Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Caça a uma tigresa que mata seres humanos

Tigres estão saindo das reservas em busca de território, companheiras e presas

Jeffrey Gettleman e Hari Kumar, The New York Times

15 Setembro 2018 | 10h15

PANDHARKAWADA, Índia - A primeira vítima foi uma idosa, que foi achada de bruços em um campo de algodão com enormes marcas de garras em suas costas. A seguinte foi um camponês mais velho, com a perna esquerda completamente arrancada.

As mortes continuam há mais de dois anos, semeando o pânico nas montanhas ao redor de Pandharkawada, uma cidade na região central da Índia. Em meados de agosto, o corpo dilacerado de Vaghuji Kanadhari Raut, um pastor de gado, foi encontrado perto de uma estrada rural. Ele foi a vítima número 12.

Testes de DNA, armadilhas com câmeras, numerosas visualizações e pegadas de tigre indicaram a morte de pelo menos 13 pessoas por uma única tigresa de 5 anos de idade que parece ter adquirido o gosto por carne humana e conseguiu escapar da captura várias vezes. De noite, jovens de aldeias vizinhas carregam tochas e bastões de bambu em suas patrulhas. Eles entraram em conflito com guardas florestais, furiosos porque estes não acabaram com as mortes.

Os especialistas afirmam que é um fato inusitado um tigre ter atacado tantas pessoas. A população de tigres da Índia, antes gravemente ameaçada, está aumentando consideravelmente, um sucesso da política de preservação, mas os animais estão sendo obrigados a competir com o homem.

Guardas florestais preparam uma operação militar com a ajuda de franco-atiradores munidos de armas para disparar tranquilizantes, montados em elefantes para cercar a tigresa, capturá-la e mandá-la para um zoológico.

Mas os elefantes ainda não chegaram, em razão de disputas burocráticas entre as agências governamentais indianas para a proteção da vida selvagem, cujas funções se sobrepõem, mas que aparentemente não dispõem dos recursos necessários.

Com o aumento do número de mortes - três aldeões foram mortos em agosto - vários políticos exigem que os guardas florestais abatam a tigresa. Mas isto seria ilegal na tentativa de bloquear ordens deste tipo, um ativista da proteção da vida selvagem levou a questão até a Suprema Corte da Índia.

No meio tempo, guardas florestais foram postados sobre frágeis plataformas de madeira instaladas sobre as árvores na floresta, com a ordem de ficarem em alerta para a presença do felino.

“Não quero matar este esplêndido animal”, disse K. M. Abharna, funcionário do departamento florestal da área de Pandharkawada, próxima das fronteiras dos estados de Maharashtra e Andhra Pradesh. “Mas há uma tremenda pressão política e uma tremenda pressão do público”.

A iniciativa do país para a proteção dos tigres, de certo modo, é uma vítima do seu próprio sucesso. 

Um monitoramento mais rigoroso, uma nova tecnologia e medidas mais duras em relação à vida selvagem favoreceram a um aumento considerável do número de tigres, de 1.411, em 2006, para cerca de 2.500 hoje - mais da metade dos cerca de 4 mil tigres que existem no mundo todo.

A população humana da Índia também cresceu rapidamente. Muitos tigres agora não dispõem de espaço suficiente. Estão saindo das reservas, vagando pelas rodovias e pelos campos cultivados em busca de território, companheiras e presas.

Os tigres são animais fortemente territoriais: quando um macho se torna grande o bastante, pode matar a própria mãe por causa do seu espaço vital. Nos últimos dez anos, a Índia criou cerca de outras vinte reservas para os tigres, para um total de 50. Mas muitas delas são cercadas por zonas habitadas por todos os lados.

As pessoas que vivem perto de Pandharkawada estão perdendo a paciência.

“Mate o bicho”, disse Rashika Vishal, a filha do pastor que foi morto. “Não há nada de bonito neste animal. Ele comeu meu pai e nós precisamos matá-lo antes que ele mate mais alguém”.

Com estes grandes felinos perto dos seres humanos, ocorrem acidentes fatais.

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