Andrew Testa / The New York Times
Andrew Testa / The New York Times

Eleitorado trabalhista encolhe nas cidades inglesas do carvão

Para manter valores 'tradicionais', eleitores defendem o Brexit e decidem optar pelos conservadores

Mark Landler, The New York Times

01 de dezembro de 2019 | 06h00

KIRKBY-IN-ASHFIELD, INGLATERRA — Faz tempo que as casas de tijolo vermelho dessa cidade formam parte da “muralha vermelha” da política britânica, uma suja fortaleza de cidades ligadas à exploração do carvão e às fábricas na região de Midlands e do norte da Inglaterra que costumava votar no Partido Trabalhista.

Assim, quando a candidata trabalhista a uma vaga no parlamento, Natalie Fleet, bateu na primeira dessas portas recentemente e foi recebida por Donna Savage, que explicou a ela que pensava em votar nos conservadores na eleição de 12 de dezembro, isso foi uma amostra do quanto a politica britânica mudou. “Quero tirar o Brexit do papel", disse a professora Donna, de 43 anos, que sempre votou nos trabalhistas, repetindo uma expressão frequentemente usada pelo primeiro-ministro conservador, Boris Johnson

Johnson prometeu tirar a Grã-Bretanha da União Europeia rapidamente. Espera usar essa mensagem para atrair e converter eleitores insatisfeitos no seu distrito, onde 70% do eleitorado escolheu sair da UE em 2016.

Essa frustração - somada ao desgaste do tecido social e à corrosão das oportunidades econômicas no longo prazo - criou uma atmosfera volátil em Ashfield: um sentimento anti-imigração, de suspeita em relação à elite política, receptivo aos apelos populistas da direita.

“É como se o país estivesse virando de ponta-cabeça", afirmou Lee Anderson, de 52 anos, exilado do Partido Trabalhista e ex-mineiro de carvão que se apresenta como candidato do Partido Conservador em Ashfield. “Por mais bizarro que pareça, Boris e Donald Trump estabelecem um elo com o eleitorado da classe trabalhadora. As pessoas gostam de uma linguagem simples.”

De acordo com Anderson, os conservadores representam melhor os valores tradicionais que o eleitorado de Ashfield quer preservar. Sem as minas de carvão e fábricas, disse ele, o Partido Trabalhista perdeu seu “público cativo de idiotas úteis” para suas politicas fora de moda.

Ainda assim, Anderson não sabe responder como Johnson vai reconciliar as políticas que impulsionam sua campanha pelo Brexit com os anseios das Midlands, que sonham com uma volta ao tipo de economia industrial tradicional como a que fez o país crescer nos anos 1960. “Ainda há pessoas que não esquecem — nem querem esquecer — que foram os conservadores que fecharam as minas", destacou Jon Ball, diretor de conteúdo do jornal local, The Mansfield and Ashfield Chad, a respeito das minas de carvão. “Mas há muitos outros que deixaram isso para trás.”

Anderson está em uma disputa acirrada com o candidato independente, Jason Zadrozny, que se apresenta como um pragmático servidor público capaz de implementar suas políticas sem ceder à ortodoxia de nenhum dos grandes partidos. “O público pedia algo diferente, e acho que somos uma ferramenta desse desejo", afirmou Zadrozny. “Estou oferecendo a eles a única coisa que realmente desejam dos conservadores - o Brexit -, mas sem o discurso raivoso de direita dos aristocratas.”

Mas Zadrozny descobriu os limites de se apresentar como antipolítico. A cabeleireira aposentada Theresa Woodland, de 60 anos, disse a ele que apesar de reconhecer o trabalho feito em nome do seu distrito, prefere votar no Partido Trabalhista. “Se votar em você, acho que Boris vencerá", disse ela ao candidato. “Se os trabalhistas forem eleitos, creio que Ashfield será beneficiada.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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