James Beck para The New York Times
James Beck para The New York Times

Britânicos estocam suprimentos com aproximação da saída da UE

‘As pessoas falam em racionamento como se fosse a 2ª Guerra Mundial’

Stephen Castle, The New York Times

01 Novembro 2018 | 06h00

REDRUTH, INGLATERRA - Os armários da casa dela estão repletos de macarrão e arroz, em quantidade suficiente para alimentar uma família de cinco pessoas por semanas. Os remédios são guardados em caixotes e, no jardim da sua casa de quatro quartos há uma caixa d’água de 1.100 litros.

Nevine Mann não está se preparando para uma guerra nuclear, uma enchente ou uma guerra civil nesta região da Cornuália, no sudoeste da Inglaterra. Não, o fantasma que a mantém nesse estado de tensão é a saída britânica da União Europeia, apelidada de Brexit.

Nevine, 36 anos, se juntou ao grupo daqueles que estão se preparando para um Brexit caótico a partir de março, quando a Grã-Bretanha deve sair da União Europeia, e sua resposta é estocar suprimentos.

Durante mais de 18 meses, a Grã-Bretanha vem tentando negociar um acordo com a UE, sem o qual o país pode enfrentar um congestionamento nos portos, com caminhões presos nas estradas com sua carga perecível, prateleiras vazias, escassez de eletricidade e o fechamento de fábricas. A Grã-Bretanha importa cerca de um terço do seu alimento da UE, e as empresas dependem de complexas cadeias de fornecimento que podem entrar em colapso se forem impostas verificações alfandegárias aos milhares de caminhões que cruzam o Canal da Mancha todos os dias.

“As pessoas falam em racionamento como se fosse a 2ª Guerra Mundial", disse Nevine. “Também ouço falarem dos blecautes dos anos 1970, e do racionamento de energia. Essa situação tem o potencial de se tornar uma combinação das duas coisas".

O governo da primeira-ministra Theresa May faz pouco caso de tais comentários alarmistas, mas os ministros do seu próprio gabinete publicaram planos de contingência para uma saída sem acordo a partir de 29 de março, e, pela primeira vez desde o fim do racionamento, nos anos 1950, a Grã-Bretanha tem um ministro responsável pelo fornecimento de alimentos.

Entre os conselhos que circulam há um panfleto chamado “Getting Ready Together” [Cuidando juntos dos preparativos], que descreve riscos como redução no fornecimento de combustível, falta de alimento e remédios, e um frenesi de compras que pode levar ao racionamento.

“Há muitas coisas que não podemos mudar, mas podemos estar preparados para o pior desfecho possível, e ninguém nunca morreu por excesso de preparo", disse o autor do panfleto, James Patrick, consultor de segurança e ex-policial.

Patrick, que vive na região inglesa de East Midlands, diz que a população não precisa estocar uma grande quantidade de alimentos, e sua família tem reservas suficientes para cerca de uma semana.

Patrick mantém um podcast, “The Fall", que pinta um quadro distópico para o futuro, imaginando uma instabilidade civil que pode começar no primeiro dia de um Brexit caótico “e aumentar exponencialmente a partir daí” - uma previsão que ele não considera alarmista.

Para alguns defensores do Brexit, as pessoas concentradas nesses preparativos são alarmistas que desejam assustar a população para que a ideia toda seja repensada.

Quando o artista Howard Hardiman, que vive numa remota ilha escocesa, escreveu no Twitter que estava acumulando compras porque vive perto do extremo da cadeia de fornecimento, ele foi criticado na internet pelos defensores da saída britânica da UE.

O governo afirmou repetidas vezes que não há necessidade de alarme, e a expectativa é chegar em breve a um acordo com a UE. Este acordo pode instituir um período de imobilidade inicial e transitória, durante o qual poucos britânicos sentiriam grandes diferenças antes de dezembro de 2020.

O governo pediu às empresas farmacêuticas que estoquem um suprimento de medicamentos para seis semanas, mas ainda não se sabe ao certo o que aconteceria depois desse período.

Nevine reconhece que a ideia de estocar compras em casa parece “surreal", mas não se incomoda com aqueles que a acusam de exagero e paranoia. “Vamos usar tudo que compramos", disse ela, “e, se não usarmos, outras pessoas poderão aproveitá-las em bancos de alimentos".

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