Dado Galdieri / The New York Times
Dado Galdieri / The New York Times

David Miranda e Glenn Greenwald são ameaçados pela extrema direita no Brasil

Intimidações contra parlamentar e jornalista fazem com que eles se mantenham confinados em casa, de onde só saem acompanhados por guardas

Ernesto Londoño, The New York Times

14 de agosto de 2019 | 06h00

RIO DE JANEIRO - Após a contagem dos votos, os correligionários comemoraram a eleição do populista de extrema direita, Jair Bolsonaro, à Presidência do Brasil. Mas David Miranda, vereador socialista da Câmara Municipal do Rio de Janeiro que fez campanha para obter uma cadeira no Congresso, lamentou sua derrota eleitoral. Seu marido, o jornalista americano Glenn Greenwald, também estava desanimado. A era política que despontava era um soco no estômago para o casal.  “Nós somos a antítese de Bolsonaro”, disse Miranda, de 34. “Somos tudo o que eles odeiam”.

Desde então, os dois estão na linha de frente da encarniçada divisão política do País. Em junho, a agência de notícias publicou artigos sugerindo que o principal adversário de Bolsonaro na eleição, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvafoi preso injustamente seis meses antes do pleito, gerando questionamentos sobre a legitimidade de sua vitória e testando as instituições democráticas do Brasil.

Agora, Greenwald e Miranda - que acabou conseguindo uma cadeira no Congresso - vêm sendo atacados por Bolsonaro e seus aliados. Eles enfrentam ameaças de morte e, segundo um site conservador brasileiro, a polícia federal está investigando as finanças de Greenwald. As intimidações fazem com que eles se mantenham confinados em sua casa, de onde só saem acompanhados por guardas. “Isto pode acabar fortalecendo a democracia”, projeta o parlamentar.

Funcionários do governo não confirmaram nem negaram o relatório, mas a sugestão de que Greenwald está sendo visado por publicações no site The Intercept Brasil provocou um estardalhaço a respeito da liberdade de imprensa no País.

Greenwald - um dos dois jornalistas que obtiveram e divulgaram inúmeros documentos secretos do serviço de informações vazados pelo informante da agência de Segurança Nacional  Edward Snowden em 2013 - disse que duvidara  que algum dia poderia conseguir um furo jornalístico mais importante. As revelações de Snowden desencadearam um debate global a respeito dos programas de vigilância e de privacidade do governo.

Política brasileira

No Brasil, as informações publicadas pelo Intercept Brasil, agência fundada também por Greenwald, desafiaram a integridade de uma investigação sobre a corrupção que envolveu algumas das figuras mais poderosas do Brasil, levando várias delas à prisão. Entre elas, Lula, que foi preso e impedido de se candidatar à presidência em uma eleição na qual ele tinha ampla vantagem em relação a Bolsonaro.

O homem que presidiu a investigação, o juiz federal Sérgio Moro, tornou-se um herói popular para os brasileiros cansados da corrupção. Posteriormente nomeado ministro da Justiça por Bolsonaro, Moro tornou-se um dos membros mais conhecidos do seu gabinete, conferindo legitimidade à promessa do presidente de combater o crime e a corrupção.

Mas uma quantidade de conversações particulares entre membros do judiciário envolvidos na investigação sobre corrupção, obtido pelo Intercept Brasil, contém conversas em que Morto aparece cruzando linhas éticas e legais em seu tratamento do caso de Lula. O juiz nega ter cometido qualquer irregularidade.

Os artigos do Intercept Brasil provocaram pedidos de renúncia de Moro, e tornaram Greenwald, de 52 anos, o alvo de fúria e elogios na profunda divisão política do País. O escândalo testa a resistência das instituições democráticas brasileiras sob a liderança de um presidente de extrema direita, disse Greenwald. “Há um grande interrogativo a respeito do tipo de país que o Brasil se tornará”, afirma. “Poderá vir a ser um País com instituições democráticas que funcionam, ou irá se tornar o Estado autoritário repressivo que Bolsonaro deseja e pelo qual anseia?”, questiona.  / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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