Andrew Testa / The New York Times
Andrew Testa / The New York Times

Brexit: o próximo obstáculo é torná-lo uma realidade

A justificativa da saída da Grã-Bretanha da União Europeia será testada, e está levando, inclusive, alguns opositores a se defrontarem com uma indagação: 'E se funcionar?'

Mark Landler, Thw New York Times

05 de fevereiro de 2020 | 06h00

LONDRES – A saída da Grã-Bretanha da União Europeia, no dia 31 de janeiro, provocou uma reação de tristeza em muitas pessoas que há muito viam o Brexit como a condenação do país, outrora a vanguarda da Europa, a um futuro de mediocridade econômica e de irrelevância geopolítica.

Entretanto, são muitos também os que consideram o Brexit um dia de libertação, em que a Grã-Bretanha, livre das amarras da burocracia de Bruxelas, caminhará para um futuro de inovação econômica e política isenta de subterfúgios  –  um “momento de real renovação nacional,” nas palavras do primeiro-ministro Boris Johnson.

A justificativa do Brexit será agora testada, e está levando inclusive alguns opositores a se defrontarem com uma indagação que em grande parte menosprezaram durante três anos e meio de debate: “E se funcionar?”

“Uma mudança total poderá ser benéfica para o país”, afirmou Tony Travers,  professor de política da Escola de Economia de Londres. “Em certo sentido, é o que o Brexit realizou”. Se os defensores da saída puserem as suas ideias para trabalhar, prosseguiu, a política britânica poderá ser revigorada.

Mais difícil de se concretizar será o objetivo econômico do Brexit. Segundo os especialistas, a Grã-Bretanha provavelmente crescerá  lado a lado com o restante da Europa nos próximos anos – uma taxa de crescimento que não é brilhante, mas provavelmente será ligeiramente maior do que a da Alemanha e da França.

Se isto acontecer, e a Grã-Bretanha conseguir estabelecer um relacionamento comercial estável com a União Europeia, os defensores do Brexit poderão reivindicar certa justificativa. O que será ainda mais provável se, como preveem os especialistas, o bloco entrar em um período de instabilidade econômica.

“O que Boris Johnson afirma é que daqui a 10, 15 ou 20 anos a partir de agora, olharemos para trás e perguntaremos: ‘A saída atendeu aos nossos interesses?’", questionou Mujitaba Rahman, diretor da empresa de consultoria de risco político Eurasia Group. “O júri está preparado, mas se deixar isto de lado, haverá razões para pensar que a Grã-Bretanha irá prosperar”.

Os promotores do Brexit falam de uma “Grã-Bretanha global”, inundada por inovações tecnológicas, livre de regulamentações – um agente livre, ágil, pronto a fazer negócios com o mundo. A Grã-Bretanha, afirmaram, assinaria lucrativos negócios comerciais e atrairia investimentos estrangeiros. “Começa com o livre comércio”, explicou Patrick Minford, economista da Cardiff University. “Todo mundo fala da UE como se fosse uma fortaleza do livre comércio, mas não é”, continuou.

PIB

Segundo ele, a Grã-Bretanha poderá registrar um aumento de 8% do seu Produto Interno Bruto nos próximos dez anos, se conseguir derrubar todas as barreiras comerciais, e 4% se conseguir eliminar apenas algumas delas.

A maior parte dos estudos prevê que o Brexit reduzirá a taxa de crescimento da Grã-Bretanha,  privando-a dos ganhos do seu PIB. Povavelmente, os ganhos perdidos serão equivalentes a algo entre 1,2% e 4,5%.

Tendo-se recusado a fazer parte da união monetária, a Grã-Bretanha se sentiu excluída dos principais conselhos da Europa. “Nós optamos por sair de algumas partes, por isso nunca participamos da mesa principal”, afirmou Jonathan Powell, que foi chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro Tony Blair. “Se você vai ser um parceiro pela metade, então não há nenhum sentido nisso”.

Contudo, prosseguiu, a ilha seria incapaz de menosprezar as regras e as regulamentações da mesa. Outros não membros, como Noruega e Suíça, aderem às normas europeias com a condição de poder comerciar com ela. A Irlanda do Norte permanecerá alinhada com as regras e regulamentações europeias.

Johnson ainda não redigiu uma agenda delineando como a Grã-Bretanha planeja explorar a sua independência para obter ganhos econômicos e políticos. Para fazê-lo, ele precisará equilibrar a sua coalizão para o Brexit.

Os eleitores dos Midlands e do Norte da Inglaterra, onde muitos distritos abandonaram o Partido Trabalhista para aderir à promessa de “tornar o Brexit uma realidade”, têm uma visão diferente do que o Brexit significa para os defensores do livre mercado de Londres, que querem refazer a ilha como uma espécie de Cingapura-sobre-o Tâmisa, com poucas regulamentações e impostos baixos.

No entanto, as previsões mais alarmistas – escassez de alimentos, filas de caminhões nos portos – dificilmente se concretizarão. “Não vamos despencar de um rochedo”, afirmou Powell. “Será uma espécie de descida suave. A GB terá de se contentar em ser um pequeno país”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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