 de maio de 2021 | 05h00

Falemos a respeito do que a bolha das bicicletas no Reino Unido mais de um século atrás tem em comum com as atuais febres em torno de tokens não fungíveis, startups de tecnologia e fabricantes de carros elétricos.

Estamos há mais de 10 anos em uma corrida do ouro por tecnologia que, em alguns aspectos, não faz absolutamente o menor sentido. Se e quando essa loucura passar, as pessoas podem perder fortunas. Coletivamente, porém, manias de tecnologia trazem sim algo de bom. Como minha colega Erin Griffith afirmou: “Mesmo que confusas, as bolhas levam ao progresso”.

Falei recentemente com William Quinn, professor da Queen’s University de Belfast e coautor of Boom and Bust (Expansão e quebra), um livro que conta a história das bolhas financeiras, que inclui a quebra da bolsa de valores de 1929 nos Estados Unidos e a crise financeira de mais de uma década atrás.

O livro identifica três condições fundamentais presentes nos períodos das bolhas: as pessoas conseguem empréstimos baratos ou têm muito dinheiro poupado; negociar ativos fica mais fácil, como o que ocorre neste momento em relação aos aplicativos de corretagem de ações, incluindo o Robinhood; e existe uma impressão de que os preços dos ativos só tendem a subir.

Todas essas condições, conforme escreveu Griffith recentemente em um hilário e útil artigo, estão presentes agora. Isso explica em parte porque estamos vendo repetidos picos em preços de ações “meme”, como do GameStop, a moda dos NFTs e estarrecedoras aberturas de capital, incluindo a que deixou sem fala o diretor executivo do Airbnb.

Mas Quinn também me disse que as bolhas no setor da tecnologia se diferenciam em importantes aspectos em relação a outros ciclos de grande expansão e quebra. Em primeiro lugar, elas não tendem a arruinar o mundo. “Não me preocupo com a possibilidade de os NFTs causarem a próxima crise financeira nem nada do tipo”, afirmou ele.

Ao contrário da bolha do mercado imobiliário, as bolhas de tecnologia não costumam ser infladas por dinheiro emprestado, o que pode desencadear efeitos em cadeia. Com frequência, tecnologias especulativas estão desconectadas do restante da economia. E, afirmou Quinn, quando as bolhas de tecnologia estouram, elas podem deixar um legado positivo. Pensemos na bolha das bicicletas.

A invenção da bicicleta “segura" no fim do século 19 foi uma iluminação, e a estrutura delas se mantém até hoje. Talvez não pensemos em bicicletas enquanto tecnologia, mas elas foram uma inovação significativa para possibilitar um transporte relativamente confiável e barato.

Elas também ocasionaram uma mania de fábricas de bicicletas que abriram o capital, venderam ações a preços altíssimos e depois quebraram. Seu legado, afirmou Quinn, foram pessoas e empresas que, em alguns casos, ajudaram a criar inovações em carros, motocicletas e pneus. Alguns dos pioneiros da indústria das bicicletas ainda estão por aí.

Como na bolha das bicicletas, boas coisas aconteceram em razão da bolha das empresas ponto com no fim dos anos 1990, nos Estados Unidos. Empresas, como a Amazon, sobreviveram e prosperaram. Empresas falidas de telecomunicações deixaram para trás cabos de internet baratos e úteis, que possibilitaram a explosão do ambiente online.

Mais recentemente, uma quebra de criptomoedas ocorrida vários anos atrás deixou mais pessoas curiosas a respeito dos benefícios de promissoras tecnologias por trás delas, como a blockchain.

“A loucura em torno das bolhas pode desviar a atenção”, afirmou Erin. Mas ela acrescentou que “para muita gente envolvida com tecnologia e finanças, uma mania ou um frenesi levam atenção, emoção, entusiasmo e estímulo a coisas novas.”

Não quero ignorar o mal que as quebras no setor da tecnologia causa. Quando bolhas estouram, pessoas perdem o emprego e, em alguns casos, todas as economias. Quinn disse acreditar que agências reguladoras deveriam trabalhar mais para evitar que salafrários enganem as pessoas e se safem com milhões de dólares. Griffith afirmou que se preocupa com a possibilidade de as pessoas que perdem tudo o que têm nas manias de tecnologia ficarem amargadas.

Quinn disse acreditar que as bolhas, que foram relativamente raras entre as décadas de 1920 e 1980, estão ocorrendo com mais frequência atualmente. Dinheiro e informação viajam rápido ao redor do mundo, o que ajuda a alimentar as manias. As bolhas podem ser um elemento da vida moderna — com todos os danos e benefícios que as acompanham. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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