Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

Caçadores avançam contra elefantes num dos maiores refúgios da África

Em Botsuana, quantidade de novas carcaças de animais subiu quase 600% entre 2014 e 2018

Rachel Nuwer, The New Yok Times

20 de julho de 2019 | 06h00

Em setembro, preservacionistas em Botsuana descobriram 87 elefantes mortos, com os rostos cortados e as presas arrancadas. Eles alertaram para um aumento na caça. A notícia teve repercussão internacional. Botsuana era um dos últimos grandes refúgios para elefantes, geralmente poupado pela crise de caça que varreu boa parte da África.

O país abriga cerca de 126 mil elefantes da savana, cerca de um terço da população restante na África - os animais são numerosos a ponto de entrar em conflito com os aldeões do norte do país. Após o anúncio feito em setembro, o ministro do meio ambiente de Botsuana negou a existência de uma crise de caça, e em maio o governo suspendeu a proibição à caça de troféus que vigorava há cinco anos, suscitando a reprovação mundial.

Até alguns cientistas se preocuparam com a possibilidade de o comércio ilegal do marfim ter chegado a Botsuana. Agora, pesquisadores publicaram dados na revista Current Biology mostrando que, com base em levantamentos aéreos e visitas a campo, o número de novas carcaças de elefante em Botsuana aumentou quase 600% entre 2014 e 2018.

Cyril Taolo, diretor de pesquisa do Departamento de Vida Silvestre e Parques Nacionais de Botsuana, disse que ele e seus colegas estavam estudando o relatório “e desenvolvendo uma resposta” para as preocupações apontadas pelos preservacionistas. O levantamento foi comandado por Michael Chase, fundador e diretor da ONG Elefantes Sem Fronteiras, com sede em Kasane, Botsuana.

Apertados em um avião Cessna, Chase e seus colegas sobrevoaram 9.400 quilômetros quadrados de hábitat, contando e fotografando todos os elefantes vivos e mortos observados abaixo, a uma distância de 90 metros. Eles registraram 156 carcaças que pareciam ter sido alvo de caçadores, reunidas em cinco pontos de atividade.

Os pesquisadores estimaram que pelo menos 385 elefantes foram caçados em Botsuana entre 2017 e 2018. Ainda que a morte de quase 400 elefantes em uma população de 126 mil não pareça um exagero, os autores do estudo alertam para a possibilidade de a atividade dos caçadores se intensificar rapidamente. Em outros lugares, pequenas altas na caça precederam declínios acentuados na população de elefantes. “A caça não vai acabar sozinha", alegou Scott Schlossberg, analista de dados da Elefantes Sem Fronteiras e coautor do estudo. “Com base no panorama de outros países, a matança começa pequena e não para de crescer”.

Entre 2009 e 2014, a população de elefantes da Tanzânia caiu 60%, enquanto a Reserva Nacional Niassa, em Mozambique, perdeu 78% de seus elefantes no mesmo período. Registros de detenções e apreensões indicam que os caçadores por trás de massacres recentes de elefantes em Botsuana vieram principalmente da Zâmbia. Mas, embora as redes criminosas consigam se firmar fora de Botsuana, os caçadores não atuam isolados. “Normalmente, eles contam com apoio local", disse Mary Rice, diretora da ONG Agência de Investigação Ambiental. 

Para os aldeões de Botsuana, a tentação pode estar aumentando. Condições de falta de segurança nos países vizinhos fizeram com que os elefantes se reunissem no norte, intensificando o conflito, disse Neil Fitt, consultor de preservação em Botsuana. Ele disse que, recentemente, três botsuanenses foram mortos por elefantes no intervalo de uma semana. “Não estou dizendo que a caça é aceitável, mas, diante desses problemas, é difícil engajar as comunidades na proteção da vida silvestre", afirmou Fitt. “Medidas para remediar a pobreza e o desemprego nas áreas rurais ajudariam muito na proteção da vida silvestre". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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