Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Astro de TV que foi líder de gangue ajuda a combater o bullying na Alemanha

Carsten Stahl: 'O bullying não tem graça. O bullying mata pessoas'

Melissa Eddy, The New York Times

20 de outubro de 2019 | 06h00

BERLIM - Não foi a fama de herói de série de TV que fez com que Carsten Stahl conseguisse que o silêncio tomasse o ginásio repleto de alunos tagarelas do ensino fundamental. Foi sua história profundamente emocionante.

Stahl começou sua palestra estimulando os estudantes a gritar os palavrões com que xingam uns aos outros quando estão brincando. A cada insulto, a cada ofensa, as crianças de 4.º a 6.º anos caíam na gargalhada.

Então Stahl - 46 anos, dois filhos, e ex-líder de gangue de rua - contou para as crianças a história de um garoto de 10 anos que, por meses, aguentou insultos que foram aumentando, viraram ameaças e, finalmente, surras, por parte de um grupo de valentões que urinaram nele depois de jogá-lo num poço de três metros de profundidade, enquanto ele engasgava no próprio sangue, querendo somente estar morto.

Enquanto Stahl falava, um menino cobriu o rosto com as mãos e uma menina tentava segurar o choro. Então, Stahl, que já contou essa história a cerca de 50 mil estudantes em toda a Alemanha, chegou ao clímax da narrativa. “O menino de 10 anos era eu!”, gritou ele.

“Não ouço ninguém rindo agora”, disse Stahl aos alunos da Escola Elbtal de Ensino Fundamental, em Bad Wilsnack, 145 quilômetros a noroeste de Berlim. “O bullying não tem graça. O bullying mata pessoas.”

Uma a cada três crianças alemãs é vítima de intimidação, seja verbal ou física, ou como isolamento por parte dos colegas, de acordo com a Fundação Bertelsmann.

Stahl percebeu a gravidade do problema quando seu filho voltou do segundo dia de aula com os lábios e o nariz sangrando - e ofendeu a irmã mais nova com palavras que nunca tinha usado antes.

Stahl estava estrelando uma série no horário nobre, Detetive Particular em Ação, na qual ele fazia o papel de herói, passando a ser reconhecido por isso.

Ele decidiu usar o sucesso para aprofundar seu papel no sentido de advogar por explicações mais aprofundadas a respeito de como evitar que os jovens se voltem para o crime, em vez da simples captura de criminosos.

“Mas, na época, eu não estava pensando em bullying”, afirmou ele. “Eu tinha reprimido essa memória, como muita gente faz.”

Stahl passou 18 anos em uma gangue de rua de Berlim. Como o garoto rechonchudo, ruivo e sardento que foi, ele sofreu a humilhação de ser intimidado. E foi também naquele tempo que ele mesmo virou um valentão, enquanto crescia e ficava mais forte, entre campos de futebol e ringues de boxe.

Ter se dado conta de que conseguia derrubar qualquer um com os punhos primeiramente o fizeram ser temido, depois, respeitado. Como líder de gangue, ele ganhou mais dinheiro do que conseguia gastar em relógios de ouro e carros de luxo.

“Mas daí cometi um erro”, afirmou ele. “Me apaixonei.” A namorada dele estava grávida de quatro meses quando foi atacada por membros de uma gangue rival. Ela sobreviveu, mas o bebê na barriga dela e o relacionamento do casal, não.

Aos 24 anos, Stahl caiu nas drogas e voltou para a vida nas ruas. Isso acabou em 2008, quando sua namorada seguinte deu à luz ao seu primeiro filho, afirmou ele. Determinado a proteger sua família, ele saiu da gangue, vendeu seus carros e relógios e foi trabalhar como guarda-costas. Três anos depois, um amigo que tinha lhe conseguido uma pequena participação em um programa de TV sugeriu que ele participasse dos testes de elenco para estrelar uma nova série de detetives.

“Então, a maioria de vocês me conhece da TV”, disse ele ao grupo em Bad Wilsnack. “Mas isso não faz de mim melhor do que nenhum de vocês. Todo mundo, não importando de onde vem nem sua aparência, merece ser tratado com respeito.”

Seis anos depois de ter iniciado sua campanha e ter percorrido centenas de escolas, Stahl escreveu um livro e passou a produzir vídeos para o YouTube, que tiveram mais de 600 mil visualizações. “Parte do sucesso dele se deve ao fato de que, quando ele aparece, os valentões pensam que ele ficará do lado deles. Aí ele conta a história de ter sido ele mesmo vítima de bullying”, afirmou Katrin Lange, uma vice-ministra do Estado de Brandemburgo.

Sabine Zander, diretora da Escola Elbtal, recebeu um cartaz com as assinaturas de todos os alunos do colégio em torno da promessa de que tratarão uns aos outros com respeito e tolerância. Ela planeja pendurá-lo na entrada da escola, para que as crianças se recordem do que aprenderam com Stahl. Ela diz que não tem ilusões de que uma palestra possa impedir um problema que, segundo ela, tem piorado com o passar dos anos. “Isso não acontecerá da noite para o dia, mas ter alguém assim ajuda”, diz Sabine. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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