Erik Carter/The New York Times
Erik Carter/The New York Times
Kate Dwyer, The New

26 de maio de 2021 | 05h00

Brie Larson não estava no Oscar em 25 de abril, embora ela tenha ganhado uma estatueta por sua atuação em O Quarto de Jack, longa-metragem de 2015 sobre mãe e filho que vivem em cativeiro durante cinco anos.

A quarentena, um tipo de cativeiro diferente, revelou alguns outros talentos. Larson pratica mergulho autônomo, colhe cogumelos comestíveis na floresta, cria músicas a partir de comentários do Instagram e faz biscoitos sem receita. Inscreveu-se para escalar montanhas da Cordilheira Teton sem antes procurar uma foto no Google. Está aprendendo francês. E agora também é famosa por seus feitos on-line.

Em julho do ano passado, depois de uma série de gafes de celebridades, o nome de Larson virou tendência no Twitter. Não, ela não havia postado uma mensagem imprudente sobre a pandemia. Ao contrário: tinha aberto um canal no YouTube e postado seu primeiro vídeo: "Assim, tomei uma decisão..." Desde então, acumulou mais de meio milhão de inscritos e usou o canal para divulgar seus muitos interesses em vídeos divertidos e caseiros. Ela vem ganhando de 20 mil a 50 mil inscritos por mês.

Ao contrário de muitos atores, Larson, de 31 anos, não estava no meio de uma produção quando o mundo parou. "Eu já havia decidido tirar uma folga porque sentia que precisava recalibrar", disse. Mas o surgimento da pandemia foi um "momento de crescimento", porque ela ganhou uma nova visão em relação a seus colegas de Hollywood baseada na maneira como discutiam questões de segurança. "O que mais me importa são as pessoas com quem estou fazendo alguma coisa. São mais importantes do que qualquer trabalho artístico", afirmou a atriz.

Por fim, ela acabou abandonando quase todos os projetos que vinha desenvolvendo antes da pandemia. "Adoro que meu trabalho seja como segurar um espelho para a sociedade, e a sociedade mudou, por isso precisei começar de novo".

O único projeto que ela não abandonou foi o canal do YouTube, que tinha sido planejado quase um ano antes. Ele reflete a sociedade de uma forma diferente; daqui a cem anos, alguém poderá assistir a seus vídeos e ter noção da forma mundana como a classe criativa passou o ano em casa. Larson cortou o próprio cabelo! Vestiu tie-dye! Jogou Fortnite! Chegou a investigar um dos grandes mistérios da vida: "Mas será que funciona bem a fritadeira sem óleo?" Larson contou em um vídeo recente: "Meus dias geralmente envolvem ficar olhando uma tela, responder a e-mails e surtar ocasionalmente".

'Podemos fazer artesanato'

Durante a maior parte de sua carreira, Larson, que talvez seja mais famosa por sua interpretação da Capitã Marvel, também conhecida como Carol Danvers, tem sido uma camaleoa. Teve um período como estrela pop, abrindo os shows de Jesse McCartney em 2005. Também é o tipo de pessoa que enche uma mala com materiais de arte para um festival de teatro em Berkshires, e, depois de conhecer uma alma afim, Jessie Ennis, em um ensaio de Nossa Cidade, há uma década, convidou-a a criar "cartões do dia dos namorados". Uma é a melhor amiga da outra desde então.

"Ela disse: 'Ei, quer ir lá em casa? Podemos fazer artesanato!", contou Ennis, fazendo uma ótima imitação da voz de Larson. Quando chegaram, Larson mostrou um arranjo feito de cartolina, cola em bastão e tesoura. "A maioria das pessoas da minha idade só estava tentando desesperadamente parecer legal", comentou Ennis. Em vez disso, Larson exalava sinceridade autoconfiante.

Mas, depois de ter terminado a turnê de imprensa de Capitã Marvel em 2019, cola em bastão e tesoura não serviriam de fuga criativa. "Comecei a sentir que minha autoimagem era opressiva. Há algo muito diferente em ser apresentada ao mundo como uma super-heroína, porque carregar o manto da força sobre-humana de Danvers me pressionava a manter certa imagem."

Esse filme de grande sucesso lhe deu uma visibilidade muito maior do que poderia ter imaginado e, quando começou a falar com seu público, sentiu que precisava passar uma mensagem de antirracismo, inclusão e outras causas com as quais se preocupa. "É tão cansativo passar tanto tempo esmiuçando mentalmente cada detalhe do que você vai dizer. Eu precisava saber que ficaria tudo bem se eu fizesse algo bobo ou simples e que não estragaria tudo, o que soa realmente absurdo quase um ano depois".

Pratos na pia

O videoblogue se tornou uma forma de autocuidado. Larson reserva uma hora toda semana para falar sozinha em um canto pintado da sua garagem, o local mais brilhante da sua casa rústica em Los Angeles. "O resultado pode não ser grande coisa, mas é muito importante para mim".

Embora a maioria de seus vídeos transborde otimismo, ela também já falou de ansiedade social, rosácea (uma crise de urticária a caminho do tapete vermelho) e problemas alimentares ("Provavelmente, tive todo tipo de distúrbio alimentar possível. Por quê? Dismorfia corporal e sensação de controle, acho").

 

Larson não está tentando despertar simpatia sendo vulnerável; em vez disso, quer dissipar o mito de que os atores de Hollywood têm um cotidiano perfeito e elegante. "Já que não estamos juntos fisicamente, a internet é todo o nosso mundo agora", por isso ela acredita que é sua responsabilidade compartilhar sua vida como ela é. "Não sou de grande valor neste momento, porque está tudo uma bagunça. Tem pratos na minha pia agora. Eu teria vergonha de dar uma olhada na minha casa".

Ela não se envolve com os comentários, porque não considera "problema" seu saber o que as pessoas pensam dela. "Eu me fiz essa promessa quando abri minha conta no Instagram. Sou um mistério para mim mesma. Como alguém poderia me conhecer?"

Na mesa de Larson, há um livro didático francês e uma cópia do Tao Te Ching, traduzido por seu amigo Stephen Mitchell. Ela sempre lê de cinco a sete livros ao mesmo tempo, geralmente uma mistura de ficção, poesia e espiritualidade. Certa vez, ela disse a Ennis, que também é atriz: "Você pode passar um ano sem trabalhar, mas pode preenchê-lo com todo esse conhecimento".

Essa curiosidade insaciável levou as amigas a iniciar em março um podcast chamado "Learning Lots" (Aprendendo muitas coisas), em que convidam pessoas como o cineasta montanhista Jimmy Chin e a poeta do Instagram Rupi Kaur para discutir grandes tópicos, como medo, verdade e amizade.

Embora as amigas se comparem aos emojis de irmãs de braços dados, passaram a maior parte de 2020 separadas; Ennis comentou que assistir aos vlogs de Larson a ajudou a se sentir conectada: "Fiquei surpresa ao saber que ela não usa copo medidor quando prepara receitas".

Larson planeja canalizar sua experiência culinária no YouTube para seu próximo papel, uma cientista que apresenta um programa de culinária dos anos 1960, na próxima série da Apple, Lessons in Chemistry (Lições de química), da qual também será produtora executiva. "Eu me coloco em situações em que estou imersa no assunto e vejo o que acontece", disse em relação ao que sua personagem, Elizabeth Zott, pode estar sentindo. Ela, porém, não tem planos de parar de fazer vlogs. "A parte mais gratificante é que não tem sido uma grande coisa."

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