Jim Huylebroek / The New York Times
Jim Huylebroek / The New York Times

Polícia afegã tenta estancar alto índice de criminalidade

Durante anos, a população teve de enfrentar atentados à bomba; moradores agora se defrontam com outros tipos de crime, como sequestros, extorsão e assassinatos

Mujib Mashal, The New York Times

28 de fevereiro de 2020 | 06h00

CABUL – Eis um meme que circula na mídia social em Cabul: “Notícia de última hora: homem-bomba foi roubado por ladrões em Cabul. Os ladrões tiraram dele o seu colete, os detonadores e dois mil afegãos”  – cerca de US$ 25.

É uma piada, mas, na realidade, não é. Durante anos, os atentados à bomba e as infiltrações que atormentavam Cabul dominaram as manchetes e transformaram a cidade. Mas hoje observa-se uma relativa calma na capital no tocante a esse tipo de violência, devido às negociações entre o Taleban e os Estados Unidos.

Agora, os moradores se defrontam com outros tipos de crime, como sequestros, roubos à mão armada, extorsão, assassinatos. Um dos casos mais brutais verificados recentemente foi o de uma família de quatro pessoas todas mortas esquartejadas em sua casa.

Encarregados dos serviços de segurança afirmam que polícia ficou tão militarizada durante as duas décadas de guerra com o Taleban que os policiais estão despreparados para operar em tempo de paz.

Segundo Massoud Andarabi, ministro do Interior, a criminalidade não piorou drasticamente nos últimos anos, mas os moradores exploram a questão.

Andarabi, de 39 anos, foi nomeado no ano passado para mudar radicalmente uma burocracia corrupta que vinha sendo derrotada no campo de batalha. Ele substituiu os delegados de polícia de metade das 34 províncias do país por forças oficiais jovens mais habituadas a liderar comandos de ataque em território inimigo do que o trabalho paciente que é o policiamento comunitário.

Andarabi infiltrou uma unidade de “segurança interna” com 2.500 agentes com a tarefa de vigiar a polícia, mas achou que era tempo também de melhorar a capacidade dessa força no campo do combate ao crime.

Ele nomeou o coronel Aryan Faizy, veterano de 14 anos de trabalho na agência de inteligência, como chefe do Departamento de Investigações Criminais em Cabul, uma cidade que cresceu e hoje tem seis milhões de habitantes.

Cabul tem cinco mil policiais, muitos deles em postos de controle e fazendo a proteção de edifícios. Somente 1.200 foram designados para investigações de crimes. O coronel Faizy, de 38 anos, criou um centro de comando para monitorar dados de câmeras de vigilância nos balões sobre a cidade, junto a campanhas em redes sociais, como a #KabullsNotSafe. Aparelhos de GPS vêm sendo instalados em todos os veículos da polícia para os agentes se encaminharem de modo mais fácil até o local de um crime.

Recentemente, o rádio do coronel Faizy recebeu um informe muito comum: uma batalha armada havia eclodido no centro de Cabul. Mas desta vez não era nenhum ataque de um esquadrão suicida do Taleban. Era uma briga entre famílias. Omid Nizami, que a polícia descreveu como um gangster em disputa com um parente, foi morto a tiros. O parente, um ex-delegado de polícia chamado Zemarai Paikan, fugiu. Os partidários de Nizami ergueram barracas em protesto numa importante rodovia em Cabul, exigindo justiça. A polícia não só teve de investigar o crime, mas também dar proteção aos manifestantes. Essa parte, pelo menos, era bem familiar. Eles voltaram a vigiar homens-bomba. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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