Busca por vida fora da Terra gera debate entre especialistas

Busca por vida fora da Terra gera debate entre especialistas

Pesquisadores discutem se a inclinação dos planetas em relação ao sol pode ser determinante para a vida em outros mundos

Shannon Hall, The New York Times

02 Julho 2018 | 10h15

Durante o solstício de verão que ocorreu no mês passado, o Hemisfério Norte mergulhou na direção do Sol e se banhou em sua luz direta por mais tempo do que em qualquer outro dia do ano.

O solstício ocorre porque a Terra tem uma inclinação de 23,5 graus em seu eixo. Dada esta inclinação, ou obliquidade, há muito tempo astrônomos se perguntam se a inclinação da Terra teria permitido criar as condições necessárias para a vida.

Essa pergunta passou para o primeiro plano da pesquisa porque cientistas descobriram recentemente milhares de exoplanetas que orbitam outras estrelas de nossa galáxia, levando-os mais perto da descoberta de um esquivo planeta Terra 2.0.

Os astrônomos suspeitam que a inclinação desses exoplanetas varia enormemente - como acontece em nosso sistema solar, em que a de Mercúrio é de 0,03 grau e a de Urano, 82,23 graus. Segundo René Heller, astrônomo do Instituto Max Plank de Pesquisa do Sistema Solar na Alemanha, trata-se de dois extremos, dois planetas absolutamente não habitáveis, embora esses mundos possam se parecer como a Terra. 

Se nosso planeta não tivesse inclinação, não teria estações. Os hemisférios jamais se inclinariam no sentido oposto ao de sua estrela. Os polos seriam tão frios que o dióxido de carbono seria retirado do céu, um efeito, que, segundo Heller, faria o planeta perder seus preciosos gases do efeito estufa, de modo que a água líquida jamais se formaria.

Mas se o planeta girasse de lado, a vida também dificilmente teria surgido. Nesse caso, um dos polos apontaria diretamente para o astro hospedeiro e o outro se distanciaria dele, o que resultaria em um hemisfério recebendo a luz solar dia e noite durante esse longo verão, enquanto o outro hemisfério teria um inverno gélido e escuro - antes da virada das estações. Embora tal planeta talvez não perdesse a água líquida da sua superfície, todo tipo de vida teria de adaptar-se a um mundo que variaria permanentemente da fervura ao congelamento. Heller acredita que a inclinação ótima varia de 10 a 40 graus. 

Rory Barnes, astrônomo da Universidade de Washington, discorda. “Não há nada de especial em uma inclinação de 23,5 graus”, afirmou. “Podem existir as mais variadas obliquidades, e mesmo assim ainda haveria condições habitáveis”. A ressalva é que tal planeta deve ter uma atmosfera densa que permita transferir o calor para as regiões geladas.

David Ferreira, oceanógrafo da Universidade de Reading, na Inglaterra, e outros pesquisadores descobriram em 2014 que mesmo em uma Terra 2.0 com uma inclinação tão acentuada quanto a de Urano ainda poderia existir a vida, desde que o planeta tivesse um oceano global. O oceano absorveria o calor durante o verão e o liberaria no inverno, permitindo que o clima se mantivesse relativamente temperado.

“É quase como quando colocamos uma pedra no fogo e ela fica muito quente”, explicou Ferreira. “Se tirarmos a pedra do fogo, ela emanará calor lentamente”. Isso faz com que o mundo aquático tenha temperaturas primaveris o ano todo.

O resultado mostra um quadro esperançoso de um planeta que poderia ser habitável. Também sugere que não há nada de especial a respeito da Terra.

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