Alexey Yurenev para The New York Times
Alexey Yurenev para The New York Times

Brighton Beach: um pedaço da Rússia nos EUA

Exótico, local é lar de uma população de exilados soviéticos e tem idioma e costumes próprios

Yelena Akhtiorskaya, The New York Times

11 Janeiro 2019 | 06h00

Em geral, os nova-iorquinos descobrem Brighton Beach por acaso. Partem com destino a Coney Island, mas 

algum imprevisto com o trem ou a própria animação ao ver as ondas do oceano faz com que desembarquem na estação errada, confrontados com esta rabugenta vizinha. Se chegam a Coney Island, às vezes caminham longe demais pela praia até chegar onde o mar vira vodca e os jornais são no alfabeto cirílico. Independentemente de como chegam ali, todos parecem perdidos em meio à neblina, e não se pode culpá-los por isso: em Brighton Beach, as perguntas são mal recebidas antes de serem ignoradas.

Mas ninguém vem a Brighton Beach em busca de clareza. Uma dose do exotismo local é o melhor que podem esperar. E, depois de caminhar pelo calçadão, admirando-se com os idosos vestidos a caráter - senhoras com casacos de pele e cabelo violeta e senhores de agasalho esportivo jogando gamão como se suas vidas dependessem do resultado do jogo, o que provavelmente era verdade nas prisões siberianas -, após devorar o piroshki quente (pães, assados no forno ou cozidos, recheados com carne, vegetais, ou outros ingredientes), bronzeando-se ao lado dos mestres do bronzeamento que transformaram esse passatempo numa arte, e enfrentando as senhoras mal-humoradas que distribuem as delícias oferecidas pela região, os visitantes vão suspirar satisfeitos, como depois de uma batalha vencida.

Brighton Beach, uma parte do Brooklyn voltada para o Atlântico, é como um universo em si, com seu próprio tempo, seu próprio idioma e seus próprios costumes, dos quais se orgulha muito. Era uma vez, não faz tanto tempo, há pouco mais de um século, uma época em que Brighton Beach era o destino mais procurado pelos nova-iorquinos endinheirados, com um imenso resort de luxo, uma pista de corrida, pavilhão balneário, um teatro vaudeville e um salão de música. Coney Island, conhecida na época como West Brighton, não passava de uma irritante distração.

Todo esse glamour ficou no passado, e o estado atual de Brighton Beach teve origem em 1979, quando a primeira leva de judeus russos chegou atravessando um buraco na Cortina de Ferro. O vazamento foi contido por algum tempo e, em seguida, aberto mais deliberadamente por Mikhail Gorbachev no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Foi nessa época que minha família veio. Éramos parte da diáspora de Odessa, incapazes de resistir ao poder de atração da água, que nos lembra o amado Mar Negro de nossa casa.

O mar já estava no Brooklyn e, assim, a etapa seguinte foi encher as ruas com produtos agrícolas. Ex-cidadãos soviéticos não confiam em informações nem em desconhecidos: confiam nos pepinos. E, se quiser conhece a alma do lugar, comece a comparar frutas e legumes ao longo da Avenida Brighton Beach. Se caprichar na pesquisa, ficará claro quem é o melhor fornecedor, mas ninguém vai concordar com você e tudo será reduzido a um embate de forças de vontade, no qual você será derrotado. Se precisar de algum conforto, lembre que independentemente do quanto os legumes de Brighton Beach forem mais baratos e mais saborosos que aqueles de outras partes da cidade, eles não passam de uma sombra dos sabores da Pátria-mãe, onde tudo era ao mesmo tempo exponencialmente pior e muito melhor a ponto de a vida ser hoje dedicada à preservação da sua memória.

Os legumes têm também a responsabilidade de unir, ainda que brevemente, todos os ex-cidadãos soviéticos da área metropolitana, cuja maioria não mora em Brighton Beach, considerada uma pocilga atrasada onde moram aqueles que encalharam e não conseguiram melhorar de vida. Mas não há arrogância capaz de afastá-los de um bom negócio e, assim, imigrantes russos de toda a cidade, vindos não apenas da anárquica Odessa mas também da sofisticada São Petersburgo e a cosmopolita Moscou, são atraídos para as compras sob o elevado onde passa o trem, embora fujam dali tão logo obtêm as iguarias que vieram comprar.

Agora são os centro-asiáticos que chegam em grandes números, redescobrindo uns aos outros, moldando o bairro de acordo com suas fantasias. Uma próspera comunidade de georgianos dá outra dimensão à paisagem gastronômica. Ainda que a comida russa e ucraniana seja deliciosa à sua moda utilitária, ela carece dos nuances aromáticos dos pratos georgianos. Ainda que a ampliação do multiculturalismo soviético seja bem-vinda, a realidade é uma corrente quase interminável de russos velhos, orgulhosos e rabugentos. As ambulâncias travam as ruas. Rostos conhecidos desaparecem com regularidade. Aquele sujeito miúdo, que andava com uma bengala, cego de um olho, que passeava o cachorrinho… Onde está agora? Foi enterrado há cinco meses.

Mas cada um desses idosos é uma cápsula do tempo. Sobreviveram ao Stalinismo; testemunharam todo o arco do experimento social que foi o comunismo no Leste Europeu. Brighton Beach é, foi e talvez sempre será um refúgio para os desabrigados espirituais, que, embora tenham alcançado certo grau de segurança, estarão eternamente em alerta à espera do próximo grande perigo. Toda essa vigilância cultivou um prazer autêntico no simples ato de observar. Torsos nus se inclinam nas janelas de Brighton Beach, acompanhando o movimento nas ruas como falcões. Talvez esse seja o único lugar onde se sentem à vontade, nem dentro nem fora de casa.

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