Jussi Puikkonen para The New York Times
Jussi Puikkonen para The New York Times

Brexit traz oportunidades de negócio para Amsterdã

Como a saída britânica da UE deve afetar negativamente o comércio na região, o vice-prefeito de Amsterdã está seduzindo empresas interessadas em sair da Grã-Bretanha

Peter S. Goodman, The New York Times

23 de fevereiro de 2019 | 06h00

AMSTERDÃ - Se alguém nos Países Baixos está contente com a saída britânica da União Europeia, ninguém o demonstra. O país foi erguido nas costas do comércio, com um imenso volume de mercadorias fluindo de seus portos até o outro lado do Canal da Mancha. O processo do Brexit, como é conhecido o divórcio entre Grã-Bretanha e UE, trouxe contratempos.

Mas, se o Brexit será levado a cabo, a cidade de Amsterdã, cortada por canais, pretende explorar as oportunidades que se apresentarem. O vice-prefeito vem chefiando uma equipe encarregada de contatar as empresas globais que abandonam os britânicos.

"Lamento muito o Brexit, mas estou feliz com o resultado para Amsterdã", disse o vice-prefeito Udo Kock, acrescentando que mais de 30 empresas optaram pela transferência de suas instalações para a capital holandesa. "É uma cidade ótima para se viver. Quem recusaria a proposta de viver em Amsterdã por alguns anos?"

Enquanto a Grã-Bretanha se aproxima de uma tumultuada saída do bloco europeu, as cidades no continente acompanham tudo com uma mistura de medo e oportunismo. Em Amsterdã, Paris e Frankfurt, entre outras, as autoridades buscam atrair empresas que desejam se proteger de uma Grã-Bretanha cada vez mais incerta. Ainda assim, muitas estão se preparando para o caos nos portos como efeito do Brexit.

Comunidades de ambos os lados do Canal já estão enfrentando o enfraquecimento econômico diante da perspectiva de um Brexit sem acordo amistoso, que afasta o investimento. A economia britânica teve crescimento de apenas 1,4% no ano passado - ritmo mais lento desde 2012 - chegando a apresentar contração em dezembro, de acordo com dados divulgados este mês.

Acima de tudo, um sentimento de resignação antes mesmo do início do Brexit parece ter tomado conta, acompanhado por mudanças que devem quase certamente ser permanentes. As empresas transferiram postos de trabalho da Grã-Bretanha para o continente enquanto solicitavam alvarás de funcionamento locais para evitar rupturas em seus negócios.

A Agência Europeia de Medicamentos, que regulamenta produtos farmacêuticos, está nos estágios finais do fechamento de sua sede em Londres, transferida para Amsterdã. Banqueiros e operadores da bolsa transferiram parte de suas operações para fora da ilha. Aconteça o que acontecer, nada disso vai voltar para a Grã-Bretanha.

Amsterdã teve pouca sorte na tentativa de atrair bancos globais, a maioria dos quais escolheu cidades onde já mantinha escritórios, especialmente Frankfurt. Os banqueiros não gostam das leis holandesas que limitam o tamanho das bonificações pagas. Mas a cidade atraiu outras partes da indústria financeira, incluindo os gestores de bens e os negociantes da bolsa de valores.

No mês passado, o banco japonês Norinchukin escolheu Amsterdã como sede da sua filial europeia, caminho seguido por uma plataforma de negociação de ações da Bloomberg, e também a Turquoise, unidade da Bolsa de Valores de Londres.

"Cerca de 100 instituições vieram nos procurar", disse Gerben Everts, membro do conselho executivo da Autoridade dos Países Baixos para os Mercados Financeiros, que regulamenta as firmas de serviços financeiros. Pelo menos 30 tinham enviado solicitações de alvarás de funcionamento nos Países Baixos.

Desde a realização do referendo de junho de 2016 que deu início ao processo do Brexit, os Países Baixos têm acompanhado tudo alarmados. A Grã-Bretanha é seu terceiro maior parceiro comercial, depois da Alemanha e da Bélgica. 

O porto de Roterdã é o maior da Europa. O aeroporto Schiphol, em Amsterdã, é um importante corredor do transporte aéreo de carga, e um ponto de trânsito crucial para a indústria holandesa das flores.  Se alguma parte expressiva desse fluxo for prejudicada, muitas pessoas ficarão mais pobres.

Kock, o vice-prefeito de Amsterdã, é formado em economia e já trabalhou para o Fundo Monetário Internacional. A economia da região metropolitana de Amsterdã movimenta cerca de € 160 bilhões, ou aproximadamente US$ 181 bilhões, por ano, disse ele. É provável que o Brexit resulte na perda de algo como €1 bilhão desse total. "Estamos falando de dois ou três mil empregos", disse ele.

Em busca de uma compensação, a agência de assuntos econômicos da cidade está tentando atrair novos empregos. Conquistar a Agência Europeia de Medicamentos foi importante. Esse órgão regulador emprega 900 pessoas. A organização está construindo uma torre de escritórios que será sua sede no sul de Amsterdã.

Com a transferência de endereço da agência, Kock e sua equipe se concentraram na tentativa de atrair empresas relacionadas à ela, incluindo laboratórios farmacêuticos, escritórios de advocacia e seguradoras que atendem a indústria farmacêutica.

O grupo organiza passeios por Amsterdã, mostrando o melhor que a cidade tem a oferecer: internet rápida, uma força de trabalho criativa, acesso fácil a um aeroporto com mais de 300 conexões diretas a pontos de todo o mundo.

"Adotamos uma abordagem tipicamente holandesa - com modéstia, mas sendo firmes e persuasivos", disse Kock. "Não saímos por Londres feito abutres em busca de empresas, nem convidamos seus representantes para banquetes no palácio real. Oferecemos a elas um café e um biscoito."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.