João Silva/The New York Times
João Silva/The New York Times

Brancos e negros lutam por terra no berço do berço do apartheid

Sul-africanos brancos controlam cerca de 70% das fazendas particulares no país

Selam Gebrekidan e Norimitsu Onishi, The New York Times

17 de março de 2019 | 06h00

STELLENBOSCH, ÁFRICA DO SUL - Certa manhã, ao acordar, Stefan Smit, um fazendeiro branco da fantástica região dos vinhos na África do Sul, encontrou o seu vinhedo sitiado. Smit, 62, pegou a sua picape e foi até o ponto mais alto da propriedade e olhou para baixo. Moradores pobres do bairro negro das proximidades haviam invadido a sua terra e levantado barracos em questão de horas.

“Eu pessoalmente não consigo respirar aqui”, disse Smit mais tarde. Praticamente da noite para o dia, a sua fazenda, com uma ampla vista da região de Stellenbosch, tornou-se o campo de batalha em uma dura briga política que divide a nação: a quem deveria pertencer a terra da África do Sul?

Nesta luta, os sul-africanos brancos, que ainda controlam a maior parte da economia uma geração após o fim do apartheid, enfrentam seus vizinhos negros, muitos dos quais esbarram em todo tipo de dificuldades para conseguir um pedaço de terra onde construir um casebre.

Uma pesquisa do governo constatou que os brancos controlam cerca de 70% das fazendas particulares na África do Sul. E isto não inclui a terra nas mãos de companhias e de trustes, a maior parcela privada de terra. Neste canto da África do Sul, onde os estrangeiros vêm saborear o chenin Blanc e o pinotage, os fazendeiros brancos tentam preservar uma parte do país que consideram um domínio histórico seu.

Smit e seus amigos afrikaner a definem uma invasão como parte de uma iniciativa calculada pelo Congresso Nacional Africano que está no governo para absorver a única província que ainda não controla politicamente. “As pessoas são trazidas para cá” de outras partes do país, “apenas para criar um bloco de votantes”, disse Jan de Klerk, amigo de Smit e filho de F.W. de Klerk, o antigo presidente que negociou o fim do apartheid com Nelson Mandela.

Os invasores afirmam que entraram aqui desesperados. A vida mal mudou para os homens e as mulheres, 25 anos depois de conquistarem a democracia. Eles continuam vivendo em barracos em favelas superlotadas, enquanto Smit e os seus amigos são donos de enormes propriedades de terra tirada dos habitantes africanos, gerações atrás.

Os monopólios vão muito além das propriedades privadas. Cerca de 80% das fazendas em Stellenbosch localizam-se em terras públicas. E a maioria delas está garantida por contratos de arrendamento assinados pelas autoridades locais com fazendeiros brancos no início dos anos 1990, pouco antes do fim do apartheid, em troca de investimentos privados em infraestrutura de água, segundo documentos municipais sigilosos obtidos pelo New York Times.

“Vemos essa terra, nós precisamos tomar essa terra”, disse Zola Ndlasi, 44, que liderou a invasão. Como ele é originário da mesma região de Mandela, todos o chamam pelo mesmo nome do clã, “Madiba”. A poucos meses das eleições, trava-se uma luta irrefreável a respeito de quem é o dono da África do Sul. 

Muitos negros sul-africanos sentem-se traídos pelo fracasso do CNA a conceder o acesso à terra à maioria negra. Um programa do CNA comprou lotes de fazendeiros brancos de boa vontade, mas os políticos acabaram ficando com mais terra do que os cidadãos que supostamente seriam os beneficiários. Ndasi fala imediatamente da corrupção do CNA, mas por outro lado ele recebe orientações de um líder local do CNA, Midas Wanana, 43, que prometeu torná-lo o rosto do CNA nas próximas eleições.

Uma ramificação do partido, os Combatentes pela Liberdade Econômica, aproveita desta raiva estimulando os negros sul-africanos a se apropriarem da terra. Depois de perder parte dos principais apoiadores do seu partido, o presidente Cyril Ramaphosa, o líder do CNA, pressiona por uma mudança da Constituição a fim de permitir a expropriação das terras sem compensações. “Não iremos permitir o açambarcamento de terras na África do Sul”.

Muitos se mostram profundamente céticos diante das suas promessas, lembrando que no Zimbábue, vizinho da África do Sul, muitas fazendas foram tomadas dos proprietários brancos, o que transformou o país em um pária internacional. A lei está do lado de Smit. Um juiz ordenou que os invasores deixassem a fazenda, mas a maioria dos barracos permaneceu de pé enquanto o recurso está sendo julgado. Agora, a prefeitura negocia com Smit a compra do pedaço de terra.

Berço do apartheid

O caso repercutiu muito além de Stellenbosch por causa do significado da cidade no passado, presente e futuro da África do Sul. Muito antes de a região se tornar famosa por suas vinhas, a Stellenbosch University, uma instituição de elite que até recentemente ensinava principalmente em afrikaner, produzia muitos dos principais políticos e pensadores do apartheid - principalmente por isso Stellenbosch muitas vezes é chamada o berço do apartheid.

