Andrea Mohin / The New York Times
Andrea Mohin / The New York Times

Neto de soldado britânico se engaja para devolver obras de arte da África

Os Bronzes de Benin, alguns dos maiores tesouros da África, foram saqueados em 1897. Após um encontro casual, dois homens assumiram a missão de devolvê-los

Alex Marshall, The New York Times

15 de março de 2020 | 06h00

Em 2004, Steve Dunstone e Timothy Awoyemi estavam viajando pelo rio Níger. Ambos policiais da Grã-Bretanha, eles estavam participando de uma viagem pela Nigéria, organizada pela Sociedade de Expedição Policial, e haviam acabado de chegar à cidade de Agenebode. Uma multidão veio recebê-los. Houve até uma apresentação de dança.

No meio da multidão, Awoyemi, de 52 anos, nascido na Grã-Bretanha e criado na Nigéria, notou dois homens segurando cartazes que pareciam ter dizeres políticos. No momento em que o barco estava prestes partir, um deles avançou em direção ao policial. O homem estendeu o braço sobre a água, entregou um bilhete a Dunstone e depois saiu correndo. Naquela noite, Dunstone tirou o bilhete do bolso. As palavras diziam: “Por favor, ajude a devolver os Bronzes do Benin”.

Ele não sabia o que isso significava. Mas o bilhete deu início a uma missão de 10 anos que levaria Dunstone e Awoyemi da Nigéria à Grã-Bretanha e de volta à Nigéria, envolveria o neto de um dos soldados britânicos responsáveis pela pilhagem das obras e colocaria a dupla no centro de um debate sobre como consertar os erros do passado colonial.

Ao final dessa jornada, Dunstone e Awoyemi teriam feito mais para devolver à Nigéria obras de arte pilhadas – dois pequenos artefatos – do que alguns dos principais museus do mundo, onde o debate sobre o direito de retorno continua. Os Bronzes do Benin não são do país Benin; eles vêm do antigo Reino do Benin, região agora no sul da Nigéria.

As obras também não são feitas de bronze. Entre os vários artefatos que chamamos de Bronzes do Benin estão presas de elefante esculpidas, estátuas de leopardo em marfim e até cabeças de madeira. Os itens mais famosos são 900 placas de latão, datadas principalmente dos séculos 16 e 17, que ficavam pregadas em pilares no palácio real do Benin.

Existem pelo menos três mil itens espalhados pelo mundo, talvez milhares mais. Você pode encontrar Bronzes do Benin em muitos dos grandes museus do Ocidente, como o Museu Britânico, em Londres, e o Metropolitan Museum of Art, em Nova York. As peças também se encontram em museus menores. As famílias Lehman, Rockefeller, Ford e Rothschild possuíam algumas delas. Pablo Picasso também.

Sua importância foi apreciada na Europa desde o momento em que foram vistas pela primeira vez, na década de 1890. À época, os curadores do Museu Britânico os compararam ao melhor da escultura italiana e grega. Hoje, os artefatos ainda deixam as pessoas maravilhadas. Neil MacGregor, ex-diretor do Museu Britânico, os chamou de “grandes obras de arte” e “triunfos da fundição de metais”.

No entanto, há um lugar onde é muito difícil encontrar artefatos originais: a Cidade de Benin, onde foram feitos. Mas isso pode mudar. A família real do Benin e os governos locais e nacionais da Nigéria planejam abrir um museu na Cidade de Benin em 2023, com pelo menos 300 Bronzes do Benin.

Essas peças virão principalmente das coleções de dez grandes museus europeus, como o Humboldt Forum, em Berlim, o Weltmuseum, em Viena, e o Museu Britânico. Inicialmente, serão emprestadas por três anos, com possibilidade de renovação. Ou, quando estes empréstimos acabarem, outros Bronzes do Benin poderão substituí-las. O museu pode se tornar uma exibição rotativa da arte do reino.

Essa iniciativa extremamente complexa – organizada por intermédio do Grupo de Diálogo do Benin, que foi convocado pela primeira vez em 2010 – está sendo comemorada como uma chance para os nigerianos verem parte de sua herança cultural. “Quero que as pessoas possam entender seu passado e ver quem éramos”, disse Godwin Obaseki, governador do estado de Edo, onde fica a Cidade de Benin, e figura-chave do projeto.

Mas o plano – um novo museu repleto de empréstimos – é mais uma solução prática ou um retorno em larga escala, algo há tempos reivindicado por muitos nigerianos e por alguns ativistas? Isso provavelmente depende do que você pensa sobre a maneira como os Bronzes do Benin foram obtidos.

