Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Onde a polícia usa máscaras e os corpos se acumulam rapidamente

A polícia matou uma média de 17 pessoas todos os dias no país no ano passado, e policiais desonestos estão matando ainda mais de folga. "Sou um herói para o meu povo", disse um líder miliciano

Azam Ahmed, The New York Times

29 de dezembro de 2019 | 06h00

BELÉM, Brasil - Os atiradores mascarados chegaram ao Bar da Wanda às 15h49 do dia 19 de maio e começaram a atirar assim que desceram dos carros. Duas pessoas morreram no pátio, incluindo a própria Wanda. Do lado de dentro, os atiradores trabalharam em silêncio: dois na frente, atirando em fregueses desarmados no bar e no salão principal, enquanto o terceiro vinha logo atrás com uma arma em cada mão, atirando na cabeça de quem ainda estivesse se mexendo.

Quando o massacre chegou ao fim, havia 11 pessoas mortas. Apenas duas sobreviveram: uma delas se escondeu sob o corpo de um amigo, de acordo com os documentos do caso. Mais uma vez, atiradores mascarados atacaram na cidade brasileira de Belém, como já fazem há quase uma década, agindo na rua em completo desrespeito à lei. Roubando, extorquindo e matando sem inibição.

Eles não fazem parte de alguma das gangues de traficantes de drogas e armas no Brasil, que deixam atrás de si um rastro de corpos.

Os mascarados são policiais

As mortes chamaram a atenção do país para a atuação das milícias de policiais que há muito afetam Belém, decadente porto do Rio Amazonas. Parte esquadrão da morte, parte empreendimento criminoso, suas fileiras estão repletas de policiais aposentados e de folga, dispostos a matar à vontade.

O massacre no Bar da Wanda não se destaca pelo fato de policiais de folga terem fuzilado civis sem motivo. O diferencial do episódio está na resposta do governo, que decidiu investigar. Dos sete acusados pelo crime, quatro eram policiais de folga - incluindo os três suspeitos de terem feito os disparos.

“Descobrimos um câncer dentro da polícia", disse o procurador Armando Brasil. “Agora, estamos vendo o quando a doença se espalhou.” As milícias operam nas sombras de uma repressão ao crime promovida pelo governo brasileiro, que declarou guerra às gangues e traficantes que afligem o país. As mortes  causadas pela polícia explodiram nos anos mais recentes.

No ano passado, o número oficial de mortos pela polícia foi o mais alto em 5 anos, chegando a 6.220 - média de 17 pessoas por dia, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Este ano, as mortes pela devem ultrapassar essa marca, incentivadas pelo presidente Jair Bolsonaro, para quem os criminosos devem “morrer feito baratas". Os números trouxeram de volta um antigo debate no Brasil. Defensores dos direitos humanos denunciam essa abordagem como ilegal e ineficaz, enquanto seus defensores dizem que esta é a única maneira de enfrentar uma onda de crimes que ameaça o país inteiro.

Mas até os policiais reconhecem que as estatísticas oficiais são apenas parte do quadro. Há uma forma paralela de violência policial, mascarada do público e levada a cabo por milícias ilegais que recrutam seus integrantes entre policiais que não respeitam os procedimentos da lei, de acordo com entrevistas com milicianos em Belém.

“Estamos perseguindo criminosos que feriram inocentes", disse o comandante de uma milícia, que, como os demais, pediu para não ter o nome revelado, pois admite cometer assassinatos. Os milicianos dizem estar prestando m serviço ao público, eliminando ameaças à sociedade. “Matei mais de 80 bandidos na época em que era policial", disse outro líder miliciano. “Sou um herói para o meu povo. Eles me amam.”

Crise de homicídios na região

A América Latina vive uma crise de violência. Há mais assassinatos nos cinco países mais violentos da região do que em todas as principais zonas de guerra do mundo somadas, de acordo com o Instituto Igarapé, que rastreia a violência. A culpa recai nos suspeitos de sempre: cartéis e gangues, abundância de armas (frequentemente trazidas dos Estados Unidos), paralisia do sistema judiciário. Mas a violência do estado é outro fator no derramamento de sangue - impulsionada pela crença segundo a qual esses países devem enfrentar a força com uma força ainda maior para encontrar a paz.

No Brasil, El Salvador, México e outros países, o uso de força letal pelas autoridades - e a aceitação ou mesmo aplauso da população diante dessa abordagem - é tão generalizado que até as estatísticas públicas apontam para uma abundância de execuções extrajudiciais.