Muitos executivos de companhias dirigidas por brancos mudaram-se para a cidade nos últimos vinte anos, levando os críticos da desigualdade econômica da nação a dizer jocosamente que os líderes políticos “recebem as ordens de Stellenbosch”. Na região há também um bairro negro chamado Kayamandi, onde a vida é difícil para uma população em rápido crescimento, espremida em uma das áreas mais populosas desta região da África do Sul.

Ao seu lado, há várias vinícolas. Mais gente chega diariamente aqui, em geral da província mais pobre do Cabo Oriental. A migração tornou os negros o maior grupo racial em Stellenbosch, superando os brancos e as pessoas de raça mista, segundo uma pesquisa de 2016.

‘Madiba’ e as Formigas Vermelhas

Ndlasi - ou "Madiba" para os invasores - trabalhou como empregado de companhias brancas, depois começou a organizar os recém-chegados desesperados por uma moradia, e pressionou a prefeitura para construí-las. Em maio do ano passado, ele liderou o primeiro grupo a entrar na fazenda de Smit. Os homens construíram seis barracos.

Smit rapidamente conseguiu uma ordem de despejo e as Formigas Vermelhas - os demolidores assim chamados por causa dos seus uniformes vermelhos - desmantelaram os barracos. Quando os manifestantes irritados enfrentaram as Formigas Vermelhas, Ndlasi foi preso por incitação à violência. “Não estamos lutando contra ele”, ele disse referindo-se a Smit. “Podemos ser amigos, se ele não continuar com essa atitude de branco”.

Um advogado falou aos organizadores a respeito de uma lei local: os invasores não podem ser despejados sem uma ordem de um juiz se morarem nos barracos por mais de dois dias. Portanto, uma noite, em julho do ano passado, Ndlasei conduziu um grupo de homens e mulheres novamente até o alto do morro. Quando as Formigas Vermelhas chegaram, dias mais tarde, eles resistiram.

Lubabalo Mpiliso atirou pedras enquanto as Formigas Vermelhas derrubaram o seu barraco. Irredutível, ele montou um novo barraco dias mais tarde. “Se eu construir uma casa, deixarei este para os meus filhos”, disse Mpiliso, que morava em uma casa do governo de dois quartos com 10 parentes.

A prefeitura de Stellenbosch reconhece a escassez de habitações em Kayamandi. Mas embora disponha de recursos para solucionar o problema, os críticos afirmam que os seus líderes relutam em fazê-lo por medo de perder o controle da prefeitura com a chegada de outros negros que provavelmente não votarão neles. As autoridades desmentiram as acusações como “absolutamente falsas”, retrucando que os invasores tentam passar na frente de uma longa fila de pessoas à espera de uma casa.

Para poder respirar

Gerações de moradores que nunca haviam visto Smit, o descreveram como uma figura todo-poderosa. Na realidade, ele nem se aproximava do bairro porque tinha medo. Recentemente, alguns turistas visitaram sua modesta sala de degustação, escolhendo concorrentes muitas vezes apoiados por investidores estrangeiros. Suas duas filhas estavam ausentes lecionando inglês na Ásia. Ele quer que elas sejam felizes em algum lugar onde “possam respirar”.

Antes do fim da apartheid, Smit se beneficiou do monopólio branco da terra e da mão de obra barata dos negros. E como outros fazendeiros brancos, Smit garantiu mais um pedaço de terra do governo com um contrato de arrendamento por 50 anos. No entanto, Smit não considera a reforma agrária uma solução justa em termos de reparação.

Os grupos étnicos que hoje constituem a maioria na África do Sul não viviam nesta região quando os colonos europeus chegaram, ele disse, embora admita que os europeus expulsaram com violência o grupo nativo chamado Khoi-San. “No caso deles, devemos olhar diretamente na cara deles”, afirmou. “Mas quanto aos outros, é uma questão política”.

No final de agosto, cerca de mil barracos se espalhavam pela terra de Smit. A prefeitura posteriormente instalou duas torneiras de água e limpou o terreno para construir alguns banheiros. Mas se uma ocupação vizinha serviu de indicação, as coisas dificilmente melhorariam. Em 2006, os moradores se mudaram para um vale íngreme. Hoje, é uma favela perigosamente superlotada com alguns banheiros e sem eletricidade.

Durante meses, os novos moradores da fazenda de Smit lutaram para evitar esse mesmo destino, com manifestações e cartazes com os dizeres: “Precisamos de terra, tomamos a terra”. Smit começou a receber mensagens ameaçadoras. “Eles diziam que me queimariam vivo”, falou. Depois de meses de impasse, decidiu vender o terreno.

Uma tarde, Smit abriu uma garrafas de vinho com os seus amigos afrikaner que haviam ido lhe dar o seu apoio, um ar de incerteza pairava na sala. Agora eles eram ainda os donos da terra, mas por quanto tempo ainda? “Vamos aproveitar por enquanto”, afirmou de Klerk. “Como é que meu pai dizia? ‘Apertem os cintos’”. 

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