Sanjeev Gupta/EPA, via Shutterstock
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Não encontra a felicidade? Contente-se com a alegria

O 'processo predatório' de busca da felicidade faz com que muitas pessoas não encontrem alegria nas coisas mais comuns da rotina

Robb Todd, The New York Times

23 de novembro de 2019 | 06h00

 Algumas pessoas estão desistindo da felicidade. No entanto, voltam a sua atenção para a alegria em uma clara guinada semântica. “É certo desejar a felicidade; é o processo predatório de caçá-la que faz com que o que aparentemente queremos fique fora do alcance”, afirma Jonathan Rowson, grande mestre do xadrez

Rowson contou que, quando se deu conta de que a felicidade não é a coisa mais importante da vida, se sentiu aliviado. Muitas pessoas sequer desejam ser felizes, acrescentou, mas não têm certeza do que querem na realidade. “Imagino que, na melhor das hipóteses – e é apenas uma hipótese – estão procurando a alegria”, ressaltou. “A alegria é misteriosa porque nós a desejamos como um prazer, mas não podemos encontrá-la sem sofrimento."

Se a alegria é preferível à felicidade – e isto depende de como definimos estas palavras – este é o momento de encontrá-la. “Aparentemente, nos dias de hoje, a alegria está em toda parte”, destacou Laura M. Holson. 

Uma das razões de sua ubiquidade, afirmou Ingrid Fetell Lee, autora de um livro que mostra como encontrar a alegria nas coisas comuns, é a dificuldade de definir o que seja. Ela disse a Laura Holson que o importante na alegria é o fato de que não precisamos ser felizes para senti-la. E é fácil de encontrar. Caminhar ao ar livre ou jogar um punhado de confetes são coisas que podem nos trazer alegria. “Eu não tenho de me preocupar em tornar tudo horrível na minha vida”, pontuou Ingrid.

Mas muitas alegrias têm um lado negativo. Michelle Shiota, professora assistente de psicologia social na Arizona State University, disse que buscar alegria em todos os momentos para mascarar  a tristeza ou a raiva têm riscos. “O que as pessoas chamam de emoções negativas são um sintoma de que há algo errado e nós precisamos mudar. Nós aprendemos com elas."

A alegria não significa sempre um estado de grande emoção. Ela pode ser encontrada em um local tranquilo. Na realidade, sentir-se muito emocionado o tempo todo interfere com a alegria. No Vale do Silício, há tantos estímulos que provocam este sentimento que algumas pessoas estão fazendo experiências com “o jejum de dopamina."

Os três fundadores de SleepWell, uma start-up de análise  do sono, estão se privando de muitas coisas durante estes jejuns: comer, ouvir música, tocar, contato visual, conversar, olhar para as telas, e trabalhar. “Somos viciados em dopamina”, enfatizou James Sinka, o mais entustiasta dos jejuns dos três fundadores. “E como a consumimos em abundância o tempo todo, acabamos querendo cada vez mais, portanto atividades que antes eram prazerosas, agora não são mais. A estimulação frequente da dopamina faz com que a linha de fundo cerebral esteja cada vez mais elevada."

Nelli Bowles escreveu no Times que as pessoas que fazem jejum de dopamina “caminham para dois grupos muito antigos: os que meditam em silêncio e os Amish." Portanto, mais uma vez, o que é antigo volta a ser novo. Sharon Salzberg, que ensina meditação budista, disse que quando o seu livro Loving-Kindness: The Revolutionary Art of Happiness foi publicado, ela precisou defender a felicidade de pessoas determinadas a chamá-la com outro nome.

“Várias pessoas dizem: ‘Por que você não diz alegria?’” Sharon falou ao jornal, acrescentando que elas confundem a felicidade como uma mera busca do prazer. Segundo o Dalai Lama, a verdadeira felicidade se encontra no coração e na mente, e não depende do prazer físico, que é fugaz. “Gosto de redimir a ideia e o significado de felicidade, para ter mais clareza e uma compreensão mais profunda. De modo que as pessoas saibam o que é de fato a felicidade." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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