Alexander Coggin/The New York Times
Alexander Coggin/The New York Times

Brexit, Irlanda e o futuro da ideia de uma União Europeia

A saída do Reino Unido do bloco eleva as tensões em regiões de fronteira e põe em risco uma das principais conquistas do continente no pós-guerra

Jochen Bittner, The New York Times

13 de abril de 2019 | 06h00

HAMBURGO, ALEMANHA - Estive recentemente nos arredores de Derry, cidade na Irlanda do Norte situada a poucos metros da fronteira onde a Grã-Bretanha termina e a República da Irlanda começa. Atrás do muro de um jardim, um homem magro e mais velho estava ansioso para desabafar.

"Aqui é a Irlanda! Os ingleses não mandam aqui", exclamou ele. Apontou para a estrada na direção de uma pequena ponte de pedra. O posto de controle que ficava ali desapareceu há duas décadas, disse ele. Se os britânicos tentarem erguer outra guarita, prosseguiu , "vamos incendiá-la".

Ora, o que é isso, brinquei com ele, incrédulo. O que vai realmente acontecer se, após a saída britânica da União Europeia, funcionários da alfândega ou policiais forem destacados para o que será uma nova fronteira? "Vamos recebê-los com pedras", respondeu o homem, mais calmo. Deu de ombros, satisfeito com a ideia. "É isso, vamos recebê-los a pedradas".

São cada vez mais numerosos os problemas ligados ao Brexit, mas, especialmente para o restante dos europeus, o dilema na fronteira seca entre Irlanda e Grã-Bretanha é dos mais incompreensíveis, e talvez o mais preocupante, ao menos do ponto de vista simbólico.

A Europa do século 20 foi marcada por uma violência horrenda - com frequentes guerras, e também frequentes períodos de violência política, como o conflito na Irlanda do Norte. O grande projeto pós-guerra de cooperação europeia e unificação foi uma tentativa de, entre outras coisas, fazer da violência uma coisa do passado. 

O Acordo de Belfast, que pôs fim ao conflito, parecia validar tudo aquilo que nós (irlandeses, britânicos, alemães e etc) tínhamos construído. Agora, com a aproximação do Brexit, a volta dos comentários sugerindo a violência na Irlanda nos faz questionar esse progresso e otimismo.

No momento, um retorno do conflito não passa de especulação. Mas, na Irlanda, muitos acreditam nessa possibilidade. "Se forem criadas fronteiras policiadas na Irlanda, certamente teremos episódios de violência, no curto e no longo prazo", disse Richard O'Rawe, que me mostrou a cidade naquele dia.

O'Rawe sabe do que está falando. No auge do conflito, nos anos 1970, ele era integrante do Exército Republicano Irlandês. Foi detido pelos britânicos; na cadeia, atuou como porta-voz de um grupo de detentos ligados ao ativista político Bobby Sands, morto após uma greve de fome em 1981. Depois de solto, O'Rawe escreveu vários livros a respeito do conflito e rompeu com o IRA.

Vinte anos se passaram desde o Acordo de Belfast. Para um alemão em visita à Irlanda do Norte, as semelhanças com meu país, reunificado há 30 anos, vêm à mente. Os recortes sociais se tornaram mais brandos, mas não desapareceram. Uma barreira fortemente protegida que já foi símbolo de uma separação artificial deu lugar a uma união natural.

Mas, diferentemente da Alemanha, o antigo opressor ainda é uma força política na Irlanda do Norte. A Alemanha tem suas diferenças regionais, mas ninguém duvida que somos todos alemães. O mesmo sentimento não se aplica à ilha, onde o ressentimento contra tudo que é visto como inglês segue vivo - e onde poucos acreditam que essa situação melhore após o Brexit.

No referendo de 2016 que decidiu pelo Brexit, a maioria dos irlandeses do norte (55,8%) votaram pela permanência na União Europeia. Isso significa que o país seria arrancado da união contra sua vontade e, principalmente, contra a vontade dos nacionalistas irlandeses. O apoio à independência e à reunificação com a república irlandesa está aumentando.

Em Londres, a primeira-ministra Theresa May prometeu respeitar o acordo de paz e evitar uma fronteira seca policiada na Irlanda. Mas ninguém (nem mesmo ela) conseguiu explicar como controlar uma fronteira separando um país da UE de um país não pertencente ao bloco. O plano de May para o Brexit deixa em aberto a possibilidade de um controle alfandegário na fronteira. Sem planejamento, uma fronteira policiada será quase certamente necessária.

Em janeiro, a poucos quilômetros de onde conheci o morador local irritado, um carro-bomba explodiu no centro de Derry. Por sorte, ninguém ficou ferido, mas a ilha inteira ficou agitada. A polícia atribuiu o atentado a uma facção chamada Novo IRA.

Embora o IRA seja uma sombra do que já foi, alguns suspeitam que o grupo anseia pela criação de uma fronteira policiada e do caos que acompanharia a decisão. Martin McAllister, ex-integrante do IRA que conheci em South Armagh, disse ter abandonado a organização nos anos 1970, quando concluiu que ela tinha se convertido em um empreendimento terrorista e criminoso. Alguns anos atrás, depois de começar a falar contra o banditismo do IRA, ele foi alvo de uma emboscada e espancado.

Passeando de carro por sua região natal, McAllister destacou a presença de um notável número de tanques de gasolina e caminhões de combustível - de acordo com ele, indícios de um cartel de contrabando de gasolina, atividade que nasceu com os conflitos, mas não se encerrou com eles.

"Para o IRA, essa era uma forma de ganhar dinheiro para fazer a guerra", explicou. "Se tivermos uma fronteira policiada, todos esses contrabandistas vão lucrar muito".

Se acreditarmos em McAllister e O'Rawe, a criação de uma fronteira seca vigiada na ilha seria uma verdadeira armadilha. Os habitantes locais vão detestá-la. Os criminosos serão beneficiados por ela. E, no fim, uma geração de novos insurgentes pode se ver envolvida em um conflito de interesses com chefões do crime convertidos em combatentes pela liberdade.

Uma geração inteira de europeus cresceu vendo a Grã-Bretanha como um país que superou suas amargas diferenças regionais e religiosas. Agora, além de dar as costas à Europa, a Grã-Bretanha está dando as costas a um dos maiores feitos da ideia europeia. As ramificações dessa decisão serão sentidas muito além de Derry e South Armagh. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Jochen Bittner é editor de política do semanário Die Zeit. 

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