Em 2 de janeiro de 1897, o oficial britânico James Phillips partiu da costa da Nigéria para visitar o oba, ou governante, do Reino do Benin. Supõe-se que seu intuito era convencer o oba a parar de interromper o comércio britânico. (Ele havia escrito aos administradores coloniais, pedindo permissão para derrubar o oba, mas fora dissuadido).

Disseram a Phillips que o oba não podia vê-lo, porque estava acontecendo um festival religioso, mas ele foi assim mesmo. E não voltou. Em um mês, a Grã-Bretanha enviou 1.200 soldados para se vingar do assassinato de Phillips e da maior parte de seu destacamento.

Em 18 de fevereiro, o exército britânico tomou a Cidade de Benin em um ataque violento. As forças britânicas saquearam os artefatos da cidade. Um soldado britânico estava “perambulando com um cinzel e um martelo, derrubando figuras de bronze e pilhando todo tipo de coisa”, escreveu o capitão Herbert Sutherland Walker em seu diário.

Em poucos meses, grande parte do butim estava na Inglaterra. Os artefatos foram entregues a museus, vendidos em leilão ou guardados nas prateleiras dos soldados. Quatro itens – entre eles dois leopardos de marfim - foram entregues à rainha Vitória. Tempos depois, muitos artefatos acabaram em outro lugar.

A Cidade de Benin pede a devolução de seus artefatos há décadas. Algumas instituições devolveram à Nigéria peças roubadas no ataque. Na década de 1950, o Museu Britânico vendeu várias placas à Nigéria, para um museu planejado em Lagos, e outras no mercado aberto. Mas isso não configurava os retornos gratuitos e em larga escala que as pessoas pedem até hoje.

A pressão por esse tipo de retorno aumentou. Em 2016, estudantes do Jesus College, pertencente à Universidade de Cambridge, fizeram campanha para remover uma estátua de galo de um salão. Em novembro passado, a faculdade anunciou que a obra deve ser devolvida. (Ainda não foi dito quando ou como). Mas nada voltou à Nigéria nas últimas décadas, exceto dois pequenos itens. E isso só ocorreu, pelo menos em parte, graças a Awoyemi e Dunstone. Quando Dunstone voltou da Nigéria para a Inglaterra, ele não conseguia esquecer aquele bilhete.

“Nós realmente roubamos coisas deles”, disse Dunstone. “Não estávamos em guerra, nós simplesmente aparecemos e arrancamos as obras das paredes”. Em 2006, Dunstone criou uma página na web sobre os Bronzes do Benin, com a ajuda de Awoyemi. Ele adicionou uma nota pedindo que qualquer pessoa com informações entrasse em contato. Ninguém respondeu.

Mas, certo dia, em 2013, chegou o email de um médico do País de Gales chamado Mark Walker. Ele disse que possuía dois itens saqueados: um pequeno pássaro e um sino; ele queria devolvê-los. O avô de Walker era o capitão Walker, aquele que descreveu os saques em seu diário. Já usamos os artefatos até como peso de porta, disse Walker. Eles ficariam bem melhor na Nigéria, disse.

Walker não queria ir à Nigéria, por medo de ser processado. Mas Awoyemi e Dunstone o convenceram de que o gesto poderia persuadir outras pessoas a devolver mais itens. Em junho de 2014, Walker, Dunstone e Awoyemi foram à Cidade de Benin para devolver os artefatos ao oba. A cerimônia no palácio do oba foi tão impressionante quanto as boas-vindas na margem do rio, quando começou toda a jornada, disse Dunstone.

As autoridades nigerianas minimizaram a necessidade de os itens serem devolvidos permanentemente. Obaseki, o governador, disse que a Nigéria quer que as obras estejam em exibição em todo o mundo, não apenas na Cidade de Benin. Alguns museus parecem dispostos a devolver os objetos.

Mas, até que o museu da Cidade de Benin seja construído, nada poderá ser devolvido permanentemente, a menos que seja feito por indivíduos. Ninguém sabe quantos itens saqueados estão em mãos particulares, mas esses itens costumavam ir a leilão com alguma regularidade. (O preço recorde, estabelecido em 2016, ultrapassa os US$ 4 milhões).

Há alguns meses, Walker estava vendo online os Bronzes do Benin pertencentes ao Museu Horniman de Londres e se deparou com um remo de madeira esculpido. Era quase idêntico aos dois que ele tinha em casa, os quais ele achava que seus pais haviam comprado nas férias. Ele concluiu que seu avô também tinha saqueado a Cidade de Benin.

Em dezembro, ele emprestou os remos ao Museu Pitt Rivers, em Oxford – membro do Grupo de Diálogo do Benin – sob uma condição: eles teriam de ser devolvidos à Cidade de Benin dentro de três anos. Walker não estava devolvendo os itens por fama e glória, disse: os objetos tinham de retornar à África. É a coisa certa a se fazer. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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