Ian Willms/The New York Times
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Uma boxeadora pode deixar de ir à Olimpíada por conta de sua gravidez pré-pandemia

Os organizadores das Olimpíadas mudaram a forma como os boxeadores das Américas se classificariam para Tóquio por causa da pandemia

Ken Belson / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 05h00

A Olimpíada de Tóquio deveria ser o canto do cisne de Mandy Bujold, o ápice da carreira de uma das melhores boxeadoras amadoras do Canadá. Bujold, peso-mosca de 33 anos, ganhou 11 campeonatos nacionais canadenses, dois títulos nos Jogos Pan-Americanos e uma viagem aos Jogos do Rio de Janeiro em 2016.

A chance de Bujold conquistar uma medalha olímpica antes de se aposentar do boxe agora parece sob ameaça, por conta da pandemia do coronavírus e das regras de qualificação em vigência que efetivamente penalizaram Bujold por ter tido um filho.

Em abril, depois do cancelamento do torneio de qualificação em Buenos Aires para boxeadores das Américas por conta da pandemia, a Força-Tarefa de Boxe do Comitê Olímpico Internacional divulgou que os boxeadores de países da América do Norte e do Sul se classificariam para Tóquio com base nas classificações de três torneios realizados em 2018 e 2019.

Bujold, no entanto, não lutou durante boa parte de 2018 e 2019 por causa da gravidez. Por isso, pediu ao COI que reconhecesse sua classificação anterior à gravidez, quando era a oitava do mundo e a segunda das Américas.

Atletas femininas em outros esportes – principalmente Serena Williams no tênis – lutaram e conquistaram em situações semelhantes. Bujold também estava otimista porque sentia que suas circunstâncias atendiam ao objetivo do COI de promover a igualdade de gênero. Isso até o COI negar o pedido de Bujold, porque, segundo o órgão, abrir uma exceção a ela poderia fazer com que outros atletas pedissem isenções também.

"Um atleta olímpico sabe o que a Olimpíada representa, e é sempre justiça, espírito esportivo e igualdade. Eu tinha um pouco de esperança de que eles estivessem realmente revisando nossas questões legais, de que as abordariam. Então, quando não o fizeram, foi de partir o coração", comentou Bujold, cuja filha agora tem dois anos.

Ela entrou com um recurso no Tribunal Arbitral do Esporte, argumentando que seus direitos humanos foram violados. "Achamos que, ao entrar em contato com o COI em 23 de abril, dado seu compromisso com as mulheres e a igualdade de gênero, eles certamente se ajustariam e agiriam, como muitas organizações esportivas, em conformidade com a Carta Olímpica, e abririam uma exceção para as atletas que estivessem grávidas ou tivessem tido um filho. Para nós, aquilo não tinha sentido algum", argumentou Sylvie Rodrigue, advogada de Bujold, antes de entrar com o pedido de arbitragem.

Com os Jogos de Tóquio se aproximando, Rodrigue pediu uma decisão célere ao tribunal. O caso de Bujold é o mais recente confronto entre organizações desportivas e mulheres que retornam às competições depois da gravidez.

Em 2018, a Associação de Tênis Feminino mudou a forma como sua classificação era usada para definir as chaves do torneio depois que os líderes do esporte foram criticados durante o retorno de Williams, posteriormente ao nascimento de sua filha Olympia.

Em 2019, atletas atuais e ex-atletas patrocinados pela Nike, como Alysia Montaño, Kara Goucher, Phoebe Wright e Allyson Felix, criticaram a empresa por ter reduzido a remuneração por desempenho das mulheres que optaram por engravidar. Em resposta, a empresa descartou as penalidades financeiras. "Há uma oportunidade importante para que a indústria do esporte evolua coletivamente para apoiar melhor as atletas", observou um porta-voz da Nike na época.

O caso de Bujold se equipara a um ciclo olímpico bastante incomum. Alguns atletas perderam os eventos de qualificação porque receberam resultado positivo no teste de coronavírus. Já outros tiveram de correr para garantir uma vaga em Tóquio de outra maneira, depois que torneios de qualificação foram cancelados.

A situação de Bujold levanta questões sobre como o COI trata as mulheres, mas também destaca como os líderes desportivos durante muitas décadas operaram sob o pressuposto de que as mulheres abandonariam os esportes competitivos depois de engravidar.

"Eles achavam que as mulheres se aposentariam depois da gravidez, em parte por causa da questão financeira, mas também porque não entendiam que elas poderiam chegar aos 30 anos. Parece que erraram, mas não vão voltar atrás", disse Victoria Jackson, historiadora de esportes da Universidade Estadual do Arizona.

Se Bujold não conseguir uma vitória com a arbitragem, sua excelente carreira será encerrada de forma prematura. Em 2004, ela começou a lutar boxe enquanto ainda estava no ensino médio. Treinou durante a faculdade e em paralelo se tornou treinadora e juíza certificada.

Bujold parecia estar pronta para lutar nos Jogos de Londres, a primeira Olimpíada a incluir o boxe feminino. Depois de conquistar uma vaga nos Jogos Pan-Americanos, as autoridades do esporte mudaram os padrões e definiram que os boxeadores tinham de conquistar a vaga no campeonato mundial na China. Lá, Bujold perdeu sua primeira luta para uma boxeadora que está no topo do ranking da Coreia do Norte. Em seguida, a única vaga curinga do Canadá foi concedida a outra boxeadora.

Mesmo assim, depois de acumular inúmeros títulos canadenses e internacionais, Bujold se classificou para os Jogos do Rio, nos quais era a favorita para conquistar uma medalha. Antes da partida das quartas de final, porém, Bujold adoeceu e passou a noite em um hospital. No dia seguinte, removeu a alimentação intravenosa e foi à arena lutar. Perdeu para uma das melhores boxeadoras do mundo, Ren Cancan, da China.

No ano seguinte, Bujold voltou ao ringue e venceu seis de suas sete lutas, perdendo apenas para Virginia Fuchs, uma das melhores pesos-mosca do mundo. No fim de 2017, Bujold e seu marido, o bombeiro Reid McIver, decidiram ter um filho. Ela deu à luz uma menina, Kate Olympia, em novembro de 2018.

Em 2019, Bujold retomou os treinamentos, primeiro perdendo o peso que havia ganhado e reconstruindo a musculatura central, que não estava na melhor forma. Ao contrário de alguns esportes, Bujold podia treinar, mas não competir, durante a gravidez. "É possível bater o saco de areia e se manter em pé o máximo que puder. Mas não há nada que realmente prepare você para o condicionamento de ver socos vindo em sua direção e desenvolver os reflexos necessários para ter um desempenho de alto nível."

Em dezembro de 2019, ela voltou ao ringue em Montreal e ganhou uma vaga na equipe canadense que iria para o torneio de qualificação olímpico planejado para Buenos Aires em março de 2020. Uma semana antes de Bujold voar para a Argentina, o torneio foi cancelado à medida que a pandemia ganhava força e gerava cancelamentos generalizados.

Agora, Bujold revelou não ter escolha a não ser lutar contra o peso-pesado conhecido como COI, não apenas para poder encerrar sua carreira no boxe no palco olímpico, mas para que outras mulheres não tenham de passar pela mesma batalha. "É obviamente mais do que só minha vaga olímpica. Trata-se realmente de dar evidência a esse problema. Não sou a primeira atleta que vai voltar depois de ter dado à luz, nem vou ser a última."

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