George Etheredge / The New York Times
George Etheredge / The New York Times

A Broadway pode estar fechada, mas seus edifícios continuam brilhando

Os edifícios falam - e falam historicamente, pessoalmente, profundamente, cada um à sua maneira

Michael Kimmelman, The New York Times

01 de abril de 2020 | 06h00

Semanas atrás, quando os nova-iorquinos estavam começando a se fechar em casa, convidei algumas pessoas para passear por lugares significativos para elas.

O objetivo? Uma chance de descrever como os edifícios falam - e falam historicamente, pessoalmente, profundamente, cada um à sua maneira.

O arquiteto David Rockwell quis ver aos teatros da Broadway hibernando. Vencedor de um Tony, um Emmy e um James Beard Award, ele fundou o Rockwell Group, com sede em Nova York, que projetou mais de 70 produções dentro e fora da Broadway, além de dezenas de hotéis, restaurantes e outras instituições em todo o mundo. Nossa conversa foi editada e simplificada.

Michael Kimmelman: Os teatros estão fechados. O que você tem em mente?

David Rockwell: Fiquei pensando no fato de a gente não poder entrar. Pelo lado de fora, uma das coisas que mais diferencia um teatro da Broadway de qualquer outro é a entrada. As entradas são importantes em toda a arquitetura, claro, mas na Broadway muitas coisas se põem em movimento, com muito drama.

Um bom exemplo é o New Amsterdam, construído em 1903. Foi projetado por Herts & Tallant, seu primeiro grande sucesso.

É uma versão extraordinariamente barroca do Art Nouveau, com toda essa linda terracota envidraçada e três galerias que fundem as paredes com o teto e o palco, feito uma pele esticada, para que tudo canalize a atenção da plateia para os artistas.

Você tem que imaginar a cena inteira. Aqui fora, o teatro está escondido atrás do que parece ser um edifício de escritórios da virada do século, elegante e todo decorado. Lá dentro, os camarotes ornamentados se expandem e envolvem as paredes que sustentam a cúpula, ligando tudo ao proscênio, com os detalhes mais frenéticos ao redor dos camarotes e mais simples ao redor do proscênio.

Então, a arquitetura convida as pessoas a visitar o prédio e concentra a atenção de todos no palco. Ela encerra um drama particular, que começa na rua.

Aqui temos um ótimo exemplo disso.

* Agora, fomos até a 44th Street e seguimos rumo leste, em direção a Belasco, passando pelo Hudson Theatre.

O Hudson é de 1903. Quando foi inaugurado, todos diziam que tinha um saguão imenso. Este era o seu cartão de visita. O Belasco, mais adiante no mesmo quarteirão, parece uma versão cartunesca do estilo arquitetônico Colonial Revival.

* OK, agora voltamos para o oeste, no coração da Broadway, na Shubert Alley, que destaca os teatros Shubert e Booth.

Os dois teatros foram concebidos juntos. Usam um maravilhoso tipo de rústico veneziano emoldurando detalhes profundamente esculpidos, feitos com camadas de cimento colorido chamadas sgraffito. Fantástico.

Nesse mesmo quarteirão, gostaria de destacar o Majestic e o St. James, duas das maiores e mais lendárias casas musicais da Broadway, porque adoro a decoração de ferro fundido nas fachadas. Um teatro é uma superfície retesada que contém uma caixa fechada. Então nem sempre tem coisas para decorar no exterior. Nesses casos, os compartimentos para manutenção e saídas de incêndio se tornaram oportunidades para esses incríveis floreios.

- Uma última parada?

Gostaria de terminar o tour no Studio 54. Ele diz muito sobre a Broadway, a arquitetura e a cidade. O edifício foi projetado em 1927 por Eugene De Rosa. Fez parte de uma onda de teatros construídos na Broadway, veja só, durante a década que se seguiu à epidemia da gripe de 1918. Abriu como uma casa de ópera. Os teatros são muito resilientes. Podem ter muitas vidas. Quando o Studio 54 era uma casa noturna, nos anos 80, projetei um sushi bar na galeria. Depois virou sede da companhia Roundabout Theatre e com eles eu pude fazer o espetáculo She Loves Me.

A cenografia ensina aos arquitetos que nada é permanente. A permanência às vezes pode ser um pouco restritiva. O teatro não é permanente. Existe enquanto existe uma plateia. 

- É como a cidade

É aí que ganha vida. Assim como a cidade. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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