Em muitos lugares perigosos, mesmo quando as gangues e o crime organizado estão bem armados, não surpreende que os criminosos morram em maior número do que a polícia ou o exército que combate contra eles, dizem os especialistas. Mas, quando ocorre uma distorção nesses números, com 10 ou mais suspeitos mortos para cada policial ou soldado morto, os pesquisadores enxergam aí indício do uso de força excessiva.

Em El Salvador, onde o governo enfrenta as gangues, a proporção é assustadora - quase 102 para 1 - de acordo com o grupo de pesquisas Monitor da Força Letal. No Brasil, o número também chama a atenção: 57 suspeitos de serem criminosos são mortos para cada policial morto.

“Para nós, os homicídios não são um problema, e sim uma solução", disse o pesquisador Bruno Paes Manso, da Universidade de São Paulo, descrevendo a aceitação da sociedadeo diante das mortes causadas pela polícia. “Acreditamos muito na ideia segundo a qual a violência promove a ordem.”

Alguns milicianos dizem cobrar de empresas por proteção, recebendo somas consideráveis em troca da promessa de manter a paz, ou cobram dos moradores locais pelo direito de exercer alguma atividade comercial. As milícias também extorquem criminosos e matam aqueles que se recusam a pagar.

Atualmente, há em Belém centenas de milicianos ligados a diferentes facções, frequentemente com a ajuda de policiais em serviço de acordo com os próprios policiais e milicianos. E, de acordo com as autoridades, até recentemente, o governo raramente os processava. O governo estadual do Pará afirma que a maioria dos policiais “não se desvia do cumprimento do dever", mas reconhece a existência do problema. As autoridades disseram ter detido cerca de 50 policiais este ano.

Luto de uma mãe

Ao longo de uma semana do mês de novembro, o New York Times acompanhou sete tiroteios com o envolvimento de policiais em Belém, com nove mortes. Em um dos casos, dois homens roubaram um veículo SUV e trocaram tiros com a polícia. Quando o veículo foi parado, um dos homens foi levado sob custódia. De acordo com testemunhas, segundo as quais ele parecia ferido, mas conseguia andar. Uma hora mais tarde, quando deu entrada no hospital, o suspeito estava morto, baleado no coração, de acordo com imagem.

Ramon Silva Oliveira, 18 anos, também foi morto. Ele e um amigo voltavam para casa de uma festa, dividindo uma moto, quando a polícia tentou detê-los, disse a família do jovem. Ramon era jovem, negro e tinha uma grande tatuagem, detalhes que os policiais admitem abertamente levantar suspeitas. Mas sua família disse que ele não era membro de nenhuma gangue. Tinha se alistado no exército e, no momento, procurava trabalho, era habilidoso no futebol; havia medalhas em seu quarto.

Mas, naquela noite, o amigo dele que estava pilotando decidiu não parar. A polícia atirou nos dois, atingindo Ramon e fazendo a moto tombar. Ele morreu quase na hora. “Não sei se foi o tiro ou a queda que o matou", disse a mãe dele, Marlene Silva de Oliveira, enlutada. “Não tive coragem de ver o corpo dele.” A família organizou um enterro para ele ao lado de um terreno onde crianças jogavam futebol.

‘Carta branca para matar’

No caso do Bar da Wanda, as prisões começaram dias após o massacre. Usando imagens de câmeras de segurança, os investigadores encontraram o carro dos atiradores em uma oficina. O proprietário tinha pedido modificações no carro para poder disfarçá-lo. As autoridades prenderam quatro policiais - dois vinham da força de elite Rotam, conhecida pela violência extrema - e três outros suspeitos de envolvimento no crime. Associar os assassinatos à polícia foi simples. Peritos encontraram várias cápsulas calibre .40 na cena do crime, padrão usado apenas pela polícia militar, disse um procurador. Mas um juiz considera as evidências tênues, e a motivação obscura.

O bar está fechado, um mausoléu dos eventos de 19 de maio. Os moradores continuam aterrorizados. Para os milicianos entrevistados para essa reportagem, as mortes no Bar da Wanda são indesculpáveis, mas, em geral, eles defenderam as milícias. Para eles, a violência seria a única solução. “Há uma forma de resolver isso", disse um deles. “O governador deveria convocar apenas os melhores policiais e nos dar carta branca para matar qualquer um. Só os bandidos, os criminosos, aqueles que se aproveitam dos mais fracos.”

“Isso acabaria com a violência de uma vez por todas", disse ele. Em uma semana, na cidade de Belém, foram registrados sete tiroteios envolvendo a polícia, com nove mortos. Enterro de um homem morto por um assassino não identificado e, no alto, mulher no velório de Ramon Silva Oliveira, 18 anos, morto pela polícia. Yan Boechat contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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